Economia | 26-07-2011 14:25

Produtores de melão falam em crise mas não procuram soluções

Apesar dos produtores de melão dizerem que o sector atravessa uma grande crise, e que estão a perder dinheiro, não fazem nada para melhorar a situação. São os próprios que admitem não querer criar uma associação para escoar os produtos e negociar melhores condições de venda. Uns por não terem vontade outros por acharem que é tempo perdido.Produtora de melão há mais de quatro décadas, Fernanda Batista foi uma das dezenas de produtores de melão e melancia que marcaram presença na segunda edição do Festival do Melão que se realizou no fim-de-semana passado no Parque do Carril, em Alpiarça. A agricultora não pretende integrar nenhuma associação porque diz não haver “solidariedade” entre os produtores de melão. “Aqueles que vão para as associações são os primeiros a roubar. Não me interessa integrar uma associação porque fui uma vez a uma reunião para se tentar formar uma associação mas percebi que as vantagens eram todas para os grandes produtores. Não vale a pena”, refere a produtora.Lucília Coutinho critica a falta de “entendimento” entre os próprios agricultores. Diz que se fala “pouco” e que existe muito individualismo. “Não existem condições para se criar uma associação porque neste meio está cada qual por si e é isso que mata tudo. Os pequenos produtores vêem que não vale a pena continuar porque o melão só está a dar prejuízo e desistem, ficam pelo caminho. Tem que se inverter a situação”, alerta a produtora que com dois meses de vida já ia para o meloal com os pais.Os produtores são unânimes em garantir que um dos grandes problemas no escoamento dos melões portugueses são os espanhóis. Os preços baixos que praticam e o facto de exportarem em grandes quantidades para o nosso país faz com que não haja espaço para os pequenos produtores nacionais escoarem os seus produtos. “Existem grandes produtores portugueses que optam por semear muitos hectares em Espanha, em empresas onde têm sociedade, e importam-no para Portugal. Compensa-lhes mais porque conseguem vender mais barato e vendem o produto todo”, refere um produtor que pediu para não ser identificado.Durante a apresentação do Festival do Melão, o presidente da Câmara de Alpiarça, Mário Pereira (CDU), admitiu que o associativismo não chegou a fazer escola entre os produtores do concelho. O autarca defendeu a importância da criação de uma associação para ajudar os produtores e está empenhado em dar uma ajuda. “É nosso objectivo contribuir para criarmos uma associação de agricultores para que possam escoar melhor os seus produtos e reforçar os laços entre si através do associativismo”, referiu Mário Pereira. CAIXA Produzir melão não compensa Manuel Mendes, 66 anos, foi produtor de melão durante muitos anos. Há 16 anos decidiu deixar de produzir melão. Dava prejuízo. Diz que foi a melhor opção que podia ter tomado. Virou-se para a produção de azeite e hoje tem um lagar, em São Vicente de Paul, concelho de Santarém.O empresário refere que com o azeite tem negócio o ano inteiro o que lhe permite ter uma vida mais descansada. Manuel Mendes garante que chegou a ser um dos maiores produtores de melão da região. Carregava dois camiões diários para o Porto e vendia também para as zonas de Nazaré, Leiria e Marinha Grande. Como grande produtor conseguia ter uma boa vida? “Não. Quando produzia melão trabalhava muito e ganhava pouco. Não compensava o trabalho todo que tinha a semear o melão, apanhá-lo e depois vendê-lo”, afirma a O MIRANTE.Manuel Mendes não guarda saudades dos tempos em que produzia melão. O empresário diz que só quem não saiba fazer mais nada é que deve continuar a apostar nessa cultura e garante que nunca mais vai voltar a produzir melão.

Mais Notícias

    A carregar...

    Edição Semanal

    Edição nº 1363
    08-08-2018
    Capa Vale Tejo
    Edição nº 1363
    08-08-2018
    Capa Médio Tejo