Economia | 29-07-2015 18:09

Produção de melão na região está a cair de ano para ano

A produção espanhola chega mais cedo ao mercado e esmaga os preços, obrigando a maioria dos produtores a vender o produto a 16 cêntimos o quilo.

Vários produtores de melão estão a reduzir ano após ano as áreas de cultivo deste fruto. Uma situação que deixa a Direcção Regional de Agricultura de Lisboa e Vale do Tejo preocupada, ao ponto da directora regional apelar a uma união dos agricultores. Elizete Jardim apelou na inauguração do Festival do Melão de Alpiarça, na sexta-feira, 24 de Julho, para que se crie uma associação de produtores. Uma ideia que já foi falada noutros anos mas que tem esbarrado na falta de mobilização dos agricultores. Os problemas desta cultura, conhecidos há muito, são a concorrência espanhola, a falta de competitividade e as dificuldades de escoamento. Gabriel Sabino, 56 anos, e Dulce Frazão, 58 anos, estão cada vez mais a produzirem menos melão. Gabriel já só guarda uma pequena parte dos terrenos para fazer melão enquanto Dulce garante que vai deixar de produzir e enveredar por outra actividade profissional ligada ao ramo da restauração. Gabriel Sabino, de Alpiarça, costumava fazer 12 hectares de melão e nos últimos tempos tem vindo a reduzir a área ao ponto de este ano ter cultivado de melão apenas três hectares. “As despesas cada vez são maiores e preço do melão cada vez é mais baixo”. Dulce Frazão, que produz melão há quarenta anos, fez apenas dois hectares dos nove que costumava cultivar. A concorrência é um dos factores de desânimo dos produtores. “Os espanhóis invadem o nosso país com melões ainda antes da colheita em Portugal, o que faz baixar muito os preços. Há muito melão de Espanha a ser vendido como nacional”, justifica o agricultor, garantindo que vai produzir melão no ano que vem mas se as coisas continuarem assim vai desistir. Para Dulce Frazão, natural do Chouto (Chamusca) a residir em Alpiarça, a boa qualidade do melão produzido no Ribatejo não basta para aumentar as vendas. “Este ano foi extraordinário em termos de qualidade, muito devido às condições atmosféricas, e o nosso sol dá-lhe o sabor final”. Gabriel concorda mas lembra que “antigamente vivia-se bem desta cultura. Ganhei bom dinheiro mas, agora, se vendermos o melão a menos de 25 cêntimos por quilo dá prejuízo, não dá para trabalhar”. A maioria dos produtores está a vender a 16 cêntimos o quilo. “É uma vergonha uma grande superfície em Alpiarça estar a vender melão de Marrocos, quando estamos na terra do melão. Os nossos seareiros sabem produzir muito bem mas não o sabem vender”, acrescenta Dulce Frazão. Festival de Alpiarça para contrariar a tendênciaManuel Coutinho, 69 anos, afirma que os produtores vão “deixar de produzir melão mais ano menos ano”. O seareiro por enquanto não deixa de cultivar melão mas sublinha que vai reduzir a produção para um hectare e dedicar-se mais ao milho e à vinha. O produtor diz que “enquanto houver a concorrência de outros países isto não melhora, estamos na Europa, mas todos os países do mundo metem cá fruta, é o Brasil, a China e outros, o mercado está saturado”. A directora regional de agricultura considera que é fundamental que os produtores se juntem para aumentarem a escala e assim “conseguirem fazer subir os preços, acrescentarem valor e competir no mercado global que é muito agressivo”. Elizete Jardim reconhece que o preço do melão vai caindo de ano para ano e qualquer dia começa a não compensar produzir. O presidente da Câmara de Alpiarça, Mário Pereira, está “perfeitamente consciente de que não será este festival que irá resolver os problemas dos agricultores que são vários e graves”. Mas acredita que o certame “ pode ser um contributo importante para criar na região e junto dos agricultores mais-valias para o trabalho duro e persistente que realizam ao longo do ano”.

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