Entrevista | 08-12-2011 00:48

Quando as pessoas de Vila Franca contratavam advogados de Lisboa para escapar às más línguas

Quando as pessoas de Vila Franca contratavam advogados de Lisboa para escapar às más línguas

Trinta e quatro anos depois Fernando Valente ainda sente um nervoso miudinho na semana que antecede o julgamento. É um dos mais antigos advogados de Vila Franca de Xira. Tem 67 anos e o estatuto de reformado com autorização para trabalhar. É do tempo em que as pessoas da cidade recorriam a advogados da capital para escapar às más línguas. Memórias de um advogado dedicado à profissão que coloca a ética acima de tudo.

É advogado há 34 anos. Está em situação de reforma mas com autorização para trabalhar. Por que tomou esta opção?Podia ter parado mas toda a vida trabalhei e não sei fazer outra coisa. Parar era morrer. Como o meu filho seguiu a profissão vou ajudando enquanto a cabeça estiver à altura. Ainda mantém o mesmo ritmo?Há muitas coisas que empurro para o meu filho. Já não tenho paciência para fazer muitos julgamentos. Faço mais trabalho de gabinete. Vou a diligências, a julgamentos de processos antigos e pesquiso jurisprudência que é um trabalho de que gosto. Quando estava a cem por cento no activo nem sempre tinha possibilidades de o fazer. É mais difícil ser advogado hoje?É diferente. Hoje em dia têm mais apoio e formação. A própria Ordem dos Advogados além de manter a figura do patrono vai dando formação. Nós éramos atirados aos leões e tínhamos que nos desenrascar. Hoje a concorrência é muito elevada. Há advogados a mais?Tudo o que é excessivo é pernicioso. Seja em que campo for. As pessoas depois dificilmente conseguem angariar trabalho para poder subsistir e exercer a profissão condignamente. Seria bom haver um número máximo previsto de advogados em defesa da própria profissão. Como são muitos há uma competição grande que por vezes coloca em causa as regras de natureza deontológica. Refere-se a quê exactamente?Quando éramos menos havia mais solidariedade. Há colegas que podem sentir-se tentados a roubar a clientela a outros colegas em desespero de causa…. Já perdeu alguns clientes para outros advogados?Se na comarca de Vila Franca havia 12 quando comecei e se agora há 200 é natural que o trabalho se distribua. Todos sentem que perdem a clientela. Naquela altura não faltava trabalho…Como éramos poucos havia trabalho para todos. Naquela altura as pessoas recorriam mais aos advogados. Mais do que hoje?Sim. Por uma questão preventiva. Antes de fazer uma asneira iam falar com o advogado. Hoje não sei por que não o fazem. Há pouco tempo encontrei um cliente dessa altura que me foi consultar antes de fazer determinado negócio que desaconselhei. Não fez o negócio e disse-me que isso evitou que perdesse cinco mil contos. As pessoas pensam que as leis são de uma maneira e são de outra. Se preciso de meias solas vou ao sapateiro por isso se preciso de saber de leis tenho que ir ao advogado. As pessoas vão menos ao advogado também porque há um certo descrédito da justiça?As razões são várias. O poder de compra também diminuiu. Se as pessoas puderem evitar gastar 60 ou 80 euros fazem-no. Às vezes o que é barato sai caro. Por se estar próximo de Lisboa há quem prefira os advogados da capital?Houve um período em que as pessoas evitavam os advogados de Vila Franca e procuravam um advogado de Lisboa porque não queriam que se ficasse a conhecer as suas vidas. O meio era pequeno. O advogado ficava a saber quem tinha prevaricado. * Entrevista completa na edição semanal de O MIRANTE.

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