Cartas do Brasil | 21-08-2018

Miri Felix e Sandra Mazzini

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Miri Felix e Sandra Mazzini

Duas salas, duas artistas – ambas na galeria Mercedes Viegas Arte Contemporânea, no Rio de Janeiro.

A primeira individual carioca de Sandra Mazzini ocupa a sala de entrada. Sandra vem de São Paulo, onde no ano passado montou a exposição Como os rios correm para o mar (Janaína Torres Galeria). Agora, no que chama de Pinturas, reúne telas em geral menores mas com a mesma potência persuasiva. Ao pintar paisagens fragmentadas como um painel de azulejos cujas peças não se ajustam, cria imagens que define quase como um jogo com o tempo, isto é, uma pintura estruturada em espaços simultâneos e voláteis, na qual contam sobretudo variações de luz e movimento. São fronteiras que se atraem e se repelem em imprevista mirada que se faz de muitas outras miradas, caleidoscópicas no que fixam, sugerem, insinuam.

Essa geometria desafiadora que impõe às suas tramas de flores, folhas, troncos, flora e fauna, cores e grades, é o aspecto forte de sua proposta, voltada também para estudos de cor e forma que desenvolve em enfrentamentos puramente plásticos. É o pintor na sua luta diária com tintas e pincéis, espectros de luz e ardentes visões. Sandra confessa ter sido impactada por Torres-Garcia, obra que conheceu de perto, no Uruguai. Mas seus pares seriam antes os paisagistas de eventual tendência abstrata, como Hockney, outra de suas grandes admirações em pintura.

Na segunda sala, Miri Felix volta a expor esculturas nessa mesma galeria (a mostra anterior foi em 2014). São em parte peças de forte acento onírico que acenam ao surrealismo, mas voltadas igualmente para a perspectiva dos oleiros primitivos, como nos artistas do Vale do Jequitinhonha, isto e aquilo sem nenhuma contradição: porque sua arte é, antes de tudo, erudita. Nela se harmonizam o surrealismo nuclear das esculturas de Maria Martins e o episódico surrealismo das pinturas de Ismael Nery, num caminho de mão dupla que não se afasta das nossas mais recentes tendências do tridimensional. Miri assim percorre desde o ímpeto eruptivo e primevo das propostas de Celeida Tostes, até alcançar, no outro extremo e num horizonte ainda mais experimental, a ousadia onívora de Érika Verzutti.

Não são propriamente influências, mas proximidades, identificações, afinidades eletivas. E Miri esculpe suas peças como quem ameniza conflitos, ao contrário do desenhista e pintor Ismael, que os levou muito à flor da pele, ora eclipsados ora potencializados pelo fervor religioso. Mais lúdica, ela parece driblar eventuais dualidades em conflito, e mesmo quando às vezes aparenta tridimensionalizar cenas pintadas por Ismael. Contudo, em Miri a opção pelo alegórico (muito clara em certas peças) se realiza como um assumido subterfúgio, uma necessária pausa, justo ali, onde Ismael Nery não se poupava e se deixou queimar pelo que Mário de Andrade chamou de “obsessão mística”.

Não sei o que motivou a artista a dar o título WWW à peça que sugere um ovo-olho, fabulosa como o “mundo ovo” de Eli Heil, cujo legado é um estuário de mitos a revelar que todo grande criador nunca generaliza: provoca, desconcerta, desestabiliza. Como Heil (ou o G.T.O. das rodas vivas), Miri Felix esculpe sonhos afastada de qualquer zona de conforto, num trânsito de inquietudes resumido ou transformado em Biblos – o antigo cada vez mais mergulhado no moderno.

Biblos – Miri Felix, e Pinturas – Sandra Mazzini são exposições que permanecem abertas ao público na galeria Mercedes Viegas até 29 de agosto de 2018. Rua João Borges 86, Gávea, Rio de Janeiro, Brasil.

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