Entrevista | 28-07-2011 10:32

Um político profissional com saudades da actividade privada

Um político profissional com saudades da actividade privada
Assume-se actualmente como um político profissional, mas já tem saudades de trabalhar na actividade privada. Vasco Cunha é deputado, líder distrital do PSD e eleito da Assembleia Municipal do Cartaxo. Não perdoa traições e acha que os políticos deviam ser responsabilizados pelos actos de má gestão. Considera importante moralizar o acesso aos cargos dirigentes da administração pública e admite que haja militantes no seu partido que se põem em bicos de pés e forjam currículos para tentarem ser nomeados. Está há alguns anos na Assembleia da República, é autarca no Cartaxo há vários mandatos, é líder distrital do PSD. Não são muitos “burros” para tocar ao mesmo tempo?Não. Tem sido fácil de compatibilizar. O facto de residir no Cartaxo e de me deslocar todos os dias para Lisboa permite-me estar fisicamente próximo das coisas. No Cartaxo é fácil acompanhar a actividade política local, tal como a nível distrital. O mais difícil por vezes é conciliar as agendas. Mas é um problema que também se resolve.Podemos considerá-lo um político profissional?Neste momento, como não faço mais nada para além da política, tenho que me considerar um político profissional.Se tivesse de voltar à sua actividade profissional na banca, como gestor financeiro, provavelmente necessitaria de uma reciclagem? Na área onde estava, que era a internacional, a tecnicalidade é complexa. Hoje as pessoas ouvem falar com naturalidade daquilo que são os downgrades, os upgrades, os ratings, essa era a minha actividade normal na instituição onde trabalhava. São conceitos que domino com naturalidade. Mas tenho de admitir que teria que me adaptar, sobretudo na área técnica.O mundo mudou muito desde que deixou o banco para assumir em exclusivo o mandato de deputado.Mudou e está cada vez mais perigoso. Basta ver o que se passou com o nosso país nos anos mais recentes. Em seis anos o país foi capaz de duplicar o seu endividamento ao exterior. E é pelas instituições financeiras que passa o grosso do endividamento não só das famílias, das empresas mas também do Estado. Essas instituições são muitas vezes apontadas como as más da fita da actual conjuntura.Admito que sim, mas são veículos intransponíveis para fazer esta actividade. São os únicos capazes de intermediar com garantias, com cumprimento dos rácios que todo o sistema financeiro internacional obriga a cumprir. A vigilância que é feita sobre os bancos é, por exemplo, muito maior do que a que é feita sobre as empresas. As empresas queixam-se das elevadas taxas de juro praticadas pela banca nacional na concessão de crédito. Como vê essa questão?É um problema que agrava cada vez mais a situação financeira das empresas e toda a actividade económica em geral. Se não há dinheiro e há cada vez mais empresas, se o próprio Estado é um cliente do crédito, o pouco crédito que existe tende naturalmente a ser discutido e a ser cedido a quem dá garantias que pode pagar melhor. É natural que, havendo pouco dinheiro e muita gente interessada no crédito, as taxas de juro tendam a subir. Tem saudades de trabalhar fora da política?Tenho e quando posso gosto de fazer coisas que não estão relacionadas com a política, sobretudo ler coisas relacionadas com a minha actividade profissional. Há um encanto na actividade profissional privada que muitas vezes a política não nos deixa ver.A política não tem esse fascínio?A política também tem o seu lado de encanto. Quando os problemas e as situações não são irresolúveis também tem o seu encanto, porque há coisas que conseguimos fazer.Raramente se vê um político ser penalizado por actos de má gestão. Na actividade privada as coisas são muito diferentes.É verdade. O facto de haver políticos que tomam decisões que fazem com que as próximas gerações fiquem em situação complicada para gerir o que lhes é legado são crimes que deviam ser levados a tribunal, para que os políticos pudessem responder por isso. Fica irritado quando dizem que os políticos são todos iguais? Não posso ficar irritado. Compreendo. Do mesmo modo que considero que a classe política tem uma exposição superior à da maior parte das corporações das actividades profissionais, acho que é injusto dizer que as classe médica, dos magistrados ou dos professores são más porque um dos seus profissionais teve um desempenho que penalizou aquela classe. Não se pode confundir a árvore com a floresta. Pessoas devem ser nomeadas pela competência e não pelo cartão partidárioO Governo não nomeou novos governadores civis. Não fica um vazio na estrutura do Estado nesta região? Creio que o maior problema por resolver é o da protecção civil. E aí já foram enunciados alguns propósitos no sentido de resolver esse problema. Admito que nesta época do ano em que os fogos florestais têm maior incidência esse possa ser um problema colocado com urgência. Mas não tenho dúvidas que as estruturas no terreno são capazes de o resolver. O Governo não tem tido pressa na nomeação dos novos directores dos organismos do Estado na região. Isso causa alguma agitação no interior do seu partido?