Entrevista | 27-01-2010 16:50

“Fui interrogado em Caxias durante 300 horas seguidas”

“Fui interrogado em Caxias durante 300 horas seguidas”
Carlos Alberto da Silva Coutinho, 67 anos, nasceu no Alto Douro, mas já se considera um ribatejano. Antigo vereador da CDU na Câmara de Vila Franca de Xira, foi jornalista, combateu na guerra colonial, fez parte das brigadas revolucionárias do PCP, foi preso e acabou torturado em Caxias. O escritor retirou-se há pouco tempo para dar lugar ao pintor. Como é que um homem do Alto Douro acaba por fazer vida em Vila Franca de Xira?Acabei em Vila Franca de Xira na sequência de ter vindo para Lisboa, recrutado. Nessa altura já tinha o “bichinho” de ser jornalista e escrever. Quando acabei a tropa fiquei por Lisboa, entrei para os jornais e vivi na capital uns 20 anos. Dei aulas durante uns meses enquanto estava numa situação precária no “Vida Mundial”, depois passei para “O Século” e fiquei profissionalizado até me reformar, há cinco anos. Depois fui um dos expulsos da cidade. Saí do caos de Lisboa para uma periferia suficientemente distante e arejada onde me sentisse bem. Alguns dos seus textos mais conhecidos são sobre a guerra. Que experiências guarda dessa passagem por Moçambique?Na tropa tinha uma alternativa: ou fugir à guerra ou lutar contra ela. Preferi lutar contra ela. Quando lá cheguei percebi que havia muito poucas hipóteses de ir lutar contra a guerra sem fazer a guerra. Acabei por descobrir que no serviço de saúde tinha que ter uma atitude igual, quer para um ferido português quer para um ferido inimigo. Isso foi o ideal para mim. O exército inaugurou a neuropsiquiatria militar e eu e outro colega fomos escolhidos para essa especialidade. Contudo acabei por ser o chefe da secretaria do hospital militar porque depois viram que não tinham condições físicas para aplicar aquilo que queriam. Acabei por ser um burocrata. Ver a guerra da janela não lhe deu vontade de ser mais activo?Tive muita vontade de que deixassem de existir algumas pessoas que via como criminosas, independentemente da cor da sua pele. Os criminosos que via, na sua quase maioria, tinham a minha cor de pele. Estar no Ultramar foi estar no meio de uma cidade envolvida na guerra por todos os lados, a vê-la em directo. Estavam em guerra as pessoas e os animais. O medo, o clima de pavor, ódio e desconfiança dentro da mesma cidade era o mais pesado de tudo. Eu vi a guerra dos guerreiros e da população civil. E vi o que isso fazia no comportamento das pessoas. Uma cidade a viver assim era um manicómio tão horrível e tão violento como em alguns textos que mais tarde escrevi. Sonha com ela?Às vezes. Lembro-me de um episódio. Uma noite cheguei ao meu quarto, fora do quartel, e ouvi um barulho. Fui à janela ver o que era e percebi que tinha sido um mabeco [nome dado em Angola a um carnívoro selvagem semelhante a um cão] que se aproximou de uma casa em busca de comida. Um sargento, meu vizinho, deu-lhe um tiro para ele fugir. Esse tiro foi entendido pelo sentinela do quartel como uma acção de guerra. O homem perdeu a cabeça, veio para a rua aos tiros e durante duas horas toda a cidade começou aos tiros a tentar responder a uma ameaça mútua que, no fundo, não existia. Parecia um arraial. A guerra produz-nos estas perversões.E depois de cumprir o dever pela nação foi preso pelo poder…Quando voltei prenderam-me porque continuei a lutar contra a guerra. Eu estava no PCP, que resolveu criar um aparelho militar chamado ARA [Acção Revolucionária Armada], e eu tinha muita vontade de promover rápidas mudanças no país. Quando me disseram o que era aceitei de imediato. Destruí uns quantos aviões e helicópteros em Tancos [distrito de Santarém], sabotei o Cunene [cargueiro português que levava armas para a Guiné] e fiz várias operações que debilitaram o aparelho militar colonialista. Depois, claro, acabei em Caxias…Torturado?Sim, fui torturado como nem quero descrever. O meu primeiro interrogatório durou 300 horas, quase nove dias seguidos sem dormir, com tortura de estátua. Perdi 32 quilos em 13 dias e fiquei com todos os cabelos do corpo brancos. Perdi visão, memória… mas recuperei e esse é um período da minha vida que não gosto de recordar.Pode ler a entrevista na íntegra na edição impressa desta semana

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