Entrevista | 28-05-2009 12:27

“Não tenho medo de desafios mas não sou de me atirar às cegas”

“Não tenho medo de desafios mas não sou de me atirar às cegas”
No dia em que arranca mais uma centenária Feira de Maio em Azambuja publicamos uma entrevista "à rédea solta" com o presidente da câmara Joaquim Ramos (PS). O autarca agarrou as deixas e desenvolveu-as à sua maneira. De forma frontal e espontânea...Trabalhar pela noite fora…É uma coisa que faço com frequência e que vem dos meus tempos de estudante. Eu fiz o meu curso à noite. Trabalhava durante o dia e que remédio tinha eu senão continuar pela noite fora. Agora também gosto de trabalhar à noite mas em casa. O povo é quem mais ordena…Pelo menos é o que diz o verso da canção “Grândola Vila Morena”. Em democracia, em última análise, o povo é quem mais ordena. Infelizmente temos um deficit muito grande de participação cívica e, consequentemente, essa máxima apenas se materializa nos períodos eleitorais. Fora deles não há grande sentido crítico. E mesmo esse é, na generalidade, extremamente destrutivo. Conversas de bastidores…Tenho pouca paciência para esse tipo de conversa. Para a intriga política. Para os fait-divers que são o que alimenta esse tipo de conversa. Gosto de me focar nos assuntos que são importantes. A caravana passa…A caravana passa e os cães ladram. E ladram bem. Principalmente em anos de eleições. Felizmente por aqui a caravana passa e vai engrossando. Aumentando. Nas últimas eleições o aumento foi de cerca de 10 pontos percentuais e estou convencido que, este ano, ainda vamos aumentar mais. O trabalho do município é visível para quem quer ver. Nós temos proposto um determinado conjunto de objectivos e nestes dois mandatos que eu levo esses objectivos têm sido cumpridos e até ultrapassados. Abençoado aeroporto…Havia um modelo de desenvolvimento com o aeroporto localizado na Ota. Um modelo que assentava sobre determinados vectores como o social, o económico, o emprego, a construção civil. Depois há o modelo alternativo para onde tivemos de inflectir com a inesperada reviravolta, que é um modelo mais centrado na qualidade de vida, num desenvolvimento mais sustentado, mais lento, naturalmente. Entre os dois modelos não sei qual será preferível. Arrependimentos…Arrependo-me mais de coisas que fiz e não devia ter feito do que de coisas que não fiz. Se eu vivesse a minha infância nos dias de hoje seria considerado um miúdo hiperactivo. Tenho uma postura muito fervilhante. Gosto de fazer coisas. De me envolver. Mas na nossa vida tudo conta para aprender, mesmo coisas das quais nos arrependemos. Quando falha o diálogo…É muito complicado. Fico muito deprimido nessas alturas. Procuro manter sempre o diálogo, quer na minha vida política, quer na minha vida pessoal, mas o diálogo também tem limites. Quando estamos mandatados pela população não devemos evitar cortar o diálogo se a continuidade desse diálogo levar a que sejam defraudadas as expectativas de quem nos elegeu. Gato preto…Tenho uma única superstição. Nunca me sento numa mesa com treze pessoas. Improvisos…É uma capacidade que tenho. Flexibilidade de raciocínio. Pronta capacidade de virar o discurso, o pensamento, a atitude. Reconheço que tenho.Oh glória de mandar…É uma ilusão pensar que um Presidente de Câmara manda. No sistema político português está tudo tão armadilhado que na prática não mandamos nada. Eu apenas tenho capacidade de intervenção em cinco por cento do território do concelho. Oitenta por cento dos processos ao nível do urbanismo, por exemplo, são determinados pelas estruturas do poder central e não pelo Presidente da Câmara. Quem está disponível para exercer um cargo destes é uma minoria ínfima da população. Este concelho tem trinta mil habitantes. Que eu saiba temos quatro pessoas disponíveis para se candidatarem ao cargo de Presidente de Câmara. Uma ínfima minoria. Fim-de-semana…Festas populares, visitas a instituições e associações, inaugurações, colóquios…mas eu gosto de ir porque sou bem recebido em todo o concelho. Guardo algum tempo para os meus filhos e netos. Tenho um filho no estrangeiro e duas filhas, uma em Lisboa e outra em Azambuja e não estou com eles tanto tempo quanto desejaria. Eu explico, explico, explico…Gosto muito de explicar a quem quer entender. Não me canso de explicar mesmo que quem me ouve não perceba, desde que o meu interlocutor faça um esforço para perceber. Explicar seja o que for a quem não quer perceber é perder tempo. Irrita-me.Formalidades…Por vezes custa-me ser formal. Quer no traje, quer na postura, quer no tratamento. Tenho pouco jeito para a formalidade mas as minhas funções obrigam-me a ser formal. Tenho uma grande colecção de gravatas de que me vou desfazer quando abandonar o cargo. Vou ficar com uma ou duas para a eventualidade de ser convidado para algum casamento.É de caras…Não tenho medo de desafios mas não sou de me atirar às cegas. Gosto de estudar a forma mais produtiva de enfrentar os assuntos. Por vezes é de caras. Mas às vezes é de cernelha.

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