Entrevista | 26-02-2009 12:52

O trovador das canções de amor pintadas de amarelo

O trovador das canções de amor pintadas de amarelo
Primeiro foram as músicas de intervenção. Crítica aos dias intensos de publicidade. Oito anos depois surgem as canções de amor pintadas de amarelo. Amarelo paixão - em português, francês e castelhano. O cantor Jorge Rivotti, com ligações ao Ribatejo, continua a viver do lado esquerdo da vida, mas descobriu que é um cantor romântico. Ana Santiago Porque decidiu pintar de amarelo as canções de amor neste seu último trabalho?Pintei de amarelo como poderia ter pintado de outra cor. Mas amarelo é a cor do sol, de uma certa alegria. Amarelo para descomprimir do stress da crise. E ir aos tempos dos anos 60 e 70 dos Beatles. Mesmo que as canções não sejam pintadas de amarelo, que sejam pintadas de uma cor viva para que entrem melhor nas pessoas. Como um raio luminoso, qual quadro de Rembrandt…Considera que é amarelo – pálido – o tom do cenário da música portuguesa?Não é nada pálido. É bastante amarelo. O único problema é que não há muita gente a comprar, mas que a música está de boa saúde está. Há imensos projectos muito interessantes. Às vezes só é preciso que as pessoas oiçam. Está a falar das rádios?Falo em termos gerais. A televisão, por exemplo, é uma das razões que explica porque não há muita música. Passam sempre as mesmas e é por isso que as pessoas não conhecem mais. Esta conversa tem barbas. Mas as pessoas têm que gostar do que se faz no nosso país.A tendência é para melhorar?Acho que sim! Apesar desta história da crise. Não sei muito bem se acredito nisso... Se esta é uma crise imposta ou se é de facto uma crise. A realidade é que nunca houve tantos concertos em Lisboa. O mês de Fevereiro é uma loucura com concertos de grupos estrangeiros e ofertas clássicas. Há uma paleta enorme de escolhas. O seu trabalho tem-se pautado pela intervenção. E este último desloca-se um pouco dessa linha.Então o amor não é uma intervenção? É uma experimentação… Fui tentar perceber este meu lado não só de contestação. Fui buscar outras emoções. E o amor também é uma reivindicação.E pode mudar o mundo?Claro que pode. Se o Obama tiver amor pelo mundo ele vai mudar o mundo. Quem diz o Obama pode dizer o Cavaco Silva ou o Jerónimo de Sousa. É preciso é amor pelas coisas. Um bom rei é aquele que ama o povo. O mundo é governado por pessoas que têm que ser movidas por paixão. Desde “Dias da Publicidade” [2001] até às canções de amor passou muito tempo…Estive ligado ao projecto do grupo “garoto”. Fiz música para animação. Também é bom parar para se perceber algumas coisas. É como dormir e acordar no outro dia mais bem disposto. É importante olhar para dentro e perceber o que se pode fazer.E nesta introspecção o que descobriu?Descobri que era quase um cantor romântico. Não se assusta com o rótulo?Nada! Isso é fantástico. Há a ideia de que o romantismo é uma coisa foleira, mas não é. Os Beatles eram românticos. O Elvis era romântico. Vinicius de Morais dizia que o amor é eterno enquanto dura. O amor é uma coisa que não se vê. É uma engrenagem que vai rolando sem problemas. A paixão é o começar do amor. É um pouco este dilema do amor e da paixão que retrato. E a necessidade dos balões de oxigénio. Balões amarelos… Mesmo com esses balões é difícil fazer vingar o amor nos dias de hoje.Não. O que é o amor? Estar eternamente com uma pessoa? Não chega… Tem que haver picos passionais - tipo electrocardiograma. Essa ideia errada do amor para a vida toda… Não falo desse amor. Falo dos balões amarelos. Continua a viver do lado esquerdo da vida?Sim, aliás o amor é de esquerda (risos). É um valor que todos os homens têm. Até o mais cruel e carniceiro de todos os homens. O próprio Hitler apaixonou-se e acompanhámos há dias a série fantástica sobre a vida privada de Salazar.Estas canções são histórias de amor sem idades?Sim. Não houve qualquer intenção em escrever isso para determinada idades. Foi só tirar a cavilha da granada. Aquelas coisas que tem que se tirar para rebentarem.Metáfora perigosa quando se fala de amor e não de guerra.O amor não é o oposto à guerra. Numa guerra há amor. O homem é parte integrante da guerra. O maior assassino apaixona-se. Não falo de paixões políticas, mas de paixões humanas. Novo álbum com canções de amor“Passou tanto tempo do tempo, ai/ do tempo que invento/ toca-me a saudade/ canta uma gaivota/ vejo o mar em volta/ dançarei contigo/ dança esta ‘vals ilha’ aos raios de sol…”. Quem canta assim é Jorge Rivotti (http://www.myspace.com/jrivotti) e a sua guitarra. “Canções de Amor pintadas de amarelo” é o novo trabalho do músico, um tomarense de coração, a residir na capital. O projecto vai ser apresentado num concerto comemorativo dos vinte anos de carreira marcado para 21 de Fevereiro, no auditório do Instituto Franco-Português, em Lisboa. “Vent Froid”, “Vals ilha”, “Doce História”, “Baloiço de Inverno”, “Paixão Impossível” e “Dame una Rosa são alguns dos temas que integram o trabalho que esteve em gestação nos últimos três anos. “A minha roda está parada” e “Rosinha” também vão alinhar no espectáculo. O projecto começou a partir de uma canção que falava de amor: “Paixão impossível”. A partir daí tudo avançou. “As canções são pequenas histórias de amor. Momentos de exaltação amorosa. Amores mais cinzentos. Amores mais problemáticos. Amores mais fáceis. Momentos mais de contentamento e outros nem tanto”, descreve o professor do ensino oficial, 46 anos, autor das músicas e das letras do novo trabalho. Canta em português, francês e castelhano. E na forja tem já uma canção em italiano e inglês. “Até poderia ser em japonês. O som das palavras também faz parte do meu imaginário musical”. Jorge Rivotti nasceu no Brasil, tem uma costela italiana e alma de português. O percurso académico foi feito em Tomar, terra da mãe e de antepassados paternos. Tal como outros consagrados músicos tomarenses, Jorge Rivotti passou pelo Conservatório de Tomar e pela Associação Canto Firme, que considera pilar fundamental da tradição musical do concelho. Fez parte do coro e do grupo de música tradicional, onde foi colega de carteira de Carlos Moisés, vocalista dos Quinta do Bill. Em 1997 surge o seu primeiro disco a solo: Teoria Geral dos Caminhos. Em 2001 surge “Dias da Publicidade”, mas as participações em projectos musicais multiplicam-se.

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