Entrevista | 16-12-2010 10:28

“Os toiros e as toiradas estão-me no sangue”

“Os toiros e as toiradas estão-me no sangue”
Chamam-lhe o “Indiana Jones” das farmácias. Pôs de pé um museu dedicado à classe que oferece uma viagem global pela história da saúde. Para apresentar um museu entre os melhores do mundo resgatou peças à NASA e conquistou o mais antigo sarcófago egípcio em exposição em Portugal. A ideia partiu do sogro, que foi farmacêutico em Vila Franca de Xira, cidade onde João Neto nasceu. É casado e tem dois filhos. A paixão pelos toiros corre-lhe nas veias. É sportinguista e gostava que o Presidente da República fosse substituído por um rei. Nasceu em Vila Franca de Xira, cidade ribeirinha, e o Tejo continua a fazer parte da sua vida.Sim. Vejo o Tejo desde sempre. Nasci em casa, na rua Sacadura Cabral, antiga Rua das Pedras, e andei na escola em Vila Franca de Xira. Depois fiz o 11º e 12º em Lisboa, no Rainha D. Amélia, mas no percurso até ao liceu via o rio. Na Universidade Lusíada também. E mesmo agora no edifício da Associação Nacional das Farmácias (ANF) continuo a ver o Tejo. Formou-se em História e especializou-se em museologia. Como ganhou esta paixão?Aos nove anos decidi que queria seguir História. Nessa altura isso estava perfeitamente formatado na minha cabeça. Os meus avós paternos eram pessoas muito cultas e viajadas. A minha avó era uma pessoa muito patriota e monárquica. De que maneira os avós lhe incutiram esse gosto?Era muito habitual lá em casa falar-se de História e ir visitar monumentos. Ia com o meu pai e com o meu avô a mosteiros e aqueles monumentos representavam muito. Lembro-me de ficar deslumbrado com o filme “Camões”. Os meus avós viviam na zona das Amoreiras, em Lisboa. Fui uma pessoa muito dividida entre Vila Franca de Xira e Lisboa. Como foi viver a infância em Vila Franca de Xira?Vivia-se um ambiente que hoje os meus filhos não têm. Íamos a pé para a escola. Acabávamos por nos conhecer todos. Tínhamos os mesmos pontos de referência. Onde é que aprendi a nadar? Na escola prática da marinha... O cinema era o mesmo. A zona de brincadeiras também. A própria geografia de Vila Franca de Xira permitia isso. Era uma vida em comunidade. Arriscou nadar no Tejo?Nem os meus pais deixavam. Havia a noção de que o Tejo era perigoso.A relação com o rio é mais de contemplação.É uma contemplação entre a beleza e a tragédia. Havia a questão das cheias. Até entrar na universidade lembro-me que as cheias ocupavam a rua da estação. Era uma brincadeira para quem não tinha aulas, mas uma situação trágica para comerciantes e moradores. É aficcionado?Sempre fui. A minha irmã namorou com um forcado e viveu muito o lado da festa brava. Temos 12 anos de diferença. Eu era o menino pequeno e convivi com os amigos da minha irmã que aos 21 anos foi para Inglaterra. Os toiros e as toiradas estão-me no sangue. Em miúdos íamos para o Colete Encarnado e para as esperas de toiros da Feira de Outubro.Continua a ir a Vila Franca regularmente?Não vou dizer que seja regularmente, mas por viver em Lisboa não quer dizer que me tenha afastado de Vila Franca de Xira. Consigo acompanhar, embora por vezes ao longe, o que se passa em Vila Franca de Xira. Nunca perdi a ligação. Tenho a minha cunhada e alguns amigos. São poucos porque muitos acabaram por sair de Vila Franca de Xira. O parque habitacional está esgotado. É uma cidade um pouco entalada. Muitos deles acabaram por procurar casa fora daquela zona. Sinto que a minha geração se afastou por falta de alternativas. E conheceu a sua esposa em Vila Franca de Xira.O meu sogro era o Dr Salgueiro Basso da Farmácia Central de Vila Franca de Xira. Dava-me com vários grupos de amigos. A Paula estava num desses grupos. Começámos a namorar aos 18 anos. Não tínhamos playstation em casa e o que fazíamos muitas vezes era transformar o terraço ou uma garagem em discoteca. Levavam-se discos e uma boa aparelhagem. Era uma vida muito próxima entre amigos. Encontrávamo-nos no café Aracuá. Vila Franca de Xira