Entrevista | 22-12-2010 10:46

“Santarém é uma capital política regional que adormeceu ao longo do tempo”

“Santarém é uma capital política regional que adormeceu ao longo do tempo”
Mira Amaral diz que gostava de ver o líder da Nersant, José Eduardo Carvalho, em funções de liderança associativa empresarial a nível nacional, acha que Miguel Relvas pode ser a voz que a região precisa em Lisboa e elogia Moita Flores por ter resgatado Santarém do adormecimento em que esteve mergulhada durante muitos anos. Uma entrevista ao presidente do banco BIC, que guarda as melhores recordações dos tempos em que foi candidato a deputado pela região nas décadas de 80 e 90.Foi candidato a deputado pelo círculo de Santarém nas décadas de 80 e 90 e integrou as listas do PSD à Assembleia Municipal de Alcanena nas eleições autárquicas de 2001. Que recordações guarda dessas experiências?As melhores possíveis. Foi uma época bastante interessante, não só para o país mas também para mim. Tive muito gosto em conhecer na altura o distrito de Santarém, em contactar com as suas forças económicas e sociais e em colaborar com os meus amigos do PSD do distrito de Santarém. Chamo a atenção que fui cabeça de lista do PSD em duas eleições, mas nunca acabei por exercer funções de deputado por Santarém porque estive sempre no Governo. Da terceira vez, em 1995, fui eleito mas acabei por sair da Assembleia da República dois ou três meses depois. Mas mesmo não estando em funções de deputado tive sempre a preocupação permanente de acompanhar o distrito e ia lá muita vez.Como vê o tecido económico da região?O distrito tem uma excelente associação empresarial, a Nersant, com o seu presidente, José Eduardo Carvalho, que acho ser dos melhores dirigentes associativos empresariais que temos. Espero que se candidate a mais altos voos, porque gostaria muito de o ver em funções de liderança associativa empresarial a nível nacional.José Eduardo Carvalho já anunciou que vai deixar a liderança da Nersant.Percebo que já fez o seu trabalho de forma brilhante a nível regional na Nersant, que é das associações mais dinâmicas do país, e acho que com a idade que tem e a capacidade que revelou se devia lançar para um nível nacional.A associação Nersant talvez seja um dos poucos exemplos de agregação num distrito espartilhado entre duas associações de municípios. Essa divisão em duas sub-regiões tem sido prejudicial?Quando era ministro lancei um programa de infra-estruturas e apoiei a construção de um conjunto de pavilhões por todo o país. Curiosamente, os pavilhões das associações empresariais regionais que apoiei eram sempre feitos na capital de distrito. A única excepção foi no distrito de Santarém, onde o pavilhão da associação empresarial regional não foi feito na capital política, que é Santarém, mas sim na capital económica que é Torres Novas. Esse é um bom exemplo.Mostra de facto que nesse distrito há duas realidades. Há uma capital política que adormeceu ao longo do tempo. Penso que o actual presidente está a dar uma volta a Santarém, porque de facto as lideranças municipais tinham deixado adormecer completamente a cidade. Santarém foi perdendo a hipótese de liderar qualquer coisa em termos económicos e naturalmente o norte do distrito, como aconteceu com Torres Novas ou Ourém, começou a ganhar uma dinâmica que o aproximou mais do distrito de Leiria. É isso que eu sinto.Que conhecimento tinha de Santarém quando foi candidato a deputado?A família da parte do meu pai era de Santarém e lembro-me de lá ir passar férias a casa das minhas tias quando era miúdo. Gostava muito de Santarém, tinha uma componente agrícola fortíssima, mas quando lá voltei nestas missões políticas senti que a cidade estava completamente adormecida. Vem daí essa sua afinidade com a região? Foi por isso que foi escolhido para ser candidato a deputado por Santarém?Acho