Entrevista | 14-01-2010 11:25

A antiga secretária de Estado da Educação que foi expulsa do internato

A antiga secretária de Estado da Educação que foi expulsa do internato
A ex-secretária de Estado da Educação do Governo de Guterres, Ana Benavente, deixou cedo o Cartaxo, onde nasceu, e rumou a Lisboa para terminar o liceu. Foi camarada de Odete Santos no Sidónio Pais, um instituto para filhas de professores de onde foi expulsa. Integrava um grupo de raparigas que já desafiava o poder instituído. É socialista convicta, mas desiludida com o projecto da actual direcção. Não esquece as raízes cartaxeiras e o estigma de um Ribatejo marialva. Também por isso se levanta a favor da guerra dos direitos das mulheres.Ana Santiago Como foi a sua infância passada no Cartaxo?Tenho a recordação de uma infância feliz numa terra pobre onde os grupos não se misturavam. De certo modo o meu percurso foi fugir ao destino. Vivi no Cartaxo até ao quinto ano do liceu. Andei no Colégio Marcelino Mesquita. Depois de frequentar a escola primária que era mesmo atrás da minha casa. Não havia secundário nessa altura nas sedes de concelho. Fui para Lisboa para um internato de filhos de professores. Era o Sidónio Pais. Foi para mim uma experiência horrorosa. Mas conheci lá a Odete Santos e outras coisas aconteceram a partir daí. Como era a vida na terra?Na altura, tirando as feiras e os toiros não havia grande vida cultural. Não tem nada a ver com o que é hoje. Vinha-se à capital uma vez por ano. Antes do Natal para fazer umas compras ao Chiado. Só quem podia. Era um acontecimento. O que fazia uma menina à época? Estudava. Na altura os lavores eram para mim um tormento. Mais tarde descobri alguma apetência para tecelagem. A vida era muito limitada. A escola era pobre. Não foi para mim a idade de oiro. Era boa aluna, filha de professores, estudiosa. Ao domingo ia passear ao jardim. Um pouco de igreja quando era mais pequena. Tenho pena que a escola não me tenha permitido ter algum desenvolvimento musical ou na área das artes, que são aquelas aprendizagens que ficam para toda a vida. Que hoje existe. Afinal nem tudo é mau.Muito pelo contrário. Hoje é bem melhor. Naquela altura não existiam tempos livres. Os filhos dos médicos, advogados e grandes proprietários já tinham acesso a outras práticas culturais. Os professores eram conceituados, mas ganhavam pouco. Os meus amigos eram os filhos do senhor da sapataria, da loja de tecidos e os filhos dos outros professores. Algumas meninas não frequentavam a escola pública. Iam a casa do professor. A escola pública – e pratiquei isso com os meus filhos - continua a ser a experiência de maior troca social e universalização que existe. Depois a vida se encarrega de nos separar. Onde nos cruzamos mesmo é na escola. Meninos descalços e meninos calçados. Meninos vestidos pela feira e pelas lojas. Era menina vestida pela loja?Era vestida pela loja com camisolinhas tricotadas à mão pela minha avó e tinha sapatinhos. Ao contrário da maioria das meninas que andavam descalças. Sentia essa diferença?Sentia. É talvez uma das memórias mais antigas da escola. Acho que um certo sentido contra a injustiça sempre viveu comigo. Muito influenciada pela minha avó materna que vivia connosco. Era uma força da natureza. Analfabeta. Aprendeu a ler sozinha. Uma mulher despachada, cheia de energia, muito positiva, que me ensinou muito. Tal como os meus pais. Fui aluna da minha mãe da primeira à quarta classe.Não era incompatível?Não, mas tinha muita pena de não dizer ‘bom dia minha senhora’. Como foi ser camarada de Odete Santos no Sidónio Pais?Como éramos raparigas filhas de professores que ganhavam mal tínhamos um instituto que era gerido por senhoras perfeitas, absolutamente autoritárias, zangadas com a vida, que nos liam a correspondência. Cadeados nas janelas pintadas de branco. Era uma menina estudiosa e bem comportada. Não tinham que me tratar mal. Isso criou um ambiente propício à revolta. Crescemos nesse instituto a praticar a mentira para nos defender. Os livros, além dos obrigatórios, eram proibidos. Evidentemente o primeiro livro que li foram os discursos de Fidel Castro trazidos pela Odete e “Assim falou Zaratustra” de Nietszche. Os livros de Sartre iam para a missa, forrados de preto. Toda aquela repressão teve para nós o resultado contrário: não perceber porque é que os rapazes tinham uma liberdade de movimentos superior. Iam para os cafés e começavam a vida sexual mais cedo. Pode ler a entrevista na íntegra na edição impressa desta semana

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