tinha uma vida muito castiça, muito própria. Esse ambiente perdeu-se?A proximidade de Lisboa levou a isso. Não é que não viéssemos a Lisboa nessa altura, mas conseguíamos ter uma vida muito comum. Hoje não há cinema e as pessoas têm que deslocar-se a Lisboa. Como vê Vila Franca de Xira actualmente?A presidente de câmara, Maria da Luz Rosinha, tem feito um bom trabalho. Não digo que tudo seja uma maravilha. Cidades perfeitas ou pessoas perfeitas não existem, mas Vila Franca de Xira teve um avanço. Não era uma cidade feita, mas era suja em termos visuais pela questão da poluição da nacional que atravessa a cidade. Houve um grande melhoramento. Se me perguntar se ainda tem a mesma alma? Já não sei se tem…O Indiana Jones das peças de colecçãoQuais são as peças mais curiosas do Museu da Farmácia?Temos o sarcófago egípcio mais antigo em exposição em Portugal e algo pouco habitual neste tipo de museus que é uma doação da Nasa. Temos o equipamento que foi a bordo do Space Shuttle Endeavour no ano 2000. E temos objectos de cinema que foram utilizados com Sean Connery, por exemplo.Como conseguiu reunir esses objectos?Na Associação Nacional das Farmácias somos formatados para ser os melhores. Temos que demonstrar trabalho e respeitar as pessoas que nos dão apoio. É um trabalho que requer muita investigação, bom senso e que me fez andar pelo mundo. Porquê peças da NASA no museu?Temos peças da NASA e peças oferecidas pela agência espacial russa. Nós que estamos à frente destes projectos temos que ser os mais respeitadores da História. Nunca poderia falar da aventura espacial por um único dos lados. Foram projectos que foram muito difíceis porque foram doações de instituições estrangeiras. Portugal é um ponto no mapa. Muitas vezes mandavam a documentação a dizer “Lisboa – Espanha”. Foi complicado.Como conseguiu?É preciso acreditar. Foram dois anos de intensas conversas. Carta para lá. Carta para cá. Muitos telefonemas para mostrar que estávamos interessados e merecíamos. Como teve esta ideia?Estava a passear com os meus filhos numa noite clara e a minha filha fez-me ver as estrelas. Percebi que não tinha nada no museu ligado ao espaço. No dia a seguir fiz um telefonema para a Nasa e comecei imediatamente a ver quais as portas que deveria abrir. Num perfil público fala dos seus filhos - uma princesa e um guerreiro. Consegue colocar a família acima de tudo o resto?Família é família. Os meus filhos são o meu sangue e a minha carne. Por vezes são prejudicados quando o pai ou a mãe têm que sair para o estrangeiro para montar exposições. Gosto muito das peças - até tenho a alcunha do Indiana Jones das farmácias - mas ninguém ocupa o lugar deles.O Museu da Farmácia tem raízes em Vila Franca de XiraO projecto do Museu da Farmácia teve alguma coisa que ver com o seu sogro, Salgueiro Basso, farmacêutico em Vila Franca de Xira?Sim. O meu sogro era membro da Associação Nacional das Farmácias. Foi o meu sogro que teve a ideia, ainda em 1981, de lançar as primeiras bases para o futuro museu. A direcção da ANF achou que sendo este um projecto de âmbito cultural e patrimonial deveriam estar à frente pessoas da área. Rapidamente eu e a Paula, a minha esposa, também da área, começámos a trabalhar juntos neste projecto que acabou por estar muito ligado a Vila Franca de Xira. O design do museu foi feito por Américo Silva também de Vila Franca de Xira.De onde era o seu sogro?Era de Mação e vivia em Lisboa, mas por questões profissionais adquiriu a Farmácia Central de Vila Franca de Xira nos anos sessenta. E como surgiu a ideia do Museu da Farmácia?Tive a sorte de ter estado sempre ligado a pessoas que valorizaram a história. O meu sogro era uma pessoa extremamente culta. Ao começar a namorar com a Paula e entrar nesta nova família acabei por garantir essa continuação. O sogro esteve na génese deste projecto, tal como o senhor e a sua esposa. Continua a ser um projecto - como o de qualquer boa farmácia – familiar, mas sempre tivemos consciência de que era um projecto que