Cartas do Brasil | 03-11-2015 17:52

Manuel Bandeira Cronista

Andorinha, andorinha (Global Editora, 2015, 4ª edição), de Manuel Bandeira, é um delicioso passeio por um poeta-cronista e militante das artes, e um passeio orientado por ninguém menos que outro grande poeta “diverso e múltiplo”, Carlos Drummond de Andrade, que selecionou um pouco do muito que Bandeira dedicou ao gênero. Desde suas recordações da meninice pernambucana até o que há de mais patético na vida urbana carioca. Das tertúlias na Academia Brasileira de Letras a todo um vasto mundo agitado por músicos, escritores, pintores e homens públicos, em geral artistas e gentes da sua mais afetuosa admiração. Artistas de verdade, como Oswaldo Goeldi, Villa-Lobos ou Albert Camus, e artistas de ocasião, os tais “linhares” tortos que não raro provocam em Bandeira aquela veia irônica marcada por áspera sinceridade. Sincero na medida em que foi sempre fiel a si mesmo e a cada momento de sua longa vida, em tudo que observou sobre os seres e as coisas do mundo. Em Andorinha, andorinha, sobram exemplos desse seu extraordinário temperamento. Como em breve crônica de 1961, que termina assim: “Em todas as suas obras pôs Goeldi a sua soledade palpitante da solidão de todos os solitários deste mundo: homens solitários, bichos solitários, casas solitárias. Noites solitárias (apenas, em horas de ventania, povoadas de espantalhos macabros). Encontros com a morte, sempre sob aparências macabras, escarninhas. Poucas vezes me senti na vida tão profundamente comovido pela grandeza de uma obra plástica em seu conjunto. Poucas vezes tomei tão clara consciência da inanidade dos modismos. Que lição para os artistas: Goeldi era genuíno.” Poeta bastante conhecido e louvado, está claro que Bandeira foi também um de nossos mais importantes cronistas, que na imprensa, por diversos períodos, se multiplicou em crítico de arte, de literatura e de música. E ainda com a mesma envolvência escreveu sobre teatro, dança, cinema e outros assuntos de nossa controvertida paisagem cultural. Um observador sem arestas e ferino humorista que ilumina também, em detalhes, muitos dos segredos de outras atividades que igualmente o consagraram: o tradutor, o antologista, o ensaísta. E, como não poderia deixar de ser, os seus segredos de poeta e de poesia, a “sua vida verdadeira”. Tudo com muita naturalidade, como quem em casa conversa com amigos.

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