Entrevista | 22-03-2012 10:43

Directora assume que a Escola Secundária de Santa Maria do Olival é elitista em termos de exigência e rigor

Directora assume que a Escola Secundária de Santa Maria do Olival é elitista em termos de exigência e rigor

Os conflitos entre alunos são resolvidos pelos próprios alunos através de um Gabinete de Mediação. Os alunos mais velhos apadrinham os que chegam anualmente e ajudam-nos a integrarem-se. Os que mais sabem dão explicações aos que têm dificuldades. A liderança da escola de Tomar foi considerada mobilizadora e geradora de um bom ambiente de trabalho pelos técnicos responsáveis pela última avaliação externa.

Na mensagem de acolhimento no site da escola, cita Einstein: “O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário”. O Einstein ficaria muito espantado ao ver como a sociedade mediática e a especulação bolsista geram sucesso sem trabalho. Como é possível convencer centenas de jovens que é necessário o trabalho para atingir o sucesso se tudo à sua volta lhes diz o contrário?Em Setembro de cada ano, no primeiro dia de aulas, recebo os novos alunos e os seus pais. Nessa apresentação tento deixar bem claro o que a escola lhes pode dar e o que espera deles. Sublinho, de forma sentida, que professores e funcionários vão esforçar-se por criar as melhores condições de trabalho aos alunos. E digo-lhes que não acreditem em facilitismos. Digo, sublinho, quase que grito.Tem razão em quase gritar. Afinal trata-se de uma guerra desigual. A sua voz contra os mil e um cantos de sereia do marketing, da publicidade e da propaganda.Eu faço o meu papel. Tento convencê-los. A escola pode dar o máximo, os pais podem dar tudo, mas nada é possível se os alunos não quiserem. Eles têm que querer. Têm que se esforçar. Têm que se empenhar. Estrategicamente aproveito a ocasião para homenagear os alunos que no ano anterior entraram para o nosso Quadro de Mérito. Faço uma homenagem, com pompa e circunstância. Digo que eles são as nossas estrelas, o que é rigorosamente verdade, e que espero que sigam o seu exemplo.Cita também uma frase de Albert Schweitzer. “Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única”. Quem já entrou numa sala de professores ou assistiu a uma conferência ou outro acto em que participam professores e depois ouve relatos de comportamentos de jovens em salas de aula é levado a acreditar que, efectivamente, o exemplo funciona. Não é que os professores façam tantos disparates como alguns alunos mas há muitos que são bastante indisciplinados. Que não conseguem estar calados e sossegados.Não podemos generalizar mas isso é verdade. Tenho a certeza que se os adultos fossem mais bem educados, os jovens também eram mais bem educados.No último relatório de avaliação externa, divulgado este ano, é aconselhada a “acção e implementação de um plano de melhoria que incida sobre as fragilidades diagnosticadas em termos de trabalho em sala de aula”. Tendo em conta o elevado aproveitamento escolar dos alunos e a quase inexistência de casos disciplinares graves, que fragilidades são essas?Globalmente ficámos orgulhosos com os resultados. Obtivemos muito bom em termos de liderança e gestão escolar e a nível de resultados académicos e bom na prestação do serviço educativo. Mas é evidente que este bom nos deixou confusos. É a parte que tem a ver com a sala de aula; com a preparação das actividades lectivas. Que contribui essencialmente para os resultados. Tendo nós resultados acima da média nacional parece-nos que não faz muito sentido. Até admitimos que tenha havido confusão com outra escola (sorriso). São muitos papéis...muitas escolas...Contestaram aquele resultado?A escola teve possibilidade de apresentar o contraditório e já o fez. O Conselho Pedagógico entendeu pedir esclarecimentos. A equipa avaliativa põe uma tónica na supervisão pedagógica. E considera que se deva entrar de uma forma rotineira dentro da sala de aula. Ter agentes exteriores (outros professores) constantemente a assistir às aulas. Eu considero que, apesar de isso se fazer sempre que se justifique, por boas e más razões, as escolas não têm condições, nem elas foram criadas ao nível do sistema político e educativo para isso se fazer com regularidade.A ideia em si não é interessante?Muitas vezes determinadas estratégias provocam mais ruídos que benefícios e precisamos de ter cuidado para perceber se isso é benéfico ou não. Neste momento nem sequer há condições para fazer isso. A supervisão na sala de aula de forma rotineira, obriga a que haja professores com disponibilidade lectiva para o fazer. Isso tem que ser criado ao nível da política educativa. Tem que ser definido que vai haver professores que vão fazer