Entrevista | 22-09-2010 10:09

"Lobo Antunes é um dos cinco melhores escritores do mundo"

João Céu e Silva, personalidade do ano de 2009, eleito pelos jornalistas da redacção de O MIRANTE, é autor de “Uma longa viagem com António Lobo Antunes” de onde foram reproduzidas as declarações sobre a guerra colonial portuguesa que “enjoaram” os militares. Uma entrevista para percebermos melhor o pensamento do biógrafo que viajou com o escritor português vivo mais publicado e conhecido em todo o mundo.O vereador da cultura da câmara de Tomar lançou-se a António Lobo Antunes no FaceBook. Chamou-lhe uma série de nomes e mesmo depois de pedir desculpa disse que não retirava uma palavra ao que tinha escrito. Acompanhei o assunto pelo vosso jornal. Acho que é impossível negar que António Lobo Antunes não é um dos maiores escritores portugueses. E depois da morte de Saramago é de certo o maior escritor português vivo. A obra dele, por ser muito complexa, principalmente a da última década, pode ter um grau de dificuldade de leitura muito grande, mas é uma das maiores obras que temos em Portugal. Aliás, creio que, vivo, não há nenhum escritor que tenha uma obra como a dele que, curiosamente, é muito bem entendida pelos leitores mais jovens. Acho que são os leitores mais maduros, com mais idade, que têm alguma dificuldade em entrar na leitura dos livros de António Lobo Antunes porque estão habituados a romances mais simples em que existe uma história. Deve ser o caso do vereador da Cultura da Câmara de Tomar. Por causa desta polémica que o semanário Expresso foi desenterrar venderam-se mais livros e o senhor está todo contente.O livro tem tido uma venda constante. Os livros têm vendas muito grandes nas primeiras semanas depois tornam-se residuais. No entanto, ainda ontem estive com o meu editor e ele até estava surpreendido porque o livro tem vendido sempre cerca de três dezenas de livros semanais. Este livro não é para vender milhares de inicio. É um livro que as pessoas vão comprando. Depois tem um grave problema que são as suas 500 páginas, com letra pequena e que não se lê de um momento para o outro. Tenho tido muitas reacções ao livro, curiosamente, mais do que o do Saramago. Este tem gerado muito mais reacções e vejo que as pessoas têm o livro na mesa-de-cabeceira e vão lendo hoje uma parte, amanha outra. Esta polémica chamou à atenção para o livro mais uma vez. A polémica é que chegou fora do seu tempo. Na altura achei que isto ia dar mais confusão, não só aquela parte sobre a guerra colonial como outras partes que há no livro em que ele é muito crítico e polémico. Estava à espera que o livro, na altura, tivesse outra receptividade nos meios de comunicação social ou já está habituado ao silêncio…A crítica em Portugal tem um grave problema; faz textos sobre os livros mas não os lê. Houve duas críticas de dois jornais de referência em Portugal que eu considero que os dois autores da crítica não leram o livro. Comprovadamente não leram por inteiro, folhearam apenas.Já não há jornalistas de referência no jornalismo português?O jornalismo hoje em dia é feito muito em cima do joelho. Enquanto há uns anos se preparava um trabalho e havia tempo para o pensar e escrever, hoje é quase tudo de um dia para o outro. A meio do dia descobre-se o tema e ao final do dia a matéria tem que estar fechada. Portanto, a maioria dos jornalistas não tem tempo para fazer uma grande pesquisa e uma procura exaustiva da verdade.Consegue conciliar o trabalho de jornalista com o de biógrafo?É muito complicado. Este livro nasceu de 40 conversas, normalmente às sextas-feiras depois do escritor acabar o trabalho da semana, ou interromper o trabalho, e durou quase dois anos. Sou muito organizado. Cada vez que acabava uma conversa – o livro tinha um estilo, cada conversa um capítulo – fazia um texto introdutório e texto final opinativo. Todas as sextas feiras à noite fazia sempre o texto inicial e final e depois metia a conversa gravada no meio. Foi essa a única solução. Foi um trabalho muito acompanhado. Fui inserindo os depoimentos gravados no meio do texto inicial e final. Se o fizesse dois anos depois não me lembraria dos pormenores. Foi um livro que me exigiu um trabalho muito metódico.Nesta polémica foi ouvido por algum órgão de comunicação social?Estranhei muito que ninguém me tivesse perguntado. O Expresso, na segunda notícia, telefonou-me a pedir opinião. O Lobo Antunes é que era o visado e os militares é que são as alegadas vítimas. O que eu não acho natural é ninguém perguntar se aquilo era realmente assim. Aliás, há uma tentativa de fazerem passar a ideia de que o livro é ficção. O próprio general chefe do estado-maior diz que o livro é ficção e aquilo não tem nada de ficção. Deve ser o retrato mais realista sobre a guerra publicado até hoje.Entrevista completa na edição semanal de O MIRANTE esta quinta-feira.

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