É natural que quando há eleições e os poderes partidários mudam na governação do país haja agitação no sentido de saber se há algum lugar político para quem ambiciona lá chegar. Admito até que nalguns casos há actores políticos que apresentam currículos ou fazem exteriorizar currículos políticos que não correspondem aquilo que têm. Tem sido confrontado com pedidos?Só digo que se ouve muita coisa na política e portanto é natural que os aparelhos partidários tendam a mover-se e a ter as suas ambições. Por vezes nem são militantes dos partidos, mas pessoas que gravitam em torno deles. Aquilo que o Governo está a fazer pode ser um bom caminho no sentido de moralizar o acesso aos cargos públicos da administração central e regional do Estado. Há necessidade de moralizar e ser exigente. As pessoas devem ter competência para o exercício dessas funções e não serem nomeadas por terem botões de punho, por terem um currículo artificial ou um cartão de militante.Entretanto têm de ir trabalhando com directores nomeados pelo PS.É a vida! Neste momento é assim que tem de ser. Acho que o país não se pode dar ao luxo de neste momento estar a pagar indemnizações a responsáveis políticos para os mandar embora, porque eles foram nomeados pelo anterior Governo.É presidente da comissão parlamentar de Agricultura. Já tinha alguma experiência nessa área ou vai tentar agora aprofundar os conhecimentos?Nos últimos tempos nunca participei directamente na comissão de Agricultura ou na sub-comissão. O facto de agora ter responsabilidades a esse nível não me obriga a ter mais ou menos conhecimentos de agricultura. Tenho de dirigir os trabalhos da comissão. Já teve alguma experiência laboral na agricultura?Já. Enquanto jovem fiz tudo o que tinha a ver com vindimas, com apanha do tomate, com o descarregar das uvas. Foi a experiência de quem tinha de ganhar dinheiro no Verão para poder sair à noite, estar com os amigos e beber uns copos. Sei o que custa o trabalho do campo.“Foram cometidos disparates e loucuras na Câmara do Cartaxo”Já desistiu da ideia de ser presidente da Câmara do Cartaxo?Não posso dizer desta água não beberei. Tenho uma paixão muito grande pelo Cartaxo, não a escondo. Há muitos anos que sou lá autarca, mas tenho a certeza que o PSD no Cartaxo tem feito ao longo dos últimos 12 anos um trabalho extraordinário para se credibilizar e para mostrar às pessoas que as coisas mal feitas nos últimos anos têm rostos e partidos políticos responsáveis. O actual presidente, Paulo Caldas (PS), não se pode recandidatar em 2013. Isso pode facilitar a vida ao seu partido?Admito que sim. O PSD tem que encontrar um rosto alternativo para as próximas eleições autárquicas…Quando fala em rosto alternativo quer dizer que já não será o senhor?Não. Estou a dizer que o PSD tem que encontrar actores para levar às próximas eleições, mas não só. Tem de levar também um projecto que mostre às pessoas que as suas propostas são melhores que as que estão a ser apresentadas pela maioria socialista. As pessoas vão percebendo aos poucos que as críticas que temos feito ao longo dos anos têm fundamento. O PSD pode voltar a apostar em Paulo Neves como candidato?Pode. Com certeza que sim. Esta polémica em torno do aumento da água no Cartaxo pode ser uma ajuda em termos políticos.Quando as pessoas sentem no bolso que os políticos os estão a afectar no dia a dia tendem mais facilmente a mobilizar-se. Não é por acaso que nos últimos dias foram recolhidas mais de três mil assinaturas para a realização de uma assembleia municipal extraordinária no Cartaxo. Ou seja, as pessoas só se mobilizam quando lhes vão à carteira.A mobilização é mais fácil por essa via. E muitas vezes não há consciência dos erros políticos que são cometidos em determinada altura e que têm implicações para as gerações seguintes. O que está a acontecer no Cartaxo há alguns anos é que se está a penalizar fortemente as próximas gerações devido à situação financeira do município. Foram cometidos disparates e loucuras em termos financeiros.As divisões no seio do PS/Cartaxo também podem facilitar a vida à oposição.Esse é um problema que o PS devia explicar à população do Cartaxo. Porque nas últimas eleições apresentou uma lista de candidatos liderada por Paulo Caldas que, tanto quanto sei, devolveu o seu cartão de militante socialista e até hoje o PS do Cartaxo nunca explicou se mantinha ou não a confiança naquele presidente de câmara e nos objectivos que ele se propunha cumprir em nome das listas que o elegeram. A segunda premissa é a de saber se o PS concorda com aquilo que foi feito ao longo dos últimos anos pela liderança de Paulo Caldas na Câmara do Cartaxo. Enquanto isto não for resolvido, para nós continua à vista que todos os erros cometidos ao longo dos últimos anos têm