Entrevista | 15-03-2012 10:48

Um bombeiro voluntário sem farda

Um bombeiro voluntário sem farda

José Vieira Gonçalves, 63 anos, deixa a presidência da direcção dos Bombeiros Voluntários de Fátima ao fim de seis anos embora esteja ligado à corporação desde a fundação, há cerca de 17 anos. Em entrevista a O MIRANTE recorda os momentos mais marcantes e lamenta não ter conseguido cumprir o sonho de construir um novo quartel para a corporação.

Foi um dos fundadores da Liga dos Bombeiros de Fátima, que deu origem aos Bombeiros Voluntários de Fátima, e esteve envolvido no processo de autonomia da corporação de Ourém. Porque é que sai agora, ao fim de 17 anos, seis dos quais na presidência da direcção?Defendo que as pessoas que estão ligadas a cargos públicos devem perceber que é preciso haver rotatividade e inovação para que a sustentabilidade e desenvolvimento das instituições ocorram normalmente. Ao fim de 17 anos chegou a altura de sair e que venham outras pessoas para continuar a desenvolver este projecto com o mesmo entusiasmo.Que balanço faz dos anos em que esteve ligado aos Bombeiros de Fátima?Com orgulho pessoal faço um balanço positivo porque estou aqui desde o começo e hoje os Bombeiros de Fátima são uma corporação autónoma, com uma boa situação financeira. Isso é fruto de um trabalho intenso, tanto da direcção como dos corpos sociais e dos próprios bombeiros. Houve sempre um empenhamento muito grande para que este projecto tenha chegado onde chegou.Viu nascer e crescer esta instituição. Custa-lhe ‘largar o barco’?Acredito que nos primeiros tempos vou parar aqui muitas vezes, porque venho cá todos os dias há 17 anos. É um hábito que vai ser difícil de largar mas vou fazendo-o aos poucos. Há um elo de ligação aos bombeiros e às pessoas que aqui trabalham e não me consigo libertar de um dia para o outro.Do que vai sentir mais saudades?Provavelmente desta envolvência e do espírito de voluntariado que existe nesta instituição, porque também me sinto um bombeiro voluntário embora sem farda. Vou sentir falta das pessoas e das amizades que criei ao longo dos anos, mas terei que me libertar dessa saudade lentamente.Ao longo destes anos o que foi mais difícil gerir?Esta instituição já tem 16 funcionários assalariados, tem um movimento considerável e carece de uma gestão muito apoiada. E temos feito uma boa gestão. O presidente que vier a seguir tem que ter empenhamento e acompanhamento para que tudo continue a correr bem.Que recordações leva consigo?Recordo particularmente dois momentos vividos neste quartel: a cerimónia de apresentação oficial do corpo de bombeiros de Fátima, em 2004, e um cortejo de oferendas que fizemos cuja adesão da população foi espantosa. Conseguimos angariar cerca de 90 mil euros e também nos ofereceram algumas viaturas. A população é muito solidária e acarinha muito os seus bombeiros.Qual era o objectivo desse cortejo de oferendas?Era construir a nova sede do quartel o que ainda não aconteceu e esse dinheiro continua intacto no banco à espera que esse sonho um dia venha a ser realizado.É um objectivo enquanto presidente da direcção que fica por cumprir?Infelizmente é. Há uns anos disse que não saía enquanto não fizesse o quartel. Penso que esgotei todas as minhas capacidades para o fazer.Por que não se avançou com a construção do novo quartel?Por falta de vontade política. A câmara, na altura presidida por David Catarino, reservou uma área no Plano de Pormenor (PP) da Tapada para construção do quartel. Desenvolvemos um projecto que apresentamos à Autoridade Nacional de Protecção Civil. O problema foi que como o PP não estava aprovado não podíamos adquirir os terrenos. Além disso, se não for apresentada uma candidatura ao QREN durante o primeiro semestre deste ano não haverá apoios comunitários para a construção do quartel.Vão apresentar a candidatura durante este semestre?Não acredito que seja possível apresentar uma candidatura até Junho pois o processo é bastante complexo. Temos que elaborar um pré-projecto e submetê-lo a uma comissão nacional de avaliação, que envolve várias instituições. Se for aprovado tem que ser elaborado um projecto definitivo, aprová-lo na câmara, temos que adquirir os terrenos e colocá-los em nome da associação. Creio que não há tempo para tudo.Ainda tem esperança que se construa um novo quartel?Espero que a nova equipa venha com esse entusiasmo porque esse é o grande objectivo desta casa. Está quase tudo feito nesta instituição mas falta, de