Entrevista | 22-12-2011 10:22

Um padre que usa o humor e a psicologia para espalhar a mensagem da fé

Um padre que usa o humor e a psicologia para espalhar a mensagem da fé

Oriundo de uma família humilde, Albino Carreira guardou ovelhas em criança até entrar para o seminário. Seguiu a vocação religiosa e foi ordenado sacerdote, passando a ter sob sua responsabilidade outros “rebanhos”, como o dos reclusos da prisão onde trabalhou ou os dos fiéis das paróquias por onde passou. Se for preciso confessa as pessoas na rua e faz questão de visitar os enfermos em suas casas. Pelo meio fez três cursos superiores, porque, como diz, em tudo o que se mete é para levar até ao fim. Sobre a forma como é encarada a quadra festiva que atravessamos é pragmático: “O Natal é muitas vezes um aniversário sem aniversariante: Jesus”.

Quando é que descobriu a sua vocação para o sacerdócio?Em criança, com nove, dez anos. Foi um caminho que segui, embora com muitas dificuldades para os meus pais, por motivos não só de ordem económica mas porque eles queriam que os filhos estivessem em casa a trabalhar para o ambiente familiar. Mas tanto insisti que consegui. Recordo que tive imensa dificuldade em terminar a 4.ª classe porque não havia escolas na minha terra. A minha mãe, que vendia queijos, pediu ao sr. professor de Mira d’Aire se me aceitava e foi assim que concluí. Depois os meus pais puseram-me a guardar os rebanhos. Mas como insistia que queria ir para o seminário eles deixaram-me. Entrei no Seminário de Leiria com 13 anos (os dois primeiros anos passei-os em Fátima) e ordenei-me no dia 15 de Agosto de 1964.Como surgiu essa vontade?Havia um rapaz muito inteligente e muito sensato da freguesia de São Mamede chamado Luís Ribeiro e era do seminário da Consolata. A postura dele foi um estímulo para mim. É um homem muito simples, muito humilde, mas de muito valor. Era mais velho do que eu, conhecia-o porque era um seminarista da freguesia e quis imitá-lo.Como é que a sua família acatou essa decisão?Aceitaram bem. Receavam que eu mais tarde fosse para muito longe e os desprezasse mas aconteceu o contrário. Estive sempre perto da minha casa, até os meus pais serem velhinhos. Os meus irmãos estavam todos emigrados em França. O sr. bispo mesmo sem saber da minha história colocou-me em Mira d’Aire a celebrar missa ao fim-de-semana. Ou seja, vinha todos os fins-de-semana a minha casa e pude sempre acompanhar os meus pais.Que caminho seguiu após ser ordenado?Ordenei-me com 26 anos e fui colocado numa freguesia chamada Souto de Caparrosa, distrito de Viseu. Estive lá um ano e meio. Depois o sr. bispo chamou-me e fui nomeado director espiritual no Seminário de Leiria onde estive sete anos. Logo a seguir à minha ordenação, o sr. bispo colocou-me a mim, e a outros padres, a estudar no Colégio Universitário de Pio XII, em Lisboa. Estive lá seis meses a fazer pastoral e encontrei alguns padres que andavam em Psicologia no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) Foi ai que conheci quem estudava Psicologia e entusiasmaram-me. Aproveitava o meu dia livre para ir às aulas. Foi assim que fiz o curso superior de Psicologia.Sei que não foi o único curso superior que tirou…Entretanto os meus colegas incentivaram-me a fazer o curso de Antropologia porque dava equivalência a muitas disciplinas e ficava em dois anos. E então fui para o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa, onde tirei o curso de Ciências Antropológicas. Cheguei a dar aulas de Religião e Moral no Ciclo Preparatório D. Dinis, em Leiria. Foi uma experiência maravilhosa ensinar aqueles meninos do 5.º e 6.º ano. Mais tarde ainda fui tirar um terceiro curso superior, de Estudos Portugueses, na Faculdade de Letras, na vertente Português-Latim.Concluiu três cursos superiores, portanto?Sim. Eu tinha duas leis: “Se não querias acabar, não tivesses começado” e “Trabalho começado, trabalho acabado”. Por isso, em tudo o que me metia era para levar até ao fim.Que postura assume como pároco?Acho que, sobretudo, devemos estar próximos das pessoas. À vontade e com vontade. O contacto social é muito importante. As pessoas têm muita fome de pele, muita necessidade de falarem. E eu escuto-as.Como é que reage quando um telemóvel toca durante a eucaristia?Nunca sou crítico. Digo: se calhar o Céu tem alguma mensagem a dizer-nos. Pego muito nas situações que acontecem para fazer o improviso humorístico, que faço com muita facilidade. Certa vez estava a celebrar uma missa e entrou um passarinho. Disse: “Olha, já