que o primeiro-ministro, na altura, quando me convidou, não sabia disso. Mas foi uma feliz coincidência.O que pensa do actual presidente da Câmara de Santarém, Moita Flores?Acho que está a tentar, e bem, colocar Santarém no mapa.Há quem diga que o Ribatejo necessita de uma liderança, de uma voz forte e aglutinadora que seja reconhecida no país e se faça ouvir em Lisboa.Essa era uma frase recorrente. Acho que esse líder estava encontrado, era o dr. José Eduardo Carvalho. Só que não é um líder político, é um líder empresarial. Mas de facto reconheço que a nível político não havia um grande senador político em Santarém. Houve o dr. Leonardo Ribeiro de Almeida, que era o grande senador que o distrito de Santarém tinha para apresentar em Lisboa. Espero que agora, na camada mais jovem, o dr. Miguel Relvas possa vir a fazer esse papel.Acha que tem perfil para isso?É um homem que já se afirmou a nível nacional e é neste momento um dos dirigentes mais importantes do PSD, como secretário-geral. É um homem que começou a sua carreira política no distrito de Santarém. Colaborei com ele muitos anos quando fui candidato a deputado. Acho que tem condições, pela sua juventude, mas também já pela sua experiência, pela sua afirmação política a nível nacional e pela ligação que tem ao distrito.Jorge Lacão, actualmente ministro e presidente da Assembleia Municipal de Abrantes, não podia ser também essa voz da região em Lisboa?Não vejo que tenha conseguido uma afirmação a nível nacional que seja útil para o distrito de Santarém. E se hoje perguntar às pessoas dos outros grupos parlamentares, quem não é do distrito de Santarém não consegue ver que o homem veio de lá ou tem uma ligação a Santarém. É visto como ministro dos Assuntos Parlamentares, mas isso não põe Santarém no mapa. Mostra que ele não conseguiu ter esse protagonismo no distrito.“O potencial agrícola do Ribatejo mantém-se intacto”Que visão tem da região do Ribatejo? Quais são os pontos fortes e fracos?O potencial agrícola de Santarém existe e mantém-se intacto e o distrito em termos de agricultura e agro-indústria tem um potencial único à escala nacional. Sinto também que com os parques de negócios que estão a nascer há uma dinâmica de instalação de novas empresas, mesmo na parte industrial e de comércio e serviços, que é importante. Tal como a criação na zona de Abrantes de unidades ligadas à metalo-mecânica e à produção de torres eólicas. Vejo também o problema na zona de Ourém ligado aos sectores da construção civil e do mobiliário, que passam uma situação difícil. Ourém tinha-se afirmado há uns anos como um pólo dinâmico emergente e agora sinto que está com problemas.O que pensa do facto de haver dois institutos politécnicos no distrito, em Santarém e em Tomar?Acho que fazia todo o sentido que só houvesse um, embora com dois pólos. Mas o problema não é só dos politécnicos, é do país. Cada um continua a querer ter a sua quinta, a sua capela quando, juntando-se, podiam ter outra massa crítica e outra dinâmica. Se calhar temos câmaras a mais, freguesias a mais. Há coisas que só por si não têm dimensão. Temos de perceber que o país mudou e tem hoje uma mobilidade, com as auto-estradas, que não tinha anteriormente. Os governos civis ainda fazem sentido?Os governos civis fazem cada vez menos sentido. Aliás, tem sido uma proposta recorrente dos partidos, quer do PS quer do PSD, acabar com eles. Mas depois nunca acabam. Porque quando chegam ao poder aquilo é cómodo para ter lá umas massas para distribuir ao pessoal e fazer política local. É a explicação que vejo para isso.Em relação às portagens nas SCUT, a A23 é uma das auto-estradas que vai passar a ser portajada. Como vê essa medida?Essas estradas têm de ser pagas. Se um particular passa na SCUT é porque tem automóvel, portanto não estamos a tratar da faixa da população mais pobre. Se são empresas que passam lá, obviamente que não pagando portagens têm uma vantagem competitiva em relação a empresas de outras regiões do país. Se há regiões do país que precisam de apoios, eles não devem ser dados através das SCUT. Sejam dados através de diferenciação dos impostos que as empresas pagam, de apoios financeiros ao desenvolvimento das regiões, à criação de empresas, à manutenção nas regiões de serviços públicos essenciais. É por aí que o poder político deve apoiar as regiões mais desfavorecidas. Apoiá-las pelas SCUT é um disparate!