tinha que ter toda a nossa dedicação.Para o espólio do museu teve algum contributo da farmácia do sogro?Claro. Portugal era até à época o único país civilizado do mundo que não tinha um museu ou uma colecção dedicada à história da farmácia. O meu sogro, pessoa de um enorme valor, fez aquilo que poucos fazem do ponto de vista ético. Antes de solicitar aos colegas que oferecessem peças ao futuro museu deu o primeiro passo. A colecção do Museu da Farmácia, com um conjunto de peças interessantes, é começada por ele.E tem algum objecto mais valioso?Não digo que seja um objecto, mas o valor da ideia. Esse é maior o legado.“Os museus não podem estar de braços cruzados à espera de público” O museu já foi premiado várias vezes pela APOM (Associação Portuguesa de Museologia) a que preside. Não foi acusado já de ter sido distinguido em causa própria?Não. Sempre dividi muito bem as coisas. Só sou presidente da APOM desde há três anos. O Museu da Farmácia também já foi premiado com outros presidentes. Um museu lá por ter o seu director neste órgão não deve ficar prejudicado. Que opinião tem do museu do Neo-realismo em Vila Franca de Xira?A opinião é muito positiva. As instituições têm que explorar aquilo que têm de melhor.Ainda não existe um museu da tauromaquia na cidade.Se Vila Franca o fizesse daria um belo passo. Tem uma tradição muito longa de famílias ligadas à tauromaquia, à criação dos animais e aos forcados. Cascais, por exemplo, baseou muito o desenvolvimento nos museus. Vila Franca com a história que tem poderia fazer o mesmo explorando as guerras liberais, as invasões francesas e o lado medieval. No caso do Museu do Neo-Realismo a cafetaria acaba por ser mais frequentada.Não vejo qual é o problema. O museu tem que ser um espaço que capte pessoas e tenho a certeza de que essas pessoas mal ou bem acabam por dar uma volta ao espaço. Por que é que muitas pessoas não estão sensibilizadas para visitar museus?A estratégia dos museus tem que ser a de procurar um tema específico que possa ser de interesse geral, mas isso é um problema de todos os museus. Diz-se que as pessoas não vão aos museus, mas os miúdos, mais do que nunca, estão em consonância com os museus, mais que os pais. As escolas fazem essa ponte e têm um papel importante. Estar de braços cruzados à espera de público é que não resulta.Se Portugal tivesse um rei em vez de um presidente o país não tinha chegado a este estadoÉ monárquico declarado. Influência dos avós?Os meus avós defenderam sempre a monarquia. Esta vertente reforçou-se ainda mais quando a minha irmã casou com um inglês. O lado britânico da Rainha deslumbrou-me. Tudo fez luz para me mostrar que uma monarquia num regime democrático é o melhor sistema. O meu avô tinha ligação a D. Manuel de Bragança. A coroa, desde que nasci, esteve sempre presente à frente dos meus olhos. Mas choro quando ouço o hino nacional. É um hino republicano, mas acho que é dos mais lindos. Aprecia mais a beleza que o significado.Acho que tem um significado que todos os portugueses deviam recitar antes de se deitarem. Sobretudo nestes momentos de crise para ver se Portugal consegue perceber que não podemos estar à espera dos outros para fazer alguma coisa pelo nosso país. Numa monarquia parlamentar seria mais fácil ultrapassar a crise?Os Presidentes da República, que deveriam zelar pelos interesses de Portugal, assobiam um bocadinho para o lado. Têm receio de actuar quando um conjunto de portugueses não sabe governar o país. A situação não se resolve com discursos na televisão, mas actuando junto dos Governos. Um presidente de conselho de administração tem esse dever para uma empresa quando as coisas não estão a correr bem. Nunca consegui entender que alguns presidentes deixassem ir por água abaixo a empresa de todos que é o país.Um rei assobiaria menos para o lado?Um rei não estaria tão ligado a um partido político. Estaria mais livre para actuar. Tem a ambição da política? Alguma vez foi eleito?Fui sempre eleito como delegado de turma desde o