temos pregador hoje. Não preciso de fazer homilia hoje”. E depois fiz uma homilia com base numa canção sobre um passarinho. Numa outra ocasião, encontraram-se umas chaves e, na altura de ir celebrar a missa, pendurei-as ao pescoço. Um paroquiano disse serem suas. Chamei-o ao altar, aproveitei a embalagem para fazer passar a mensagem das chaves que são necessárias para a entrada no Céu.Sente que esta crise contribui para a aproximação das pessoas à Igreja?Não vejo a minha igreja mais cheia por causa da crise. As pessoas que vão à missa estão incluídas na faixa etária dos 50 anos para cima. É difícil chamar os jovens. Temos a missa de catequese cheia de crianças mas os jovens, depois de fazerem o crisma, desaparecem. É um fenómeno sociológico. Uma questão de grupos. Hoje não temos garra para criar grupos. Mesmo assim, estou a tentar criar um grupo de jovens cristãos ajudado por um grupo de Fátima.“O Natal é muitas vezes um aniversário sem aniversariante: Jesus”Como encara a forma como o Natal é celebrado hoje?É a data do Cristianismo mais festejada. Nem mesmo os ateus e os não praticantes conseguem fugir do Natal porque, de uma ou de outra, são confrontados com esta festa. O Natal é necessário. Todos o sentimos e reconhecemos. As sociedades e as pessoas já não sabem nem podem viver sem o Natal. Ele faz parte não só da sua matriz cultural, mas também da sua identidade social e da sua dimensão religiosa. O Natal é uma espécie de força motriz onde as sociedades e os povos, as famílias e as pessoas vão procurar luz, energia, ânimo e esperança para acreditar que a vida tem sentido, o futuro é possível e o mundo pode e deve ser melhor.Considera que a componente comercial está a abafar a dimensão espiritual do Natal?Pelo menos distrai e pode mesmo desviar do verdadeiro sentido o Natal que é o nascimento de Jesus. As belas árvores enfeitadas, as luzes em quase todas as portas e janelas, a figura do Pai Natal, as decorações que nos deixam de olhos extasiados, o consumo de comidas, bebidas, roupas e presentes tiram ou, pelo menos, abafam o verdadeiro espírito do Natal. É em muitas situações um aniversário sem aniversariante: Jesus. Mas, se quisermos, podemos neste Natal e nos que se vão seguir, melhorar a nossa convivência uns com os outros, exercitar o perdão, a tolerância, a humildade, a caridade e evitar atitudes de orgulho, de egoísmo de preconceito e de maledicência.Como vê o facto de a figura do Pai Natal se ter sobreposto quase completamente à figura do Menino Jesus?O Natal foi fixado no dia 25 de Dezembro para cristianizar o dia do deus sol do paganismo. O Menino Jesus que nasce é o “sol nascente”, é a “luz das nações”. Não podemos viver um Natal pagão, sem Deus, sem o Menino. Um Natal só com o Pai Natal, com a árvore de Natal, com prendas, com compras, com ofertas, com o sentido de festa mundana. Temos que dizer não a um Natal de consumismo e de compras, em que se gastam rios de dinheiro.Como passa habitualmente a noite de Natal?Em contacto com o povo de Minde que me foi confiado e que agora considero minha família. À meia-noite celebro a Missa do Galo que é sempre muito concorrida e solenizada, no fim da qual há uma bebida quente acompanhada de alguns doces.Que presente especial guarda na memória?De uma imagem do Menino Jesus que ainda guardo, com muito carinho e devoção, na minha mesa de trabalho.Que memória mais remota conserva do Natal da sua infância?Recordo com saudade o presépio que se fazia no templo onde participava na Santa Missa e da grande festa de Nossa Senhora do Amparo de Mira d’Aire. Não havia prendas de Natal. A minha origem é muito humilde. O melhor presente é Jesus.Que mensagem tem para ajudar a enfrentar a austeridade que nos espera em 2012?Digo que o Natal de Jesus se renove e celebre no íntimo do coração humano, no ambiente sagrado da família e na liturgia festiva da comunidade, a fim de que o mundo acredite na esperança de um futuro mais feliz para a humanidade. Que as mensagens, as saudações, os gestos de proximidade, as distâncias vencidas, as ruas iluminadas, os presentes repartidos, os sinais de beleza distribuídos e os esforços para reunir e congregar as famílias levem a uma maior partilha. Que, em época de assumida globalização, todas as pessoas de boa vontade assumam com alegria, serenidade e coragem a missão de fazer surgir no mundo a esperança que nasce do Natal. Que o Senhor nos abençoe e guarde. Nos mostre o seu rosto de bondade e nos conceda um Ano Novo de vida e de Paz.Dezassete anos a trabalhar com