Entrevista | 28-12-2011 10:38

Quando se trabalha no Natal altera-se o calendário e as prendas chegam no dia seguinte

Quando se trabalha no Natal altera-se o calendário e as prendas chegam no dia seguinte

Quando Mário Paiva trabalha no Natal ou na passagem do ano o calendário da família altera-se e as prendas chegam no dia seguinte. O director do serviço de pediatria do Hospital de Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira, recusa o consumismo da época e como prenda oferece cabazes com compotas, vinho e azeite, produtos produzidos na sua quinta.

Quando se trabalha na noite ou no dia de Natal altera-se o calendário da família e as prendas chegam no dia seguinte. É assim que o médico Mário Paiva, director do serviço de pediatria do Hospital de Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira, tem conciliado há mais de três décadas o trabalho e o tempo para a família em alturas festivas. Este ano não trabalhou no Natal mas é frequente passar a noite de consoada ou o dia 25 de Dezembro a fazer serviços de 24 horas seguidas. "Lembro-me que quando os meus filhos eram pequenos o Natal era atrasado. Adaptávamos à situação de forma a tornar tudo isto menos doloroso. Temos que ter mecanismos de defesa", explica. Os quatro filhos já são crescidos e torna-se cada vez mais difícil juntar toda a família à mesa nesta quadra. Apesar de poder ser poupado às noites por ser director de serviço não abdica de fazer regularmente este trabalho. "Faço bancos por opção e porque não entendo a prática da clínica sem essa abordagem que é inerente à profissão", explica a O MIRANTE quando está prestes a iniciar a 26ª hora de trabalho seguida depois de uma noite de trabalho.Quando os filhos eram adolescentes conseguia dar-lhes mais tempo de qualidade apesar de trabalhar com grande intensidade. Os tempos são mais exigentes, admite. "Todos nós hoje em dia passamos mais tempo na família empresarial do que propriamente com a família biológica. É muito difícil salvaguardar o tempo para a família quando se tem uma grande agressividade no emprego", analisa em termos globais. Tudo se agrava quando há alguém que vai trabalhar no Natal ou na passagem do ano, datas que por tradição implicam a reunião da família. "As pessoas falam e sentam-se à mesa. Falta-lhes qualquer coisa e a nós também". Nos dias festivos a urgência funciona como em outro dia qualquer. A equipa convive num jantar de Natal e no serviço assinala-se o momento. "De modo faseado, porque não podemos deixar a urgência, há sempre cinco ou dez minutos para um confraternização e troca de prendas". Na pediatria, onde trabalham 12 médicos, 40 enfermeiros e 11 auxiliares, deixou de ser habitual que os profissionais tragam doces da época para o serviço mas o próprio director confessa que não estimula muito essa prática. Nesta altura do ano há mais tendência para gastroenterites por causa de certos alimentos mas há também muitas das queixas habituais. Há quatro anos uma intoxicação com dióxido de carbono por causa de uma lareira levou uma família ao hospital. "Foi uma situação que nos deu algum trabalho e preocupação. Os meninos tiveram que ir à câmara hiperbárica. O trabalho à noite pode ser desgastante e por isso o médico não dispensa uma máquina calculadora no bolso da bata caso a memória acuse o cansaço. "Trabalhamos com miligramas e um engano de um zero de contas de cabeça é muito significativo no caso de um recém nascido". Se puder descansa um pouco durante a noite até porque tem obrigação de esta em pleno. "Já tive dificuldade em conciliar ideias numa emergência por estar bastante cansado", recorda. O stress ajuda os médicos a manter-se acordados, tal como o café. Quando era interno e ainda não tinha filhos levou para casa durante alguns dias um menino internado por causas sociais. "Não estava doente. Precisou de ter um sítio seguro até ir para onde se decidir se seguiria para uma instituição ou para adopção".Prendas de Natal caseirasO médico Mário Paiva, 55 anos, residente em Arruda dos Vinhos, recusa o consumismo que envolve toda a época do Natal. As prendas que oferece são produzidas pelo próprio na quinta que tem em Santa Comba Dão. É uma apaixonado pela agricultura, que pratica como uma espécie de terapia, e da terra retira a fruta com que a esposa, também médica, confecciona compotas de figo, ameixa, pera e maçã. Todas sem açúcar.O azeite, vinagre e vinho também são produção da quinta. Os produtos são acondicionados em cabazes que compra nas feiras e levam o rótulo da casa: Quinta do Penedo da Moura. "É uma maneira de me divertir e de congregar a família. A vindima é uma festa tal como é a apanha das ameixas", diz com um sorriso. As laranjas que leva para o serviço são tão apetecíveis ao ponto de não sobrar nenhuma. Mário Paiva considera-se filho de uma terra que já desapareceu do mapa: Lourenço Marques mas passou parte da juventude em Santa Comba Dão, de onde é natural o pai. É filho de um funcionário bancário e de uma enfermeira. Em Arruda dos Vinhos tem apenas uma casa com quintal e um pinheiro que enfeita por esta altura. Viaja até à quinta, em Santa Comba, de dois em dois meses. Os pais, já reformados, ajudam nas tarefas agrícolas. "Lá até me esqueço de comer. É trabalhar de sol a sol". Conserva ainda um avião que de plástico que recebeu aos cinco anos. Preserva mais as pequenas lembranças do que grandes prendas caras como mostra de apreço.O médico das crianças que já não sabe tratar adultosHabitou-se a lidar com crianças e hoje em dia acredita que já não saberia tratar um adulto. Mário Paiva, director do serviço de pediatria do Hospital de Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira, habituou-se à pureza dos pacientes de palmo e meio. "Lidar com pequenos é um mimo. É uma clínica mais bonita e mais pura. Não têm a influência dos vícios que têm os adultos", revela. A ligação ao pequenos doentes leva-o também, bem como à maioria dos profissionais da pediatria, a não conseguir lidar com o insucesso.Não tem bonecos no consultório, nunca se vestiu de pai natal no serviço e não adopta o estilo "brincalhão". A técnica que inventou foi a de tentar cativar a empatia da criança colocando-se ao seu nível.Os meninos internados já têm direito a ter um acompanhante, seja mãe ou pai, mas no seu tempo de estudante as regras eram diferentes. "Era um horror ter que internar os miúdos sem os pais", recorda lembrando também que na altura já se manifestava contra esse conceito que decorria de indicações superiores mas também da falta de espaço. Com o novo hospital, que deverá estar concluído em 2013, o director espera melhorar o trabalho que o serviço já vem a desenvolver e inaugurar, por exemplo, uma consulta destinada à juventude para abordar alguns temas como a gravidez na adolescência.Mário Paiva realça também que o serviço tem menos meninos internados. "Se antigamente tínhamos uma taxa de ocupação que rondava os 80 por cento neste momento não conseguimos ter os 50 por cento. Temos registado uma diminuição de internamentos enorme". Se por um lado é bom sinal sob o ponto de vista de gestão é mau já que os serviços querem mostrar trabalho, conclui.

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