aquilo. Professores preparados, porque se vai alguém para dentro de uma sala de aulas disparar em todas as direcções pode estar a fazer uma grande asneira.E a alternativa qual é?Os professores trabalharem em equipa, como está a acontecer esta tarde de quarta-feira nos diferentes departamentos. Se formos ao laboratório de física, ao de ciências, eles estão juntos a trabalhar. A preparar experiências, a planificar aulas, a avaliar resultados de alunos, a trocar entre si questões científicas. Como farias aquilo? Como é que eu faço aquilo. Como dás esta matéria? Eu penso que esse trabalho é muito importante e nesta escola foram criadas condições para ele ser feito. Quinzenalmente eles têm 90 minutos no seu horário para fazerem este tipo de trabalho.“Tomar permite uma qualidade de vida invejável”Maria Celeste Gonçalves Simões de Sousa nasceu na aldeia de Salgueira, concelho de Ourém. Fez os primeiros estudos naquele concelho e mais tarde foi aluna interna no colégio de freiras de Santa Maria, em Torres Novas até aos 15 anos de idade. O percurso académico posterior foi feito no Liceu de Oeiras e na Faculdade de Ciências de Lisboa onde se licenciou em Matemática. Diz que foi uma “menina feliz” e que, por ser a irmã mais nova foi alvo de muita atenção e carinho.Começou por dar aulas no liceu de Oeiras onde tinha estudado e onde, devido ao seu ar gaiato, continuava a ser confundida com as alunas, tendo passado dali para o liceu de S. João do Estoril. Em 1983 o casamento colocou-a em Tomar, na Escola que dirige há 16 anos. “ Fiquei efectiva aqui. Foi uma diferença louca. O ambiente de Tomar era totalmente diferente. Tudo muito parado. E tive imensas saudades do mar. Foi o que me custou mais, acho eu. Eu preciso muito do mar. Da sua magia. Do cheiro. Daquele imensidão. Da sua beleza única que me transmite uma sensação de serenidade”.Agora diz-se feliz em Tomar. Tem dois filhos. O mais velho estuda Direito em Lisboa, depois de ter frequentado a Escola Secundária/3 de Santa Maria do Olival. O mais novo ainda é aluno na escola que a mãe dirige. “Os alunos desta escola são, globalmente, miúdos com muita educação. Entro numa escola de Lisboa ou da periferia e entro aqui e sinto logo uma grande diferença a nível do ambiente...do ruído”, explica. E acrescenta: “Tomar permite uma qualidade de vida invejável”.Aprendeu a jogar ping-pong no colégio interno e ainda hoje gosta de jogar com os alunos e com os filhos. Também gosta de participar nas peças de teatro dos alunos de artes da escola. É habitual vê-la aos sábados de bicicleta quando vai fazer as pequenas compras da manhã. Diz que usaria mais aquele meio de transporte se a cidade tivesse melhores condições de segurança para ciclistas, nomeadamente ciclovias.“Não há papéis na sala de professores porque a comunicação é feita pela internet”Presumo que já não dê aulas há muitos anos. Lembra-se da última aula que deu?Não me lembro mas deve ter sido em 1998. Continuo a ser professora mas agora tenho outras funções. Gestora. É mais isso. Eu fui dando aulas até poder porque gostava de dar aulas mas a certa altura tive que deixar de o fazer porque estava a prejudicar os meus alunos. Tinha que faltar muito. Estava no gabinete para ir dar uma aula, telefonavam-me da Direcção Regional ou do Ministério da Educação e eu tinha que atender. Não podia dizer que não.Segundo o relatório da última avaliação externa da Escola, quase todos os 762 alunos (94,4%) têm computador e telemóvel. É um valor acima da média nacional. Que comentário pode ser feito a este dado em particular?Não significa que os alunos sejam ricos. Mais de 26 por cento beneficiam de apoio a nível da acção social escolar. O que se passa também tem relação com a política do anterior governo que, através do programa e-escolas, facilitava a aquisição de computadores.Dentro do espaço da escola há internet sem fios acessível à comunidade escolar?Sim, temos internet em toda a escola e tomadas para ligar os computadores mesmo em alguns espaços exteriores. E temos computadores disponíveis na biblioteca. Estamos a tentar melhorar a comunicação, que é um dos problemas da maioria das organizações, aproveitando as novas tecnologias. Neste momento os professores trabalham muito ao nível digital. Há uma plataforma onde está todo o trabalho que é feito. Toda a documentação necessária. Os alunos podem ir buscar informações, ver as matrizes dos testes.Deve haver professores com dificuldades de adaptação?Temos um gabinete de comunicação virtual na escola e eu própria, às vezes, envio mensagens para todos os professores por e-mail e de alguma forma quase que os obrigo a consultarem diariamente as suas caixas de correio electrónico. Já não afixo papéis na sala de professores. De vez em quando chateiam-me porque já não ponho lá o papel mas eu não ponho.Qual a política da escola relativa ao uso de telemóveis nas salas de aula?