reclusosOs cursos superiores que tirou deram-lhe jeito na sua prática do sacerdócio?Sim, especialmente o de Psicologia, porque mais tarde vim a trabalhar, durante 17 anos, na cadeia-escola do Estabelecimento Prisional de Leiria, com homens e mulheres. Foi uma experiência linda. Um encanto.Como assim?Eram pessoas, especialmente os rapazes, muito receptivos à minha presença…Em que consistia o seu trabalho na cadeia?Ouvia-os muito e tentava ajudar a tratar dos seus problemas de ordem social. Como viram que eu não dizia nada a ninguém, confiavam em mim e desabafavam. Orientava-os, dava-lhe conselhos. Era sobretudo um trabalho espiritual. Dava-lhes catequese e fiz a muitos o baptismo, a primeira comunhão e o crisma. Muitos iniciaram a sua vida religiosa na prisão. Ainda tentei implementar um projecto que consistia em arranjar-lhes emprego, depois de saírem da prisão, mas tive que desistir porque era necessário que fossem muito acompanhados cá fora. Os toxicodependentes cheiram-se uns aos outros.Tem algum episódio marcante?Recordo que um dos rapazes me contou que certa ocasião, depois de se ter encontrado com uma mulher, onde não devia ir, chegou a casa e tirou do bolso do casaco um bilhete que dizia: “Parabéns… Já pertences ao meu grupo dos seropositivos”. E realmente apanhou a doença, tendo vindo a ser tratado. Outra história, mais feliz, foi ter formado um grupo de teatro e andar a apresentar peças de teatro de terra em terra. Era uma maneira de contactarem com a sociedade.“O povo de Minde tem uma personalidade muito forte”O padre Albino da Luz Carreira chegou a Minde há sete anos, para substituir o padre Mário dos Anjos que ali trabalhou 52 anos. “Uma das minhas preocupações era continuar a obra dele”, explica. Está também ligado ao Jornal de Minde, confessando que optou por não interferir no trabalho editorial. Considera que o povo de Minde tem uma personalidade muito forte e foi ele que se teve que adaptar aos paroquianos. “Se um não quer, dois não dançam” , ilustra.Sente-se bem em Minde. É presença frequente nas casas dos paroquianos até porque os mesmos se ressentem quando não são visitados. “Muitas vezes sou eu que tenho que adivinhar quem é que está doente. E quando é para baptismos e casamentos vou sempre a casa das pessoas fazer a reunião preparatória”, refere. Se for solicitado, dá a confissão na rua ou em casa. Tem é que estar a sós com a pessoa. Gosta de cerimónias personalizadas.“Faço um baptismo ou um casamento de cada vez. A mensagem passa melhor”, atesta. Nos funerais vai sempre ao velório, rezando o terço lado a lado das famílias enlutadas. “Tenho uma missão muito grande nesta freguesia. Este povo é muito característico. Não faço o que quero, faço aquilo que eles querem”, atesta com um sorriso.Tenha a bondade de conhecer o padre Albino CarreiraAbre-nos a porta da Casa Paroquial com um afável “tenha a bondade”. Já anteriormente utilizou a mesma expressão quando nos atendeu o telefone. Albino da Luz Carreira, 73 anos, pároco em Minde, no concelho de Alcanena, há sete anos e três semanas, extravasa bondade em cada gesto, cada palavra emanada.Nasceu a 6 de Junho de 1938, na aldeia de Vale de Barreiras, freguesia de São Mamede, concelho da Batalha (distrito de Leiria), mas a um quilómetro e meio do lugar do Covão do Coelho, Minde - Alcanena, e ordenou-se padre a 15 de Agosto de 1964. É o irmão do meio de seis irmãos, nascidos numa humilde família, o único que seguiu o caminho do sacerdócio.Diz que teve que se adaptar “à forte personalidade do povo de Minde” mas que já se sente em casa. Se for preciso confessa as pessoas na rua. E faz questão de visitar os enfermos em suas casas. O telefone não pára de tocar e tem dias que lhe batem à porta mais de 15 pessoas. Muitas vêm de longe para desabafar ou pedir algum conselho. “As pessoas aparecem mais para desabafar problemas de ordem psicológica ou familiar. Nos dias de hoje, há muita ansiedade e depressão”, conta.Para melhor entender os seus problemas pede sempre que lhe desenhem uma árvore. Aos noivos também pede sempre que definam um projecto de vida. Aproveita cada situação constrangedora para, depois de desviar a atenção do problema, espalhar a mensagem de fé. Com 47 anos de sacerdócio cumpridos, sente que o seu projecto de vida, que escreveu quando foi ordenado, cumpriu-se integralmente e de forma natural. Nele escreveu que pretendia “dar a boa nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e a dar liberdade aos oprimidos”.

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