“A culpa da crise é de todos nós”De quem é a culpa da crise que vivemos?A culpa é de todos nós. Não tivemos consciência, quando entrámos no euro, que íamos chegar a este estado. Em 2002 escrevi um artigo, que se chamava “O tango argentino e o fado lusitano”, em que explicava que o país ia chegar a este estado. Quando, é que eu não sabia. Quando entrámos no euro só vimos o lado fácil da questão, que foi a descida das taxas de juro. Começámos todos, o Estado e nós, a consumir mais, mas não nos preocupámos em melhorar a produtividade, a oferta de bens e serviços. A nossa procura, o nosso consumo, o nosso poder de compra aproximou-se tendencialmente do nível europeu, mas do lado da oferta mantivemo-nos infra-europeus. Foi isto que aconteceu. E depois o Estado começou a gastar mais do que devia. Ao longo dos anos fomos tendo défices impressionantes, fomos acumulando dívida pública e agora os nossos credores dizem que a festa acabou e não nos querem financiar ou financiam com taxas de juro mais elevadas que o país também não aguenta. A crise financeira só acelerou o processo, não é a causa disto tudo, como o Governo diz.Então a banca não é a má da fita neste processo.Quem desencadeou a crise financeira foi a banca americana, não foi a banca portuguesa. A banca portuguesa está a ser agora vítima da situação macroeconómica do país. Quando já não havia poupança doméstica, porque os portugueses deixaram de poupar e passaram a consumir, a banca portuguesa não tinha aqui depósitos a prazo para financiar os nossos pedidos de crédito. Por isso passou a ir buscar dinheiro emprestado aos mercados externos. E o problema é que como temos a dívida pública quase toda colocada nos mercados externos os credores assustaram-se. E se o Estado falhar pagamentos os credores externos não financiam o país. A banca portuguesa, devido à situação da dívida pública, está com crescentes dificuldades de ir lá fora buscar o dinheiro necessário para financiar a economia portuguesa. Não houve também demasiado facilitismo na concessão de crédito por parte da banca?Também houve. A banca portuguesa também contribuiu para a má afectação de recursos na economia portuguesa. Mas devido a um quadro em que as taxas de juro eram baixas e o dinheiro era abundante. É da natureza humana: quando há recursos abundantes perde-se o bom senso, o rigor e facilita-se um bocado. Mas não foi a banca portuguesa que criou a crise financeira internacional. Como se dá a volta ao texto?A volta ao texto vai levar muitos anos. Os portugueses vão ter de se lembrar de coisas básicas, vão ter de trabalhar mais e melhor, vão ter que perceber que ainda não são europeus como alguns pensavam. A nossa produtividade é infra-europeia. Vamos ter de passar uns anos de sangue, suor e lágrimas, com muitos sacrifícios e ter uma sociedade civil mais consciente, mais responsável, mais actuante, que faça pressão sobre a classe política, para que esta seja mais responsável e comece a gerir melhor os destinos do país. No meio de tudo isto há uma coisa que me preocupa...O que é?É que as elites universitárias saiam para o estrangeiro, pois já não ligam nada à política. Temos um sério problema, que é cada vez mais sermos governados não pelos melhores da sociedade portuguesa, como aconteceu no meu tempo, em que o professor Cavaco Silva conseguiu levar para o Governo os melhores quadros portugueses. Hoje já ninguém consegue fazer isso. E estamos a arriscar-nos a ser governados pelos piores.