Arquivo | 25-11-2013 17:36

Sacos de cadáveres evocam vítimas de violência doméstica na Baixa de Lisboa

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima depositou hoje 40 sacos de cadáveres, na rua Augusta, em Lisboa, para evocar as 40 vítimas mortais de violência doméstica em 2012, suscitando reacções de choque a quem passava.Os sacos estavam colocados lado a lado, ao longo de dois quarteirões daquela artéria da baixa lisboeta, como numa morgue ou na zona de impacto de um incidente. No interior, um manequim simulava um corpo.Cada saco identificava a vítima de violência doméstica pelo género - não pelo nome - e pela relação que mantinha com o agressor, dados a que acrescentava o motivo do crime e o tipo de agressão.“Isto é horrível, mas infelizmente é o que temos”, disse à agência Lusa Manuel Agostinho, um transeunte visivelmente consternado com aquele cenário.Manuel Agostinho disse não saber “como é se pode dar a volta” a esta situação: “É um crime silencioso, porque normalmente é feito em casa e as pessoas não têm hipótese de se defender e têm medo de denunciar”.“Estava a pensar como acontece uma coisa destas [violência], as pessoas não nasceram para isto. Estou chocado com isto”, desabafou.Gisélia Neves, que também passava pela rua de Lisboa, parou ao ver a acção da sensibilização da APAV, que assinala o Dia Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Violência Contra as Mulheres.“Choca-me e arrepia-me, não tenho palavras. É uma coisa bárbara ver tanta senhora a morrer por causa de tanta violência”, disse à Lusa.Confessou que o “mais chocante” é o facto se ser um crime que acontece na família, “em pessoas que são unidas”.Como razões para este crime, Gisélia Neves apontou o facto de as pessoas não terem dinheiro, nem “uma vida fácil", mas acrescentou que também “há muita maldade no ser humano, as pessoas são muito más, umas para as outras”.Matilde Ferreira sentiu “um arrepio profundo” quando viu "os cadáveres” espalhados pela rua. “Isto choca profundamente, nos dias de hoje não se admite". "Parece que estamos na idade da pedra”, comentou, ao passar pela rua da capital portuguesa.Para Matilde Ferreira, “a violência doméstica continua muito calada, muito pouco declarada”, porque “as mulheres têm medo” de represálias.Esta situação “é inadmissível na época que estamos” e tem de ser mudada, através da Igreja, das associações, dos meios de comunicação social e das redes sociais, concluiu Matilde Ferreira.Daniel Cotrim, da APAV, disse à Lusa que esta iniciativa pretendeu homenagear as 40 mulheres assassinadas em homicídio conjugal, em 2012, e as 33 mulheres mortas já este ano, até 20 de Novembro, de acordo com dados oficiais.A APAV quis também alertar para as “consequências gravosas que a violência doméstica, sobretudo contra as mulheres”, ainda tem em Portugal.Sobre a redução do número de crimes face a 2012, Daniel Cotrim explicou que, se por um lado, pode “parecer positivo, e é claramente uma influência das campanhas de informação e de sensibilização que as organizações têm feito”, por outro lado, parece que “a crise tem de alguma forma servido como desculpa para se fazer quase tudo, colocando as mulheres no patamar de maior vulnerabilidade face ao resto da população”.A “situação em que Portugal vive, em que não há emprego, há dificuldades de arranjar habitação, e sabendo que a grande maioria” das vítimas abandona a casa com filhos, “é complicado para elas pensarem em questões de autonomia”, justificouOs gabinetes de apoio à vítima verificam que é cada vez maior o número de pessoas que pedem ajuda, mas sobretudo para avaliar o seu grau de risco e delinear planos de segurança pessoal.A grande maioria das mulheres foi assassinada no período chamado de “janela de pedido de auxílio”.As mulheres apresentaram queixa, mas a medida de protecção demorou a ser aplicada e acabaram por ser assassinadas.Noutras situações, as mulheres acharam que podiam dar mais uma oportunidade ao companheiro.“Aquilo que sabemos sobre homicídio conjugal em Portugal é que ele ocorre, na maioria das vezes, na altura da separação ou quando a vítima está a pensar separar-se do agressor”, explicou.“É como se o agressor, ao mesmo tempo, pensasse: não és minha, não serás de mais ninguém".

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