(Suspiro) É um problema. O uso é proibido mas não posso pôr ninguém a revistar os alunos à entrada. Se eles não tivessem o telemóvel no bolso durante uma aula tinham condições para uma melhor concentração. Não se distraíam. Eles até com o telemóvel no bolso mandam mensagens. E os professores ficam mais expostos porque têm que tomar conta de vinte e tal alunos; têm uma lição para dar e têm actividades para desenvolver. É impossível perceber se alguém filma ou grava. Por isso é que, de vez em quando, rebentam por aí espectáculos deprimentes.Sabe qual é a percentagem de alunos de excelência provenientes de famílias pobres?Não tenho ideia. Não tenho dados que me permitam dizer que os melhores alunos são de um determinado extracto social. Temos casos de bons alunos cujas famílias têm dificuldades económicas. Neste momento temos uma ex-aluna que está no ensino superior graças ao apoio de um amigo da escola. Uma espécie de mecenas.Mas a Escola tem conotação elitista. Mais de 62 por cento dos pais exercem actividades profissionais de nível superior e intermédio.Às vezes perguntam-me se esta escola é uma escola elitista. Eu digo que sim, se considerarmos que elitismo é ser exigente, rigoroso, trabalhador, empenhado, responsável...E quem é o mecenas de que falou há pouco?O nosso amigo e mecenas é o dr. Correia Leal, um conhecido médico de Tomar, pessoa de mérito e com grande sucesso profissional. Ele tem colaborado imenso com a escola em termos financeiros. Apoia projectos dos estudantes e neste momento está a apoiar essa aluna que de outra forma não poderia frequentar o ensino superior.Qual a ligação dele à escola? É ex-aluno?Não. Tem aqui um filho no 9º ano e interessa-se pelo que se passa na escola. Temos recorrido a ele frequentemente e para além de apoiar projectos de alunos tem-nos ajudado a concretizar algumas iniciativas de carácter social como a entrega regular de cabazes de alimentos a famílias de alunos nossos.Como se consegue uma escola disciplinadaO relatório externo de avaliação à escola destaca o comportamento disciplinado dos alunos e atribui essa situação ao “excelente trabalho desenvolvido pelo Gabinete de Mediação, que tem autonomia para a resolução dos conflitos mais correntes. “De forma inovadora, a mediação feita, preponderantemente, por alunos, com o apoio de uma equipa que integra pais, professores e a psicóloga, tem levado à diminuição significativa do número de medidas sancionatórias e de procedimentos disciplinares, contribuindo para a criação de condições para melhorar o rendimento académico e a assunção de responsabilidades por parte dos alunos”, pode ler-se.Para além do Gabinete de Mediação a directora destaca outras medidas. O apadrinhamento dos alunos que chegam à escola por alunos mais velhos e o facto de alguns dos melhores alunos se disponibilizarem para ajudar os que têm mais dificuldades escolares. “Quando recebemos os novos alunos do 7º ano, cada turma fica a saber quem vão ser os seus padrinhos. Alunos mais velhos a quem devem ser apresentados os seus problemas. Por outro lado esses padrinhos, digamos assim, recebem uma preparação adequada à sua idade no sentido de estarem muito atentos a determinadas situações, nomeadamente nos intervalos entre as aulas”.Celeste Sousa fala também no “Projecto de Entreajuda”. Alunos com facilidade e com sucesso, disponibilizam-se para ajudar outros com dificuldades. Cria-se uma rede de relações académicas, mas não só. Também de cooperação e de solidariedade”, refere.Uma mancha na paisagemApós três anos de aproveitamento acima da média nacional ocorreu um desastre nos exames nacionais do 12º ano no final do ano lectivo passado. Uma quebra significativa e inesperada a nível dos resultados. Celeste Sousa diz que o sucedido já foi devidamente analisado e que foram tomadas medidas para corrigir o problema. “Foi uma nódoa que não voltará a manchar a nossa imagem”, promete. Uma conclusão definitiva sobre o sucedido não existe mas vários factores são apontados. “Os professores eram os mesmos que tinham sido responsáveis pelo sucesso anterior. Uma das explicações tem a ver com o facto de a média nacional ter baixado significativamente e isso ter sido atribuído, por especialistas, a problemas na elaboração das provas, nomeadamente a questões mal formuladas. Por outro lado os alunos de ciências e tecnologias investiram tudo no exame de matemática, que conta para a entrada nos cursos que querem seguir, e desleixaram o português”.

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