a assinatura de Paulo Caldas, de Pedro Ribeiro e do PS. As relações com Moita Flores, José Eduardo Carvalho e Miguel RelvasÉ uma pessoa aparentemente agregadora mas tem tido alguns conflitos com figuras públicas da região nestes últimos anos. Como está o seu relacionamento com o presidente da Câmara de Santarém, Francisco Moita Flores?Não tenho falado muito com ele ultimamente. Tenho muitas saudades de o ver chegar à Câmara de Santarém de bicicleta e de ter oportunidade de falar mais com ele. Mas admito que nos últimos tempos o trabalho tem impedido de estarmos fisicamente mais próximos um do outro. Sempre que é necessário vamos resolvendo o que há para resolver por telefone.Houve uma altura em que não se falavam.Não tenho ideia. Admito que durante algum tempo não nos tenhamos falado, não tenho ideia que tenha sido por muito tempo.Já fez as pazes com o ex-presidente da Nersant, José Eduardo Carvalho?José Eduardo Carvalho é um dos melhores quadros empresariais que esta região tem e felizmente tem feito o progresso que está à vista, ao ponto de chegar à presidência da AIP. E isso merece o meu respeito do ponto de vista profissional que um quadro desta estirpe tem.Essa não foi a pergunta que lhe fiz.Do ponto de vista pessoal não tenho que fazer mais qualquer avaliação. A sua relação com Miguel Relvas não ficou maculada quando apoiaram candidatos diferentes para a liderança do PSD, há uns anos?Não. Há cumplicidade entre nós. A primeira vez que não tivemos em sintonia remonta a 1995, quando eu apoiei Durão Barroso e ele apoiou Fernando Nogueira para a liderança do partido. O segundo momento em que não estivemos juntos foi quando apoiei Manuela Ferreira Leite e ele apoiou Pedro Passos Coelho na sua primeira candidatura à liderança do PSD. Isso não impediu que mais uma vez não voltássemos a juntar-nos naquilo que era importante para o distrito. Consta que quando Miguel Relvas foi saneado por Manuela Ferreira Leite da lista de candidatos do PSD por Santarém às legislativas de 2009, o senhor também quis sair da lista.E saí!Saiu?A lista que foi à comissão política nacional do PSD não tinha o meu nome. Umas horas mais tarde, já depois de aprovada, essa lista foi levada ao conselho nacional e continuava sem o meu nome. Só entrei na lista depois de esta estar sujeita a votos, eram quase duas da manhã.O seu nome saiu a seu pedido?Excluí-me. Disse à presidente do PSD que não ficava na lista naquelas condições.E depois volta a entrar na lista. Foi Miguel Relvas que o fez mudar de ideias?Foi. Essa é uma prova da tal cumplicidade política que diz existir entre os dois.O processo de escolha dos candidatos a deputados de então levou-nos a que tivéssemos também proposto à direcção nacional o nosso cabeça de lista. E a escolha de Miguel Relvas para esse lugar foi amplamente consensual. Ora se a presidente do PSD diz que aceita toda a lista com excepção do primeiro, está a dizer que alguma coisa no distrito não está bem. E aquilo que não estava bem era o primeiro. Sendo eu o segundo, sendo o presidente da distrital e tendo sido mandatado para entregar esse processo em Lisboa, achei que o que estava a ser feito era retirar a confiança não só ao presidente da distrital mas a todo o trabalho que tinha sido feito de ter uma lista e um cabeça de lista.Então qual foi a argumentação que o levou a mudar de ideias?Foi a necessidade de manter o distrito coeso naquela lista e que devia manter-me em segundo lugar tal como tinha sido indicado.Pai babado, sportinguista militante e fumador compulsivoVasco Manuel Henriques Cunha nasceu no Cartaxo em 23 de Março de 1965. Tem um longo currículo político, que começou na Juventude Social-Democrata (JSD), de que foi líder distrital. É deputado desde 2002 sem exclusividade e desde 2005 em exclusividade. Vai no segundo mandato como presidente distrital do PSD e em 2001 foi candidato à presidência da Câmara do Cartaxo, tendo perdido para o socialista Paulo Caldas. Integra actualmente a bancada do PSD na Assembleia Municipal do Cartaxo.Casado com uma socióloga, pai de um casal (um rapaz de 14 anos e uma menina de 9), diz que os filhos foram a melhor coisa que fez na vida e admite que nem sempre tem o tempo que gostava de ter para a família. É um sportinguista militante e os seus dois filhos foram por ele inscritos como sócios.Reside no Cartaxo e desloca-se diariamente para Lisboa. É um homem de rotinas que chega ao ponto de ter sítios certos na auto-estrada A1 para acender os cigarros que fuma pelo caminho - 4 para lá, 3 no regresso. Fumador compulsivo, confessa que as restrições impostas o obrigaram a mudar de rotinas e que por vezes sente-se constrangido por ter de se levantar, seja numa refeição, seja numa reunião, para ir fumar. Vasco Cunha começou a trabalhar no grupo Millenium Bcp ainda no último ano da faculdade, em 1992. Licenciou-se em Relações Internacionais e tem uma pós-graduação em Gestão de Instituições Financeiras.

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