Arquivo | 09-12-2013 09:35

Sem dinheiro para lojas, reina o comércio improvisado nas ruas de Bissau

À entrada da capital guineense, uma árvore com calçado pendurado parece anunciar o Natal de uma forma diferente, mas não são enfeites: é a montra de uma sapataria ao ar livre num dos países mais pobres do mundo.Do salão de beleza ao costureiro, para além do comércio de tudo e mais alguma coisa, muitos negócios que noutros países estão dentro de uma loja ou numa banca de mercado, na Guiné-Bissau são muitas vezes improvisados no meio da rua.As condições climatéricas permitem-no (nunca há frio e praticamente só chove entre Junho e Outubro), a informalidade do povo admite-o e a crise financeira agravada pela instabilidade política não deixa outra saída.Uma loja sai caro, caro demais para a maioria dos guineenses: para além da renda, é preciso pagar impostos "ao governo e à câmara. Aqui na rua é mais barato", refere um dos clientes, que prefere não dar o nome, e que desde há quatro anos compra calçado que vê pendurado na árvore à entrada de Bissau."Isto é uma boa forma de atrair os clientes", refere, como quem já conhece o negócio, enquanto se aproxima das botas, sandálias, sapatos de homem, senhora e criança, uns pares pendurados nos ramos, outros numa esteira abrigada sob a copa.É provável que muito calçado ali vendido seja depois reparado na rua dos sapateiros, tal como é conhecida uma das zonas de Bissau Velho, do tempo colonial, onde hoje eles se juntam e ocupam vários metros do passeio.Domingos Mendes, o "Dominguinho" dos sapateiros, ainda partilhou em tempos uma loja nas imediações, mas o espaço levou outro destino e ele nunca mais voltou a ter recursos para alugar um local entre quatro paredes.Nem ele, nem a meia-dúzia de companheiros de profissão que está sujeita ao calor e poeira.Escapam do Sol, perseguindo a sombra, arrastando sapatos e ferramentas de um lado da rua para o outro ao longo do dia, mas quando chove não há nada a fazer, senão parar.Num pequenino armazém comum, protegem todo o calçado enquanto duram as intempéries, no mesmo espaço onde o guardam à noite, e é assim que "Dominguinho" improvisa o dia-a-dia do ofício desde há 18 anos.Não faltam clientes, mas "não há dinheiro" para mudar o destino, queixa-se.Há locais marcados pelo tempo e tradição para os homens do câmbio de moeda, para as oficinas, para quem vende envelopes (em frente ao Ministério da Justiça), para os fotógrafos (perto dos serviços de emigração) e muito mais - e isto sem entrar no labiríntico mercado do Bandim e sem falar das vendedoras de fruta, dos homens do artesanato e dos cartões para telemóvel que andam por toda a parte.Quem sobe do porto do Pindjiquiti em direcção ao Palácio da Presidência encontra Almami Sane e uma antiga máquina de costura a pedal, num passeio, à beira do Hotel Coimbra, cuja família portuguesa proprietária o contratou há uma dúzia de anos.Está sempre rodeado de tecidos e peças de clientes que não cabem no espaço de que dispõe, naquele edifício familiar: "está ocupado com mercadorias", descreve Almami Sane que parece nem se importar."Gosto de estar ao ar livre, menos na época da chuva. Aí encosto a máquina até que pare, porque senão os tecidos estragam-se", conta o homem que aprendeu a arte em 1971 - três anos antes da Guiné-Bissau se declarar independente.Noutro local e fora da estação das chuvas, nada faz abrandar as filas para o salão de beleza encostado ao edifício do Benfica de Bissau.Valdemar e Zézinho, como são conhecidos pelas clientes, usam apenas alguns panos para cobrir o espaço e proteger (apenas um pouco) de olhares indiscretos as mulheres que procuram manicura, arranjo de sobrancelhas, pestanas ou outros trabalhos de precisão estética.Estão naquela rua há quatro anos, num dos cruzamentos mais frequentados da capital: "há movimento e há clientes que já nos conhecem, por isso, vamos continuar no mesmo sítio", refere Valdemar Barbosa.Acalenta o sonho de ter um salão, numa casa, mas as caixas de verniz de todas as cores, as unhas postiças e inúmeros pequenos utensílios vão continuar a estar empilhados em caixas no meio da rua porque não há dinheiro para mais.Nada que chateie Diana Vieira, uma cliente frequente: "estar na rua não me incomoda. Eu gosto do ar, dos carros, das pessoas".E a avaliar pela fila, há mais quem goste, num país habituado a improvisar.

Mais Notícias

    A carregar...

    Edição Semanal

    Edição nº 1380
    05-12-2018
    Capa Vale Tejo
    Edição nº 1380
    05-12-2018
    Capa Médio Tejo