ciclo até à universidade. Depois, em Vila Franca de Xira, liguei-me ao PSD e CDS.E ao Partido Popular Monárquico?Não. Acho que a questão da monarquia não passa pela política. Tanto voto no PSD como no CDS consoante as pessoas que acho mais competentes à frente do partido. Sou de centro direita, mas de uma direita democrática e assumo que devem existir partidos de esquerda. Gostava realmente que Portugal tivesse um rei ou é apenas nostalgia?Não é nostalgia. Acho que está mais que provado que nestes 30 e muitos anos de democracia houve poucos Presidentes da República que tiveram uma actuação isenta. Se vemos os nossos filhos andar de bicicleta e caminhar para uma zona de perigo enquanto pais temos que actuar. Houve Presidentes da República que deixaram que o país chegasse a este estado. Claro que as pessoas mais conservadoras vão dizer que o presidente não pode actuar sobre o executivo. Então para que é que lá está? Para inaugurar e ir à televisão? É uma figura vazia?Se não fosse não estávamos na situação em que estamos. A pergunta que qualquer bom português deve fazer é: que governantes tivemos? Andámos a dar o voto a quem?É católico? A minha relação com a religião é muito pessoal. Quando tenho que rezar rezo. Não preciso de estar dentro de um ambiente religioso para pedir apoio a entidades. Refere-se a Deus?Os portugueses ainda continuam à espera de D. Sebastião, mas foi alguém que cometeu um erro estratégico que pôs em causa a nação. Peço ajuda a personalidades da História de Portugal ou a santos que tenham o valor acrescentado de resolver problemas. Quem são as personalidades?Portugal teve pessoas como o D. João II, o estimado conterrâneo Afonso de Albuquerque ou Nuno Álvares Pereira que no meio de grandes conflitos conseguiram dar a Portugal um caminho. Não digo que me ponha a pedir ajuda a Afonso Henriques, mas acredite que por vezes apelo pela vontade de S. Jorge e Nuno Álvares Pereira.Um monárquico que se comove a ouvir o hino nacional O director do Museu da Farmácia, em Lisboa, aparece no átrio do edifício, o mesmo que alberga a Associação Nacional das Farmácias, inclina ligeiramente a cabeça e cumprimenta a jornalista com um clássico beijo na mão. A conversa decorre num gabinete com vista privilegiada para o Tejo que João Neto, filho de Vila Franca de Xira, continua a mirar desde que nasceu. Arrasta ligeiramente uma perna. Sequelas de um acidente de mota na juventude. “Nada que um vila-franquense não supere”, responde com humor. É monárquico por convicção. Preferia a figura de um rei à do Presidente da República, mas confessa que chora ao ouvir o hino nacional. É director do Museu da Farmácia e presidente da Associação Portuguesa de Museologia, mas não resiste a tocar nos objectos com as pontas dos dedos para sentir a história a entrar-lhe pelo corpo. Como aconteceu recentemente num museu que visitou frente a uma peça de Carlos Magno, que encontrou acessível e sem vitrina. O guarda do museu passou-lhe um raspanete. João Neto sabe que não o deve fazer, mas a atracção pela história é mais forte do que o dever de cumprir as regras. No museu que dirige as regras são as mesmas. Os objectos não são para mexer. Excepção para o corno de unicórnio que os antigos acreditavam conseguir transmitir uma energia purificadora. É filho de um empresário de Lisboa. A mãe, natural de Azambuja, era doméstica. É casado e tem dois filhos - Catarina, 16 anos, e João Miguel, 14 - a sua princesa e o seu guerreiro. Chega ao museu por volta das 9h00, depois de deixar os filhos na escola. Trabalha em media 10 horas. Preparou com Paula Basso - ilustre colega durante as horas de trabalho, querida esposa fora das portas do museu – o projecto do Museu da Farmácia que nasceu de um sonho do sogro, que foi farmacêutico em Vila Franca de Xira. A bicicleta já o ocupou nos tempos livres, mas hoje o seu desporto favorito é o conhecimento. Devora livros de história e documentários. O seu desporto é o dos neurónios.

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