facto, o novo quartel porque estas instalações já são pequenas para albergar um corpo de bombeiros com cerca de 70 elementos e as viaturas estão espalhadas pela rua porque não cabem todas no interior.O comerciante que nunca pensou ser bombeiroJosé Vieira Gonçalves, 63 anos, deixa a presidência da direcção dos Bombeiros Voluntários de Fátima ao fim de seis anos embora esteja ligado à corporação há cerca de 17 anos. Foi um dos fundadores da Liga dos Bombeiros de Fátima criada em 1995 tendo sido membro da direcção até 2002. Nessa altura, a corporação de Fátima era uma secção dos Bombeiros de Ourém e, em 2003, tornaram-se autónomos da instituição da sede de concelho. Um processo que garante ter sido pacífico e unânime para todas as entidades envolvidas.Natural de Ourém mas a residir em Fátima há vários anos, José Vieira Gonçalves é comerciante e possui um armazém de vendas na área das madeiras. Em 2003 foi vice-presidente da instituição e em 2006 assumiu a presidência da direcção.O presidente que cessou funções esta semana nunca pensou ser bombeiro, preferindo ajudar os soldados da paz com a sua disponibilidade. “É também uma forma de fazer voluntariado e ajudar quem precisa”, explica durante a entrevista a O MIRANTE que decorreu na sala de reuniões do quartel dos Bombeiros de Fátima.A corporação cresceu e actualmente dispõe de 70 bombeiros, 22 dos quais são mulheres. Actualmente está a decorrer uma recruta de 18 elementos que, até final do ano, vão integrar a equipa. Possuem 23 viaturas, dez ambulâncias e carros de combate a incêndios, desencarcerador, carros de comando e auto-escada.Toda a cidade de Fátima gira à volta do santuárioFátima tem problemas específicos decorrentes do elevado número de visitantes que recebe em alguns períodos do ano. Existe um plano específico de segurança para essas alturas?Nesses meses apelamos ao coração do soldado da paz para nos dar esse apoio acrescido. São menos horas sem dormir porque, de facto, a presença deles é muito importante nesses dias. Também pedimos ajuda, em momentos específicos dessas peregrinações, a outras corporações para nos apoiarem com meios materiais e humanos.Como é delineado esse plano?Nessas operações existe um plano normalmente traçado pelo comandante operacional distrital em conjunto com o comandante do nosso corpo de bombeiros e normalmente os bombeiros são distribuídos por vários pontos da Cova da Iria para estarem mais perto dos acontecimentos para o caso de surgir alguma emergência.Nos outros meses é tudo mais tranquilo?Durante o Verão existe um acréscimo de movimento à Cova da Iria o que leva a um reforço dos grupos de prevenção. Nesses dias contamos com a colaboração de voluntários e felizmente temos tido ajuda. Nos outros meses do ano é tudo mais tranquilo.Se não existisse o Santuário fazia sentido existir uma corporação de bombeiros em Fátima?Toda a cidade de Fátima gira à volta do santuário. Sem o santuário talvez não fossem necessários.Como está a situação financeira dos Bombeiros de Fátima?Temos uma situação financeira estável e boa fruto de uma gestão controlada. No último ano a receita diminuiu cerca de 30 por cento com a redução de serviços mas conseguimos compensar com uma redução de custos na ordem dos 20 por cento e com os donativos que fomos recebendo.Qual é o segredo para terem as contas equilibradas quando a maioria das corporações do país está com a ‘corda ao pescoço’?Fazemos uma gestão controlada, acompanhamos permanentemente as contas e não damos dois passos quando só temos uma perna que nos permite dar apenas um passo. .Considera justo que os Voluntários de Ourém recebam um subsídio mais elevado que a corporação de Fátima?Não considero justo porque o critério de distribuição das verbas foi feito em 2005 e até agora não foi alterado. Ourém recebe uma “fatia” muito substancial em relação aos Bombeiros de Caxarias e a nós. Há uma disparidade no critério de atribuição do subsídio que carece de ser revisto e já alertamos o presidente da câmara para isso.Por que é que a atribuição de subsídios precisa ser revista?Em sete anos as coisas mudaram. Fátima cresceu e os bombeiros desta cidade efectuam muito mais serviços. Acredito que se os Bombeiros de Fátima não existissem a corporação de Ourém teria muita dificuldade em dar o apoio à população de Fátima conforme a nossa corporação dá. A freguesia é idosa e isso acarreta muitos serviços de apoio aos mais velhos.

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