“Já não luto pela camisola do PSD”Em 2001 surgiu surpreendentemente como cabeça de lista à Assembleia Municipal de Alcanena. Como aconteceu?Foi mais um episódio. O meu amigo Miguel Relvas pediu-me para dar o meu concurso ao PSD e eu dei o meu contributo. Devo dizer que se fosse hoje já não dava, pois já não luto pela camisola do PSD. Em termos orgânicos a minha dedicação e colaboração com o PSD acabou.Nota-se algum ressentimento. Porquê?Por causa da cena vergonhosa que me fizeram na Caixa em 2004, em que me foram buscar para os ajudar na Caixa e depois enganaram-me, enxovalharam-me de forma miserável. Mas mantém boas relações, por exemplo, com Miguel Relvas.Sempre estive e estou disponível para ajudar pessoas de que seja amigo, como já aconteceu com o dr. Luís Filipe Menezes, como acontece com o dr. Miguel Relvas e como pode acontecer com o dr. Passos Coelho. Estou disponível para o ajudar, para lhe dar as minhas opiniões. Agora contarem comigo para andar a lutar pela camisola do PSD, como aconteceu nessa altura, isso não contem, depois de ter sido vigarizado e insultado miseravelmente por um Governo do PSD na Caixa e Cahora Bassa. Porque fui convidado para resolver o problema de Cahora Bassa, resolvi, e depois nem uma palavra de agradecimento me deram.Mas a sua voz continua a ser escutada, não só no PSD como na opinião pública.É uma questão muito simples: alguns senhores Barroso, Manuela Ferreira Leite, Santana Lopes não perceberam que eu não preciso do PSD para viver. Sempre servi o país, nunca me servi do país. Digo aquilo que penso e, modéstia à parte, julgo que tenho alguma credibilidade junto da opinião pública nacional nas coisas que digo em termos económicos, industriais e energéticos.De engenheiro a banqueiro passando pela políticaLuís Fernando de Mira Amaral nasceu em Lisboa em 4 de Dezembro de 1945. É licenciado em Engenharia Electrotécnica, pelo Instituto Superior Técnico, mestre em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa e diplomado no Stanford Executive Program, pela Graduate School of Business da Universidade de Stanford (2000). Iniciou a sua carreira profissional em 1969, como assistente do Instituto Superior Técnico, onde é professor catedrático convidado desde 2005. De 1979 a 1984 foi regente das licenciaturas em Administração e Gestão de Empresas e de Economia, na Universidade Católica Portuguesa. De 1983 a 2004 foi professor associado convidado da Universidade Nova de Lisboa e professor catedrático convidado da Universidade Lusíada de Lisboa, entre 2000 a 2002. É presidente do Conselho Geral do ISG - Instituto Superior de Gestão, pertencente ao Grupo Lusófona, desde 2009. A par do ensino foi engenheiro da EDP, de 1975 a 1979, técnico do Banco de Fomento Nacional, de 1979 a 1984, e presidente do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social, de 1984 a 1985.Em termos políticos foi membro dos X, XI e XII Governos Constitucionais, ocupou os cargos de ministro do Trabalho e Segurança Social (1985-1987) e ministro da Indústria e Energia (1987-1995). Exerceu o mandato de deputado à Assembleia da República pelo Círculo de Santarém entre 1995 e 1999. Foi candidato à presidência da Assembleia Municipal de Alcanena pelo PSD nas eleições autárquicas de 2001, mas não conseguiu vencer.Foi presidente da Comissão Executiva da Caixa Geral de Depósitos (2004) e administrou o Banco Português de Investimento, bem como o Banco de Fomento de Angola e o Banco de Fomento de Moçambique. Na área industrial, foi administrador não executivo da EDP, Unicer, Cimpor, Vista Alegre, Repsol, entre outras empresas. É actualmente presidente do Banco BIC.

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