Entrevista | 03-01-2013 07:53

Faltam líderes e falta amor por Santarém

Faltam líderes e falta amor por Santarém

Tem uma vida marcada pela tragédia. Aos 16 meses já não tinha pai nem mãe. Duas vezes viúva, Rosalina Melro tem mesmo assim ânimo para continuar a gostar da vida, a melhor obra de arte que diz conhecer. Figura multifacetada, católica e comunista, subiu na vida a pulso. Começou a trabalhar muito jovem, candidatou-se a uma bolsa de estudo para se licenciar e chegou a professora na mesma escola onde era auxiliar. Apaixonada pela sua cidade, diz que faltam líderes que façam ouvir a voz de Santarém e do Ribatejo em Lisboa.

Que prenda gostava de ter visto Santarém receber neste Natal?Gostava de ouvir falar de uma equipa para governar Santarém. O melhor presente era ter esperança.O panorama é assim tão desanimador?Não, mas é muito complicado. Há pessoas que poderiam fazer um bom trabalho, se soubessem reunir uma boa equipa. E aí penso que há algumas dificuldades, porque todas as equipas hoje acabam por ser dominadas pelos partidos.O que vê quando olha para a cidade?Uma tristeza. Já perdi as lágrimas de tanto chorar. Faz-me muita pena. Ainda hoje fui à cidade tomar café e é uma dor de alma ver o comércio a morrer, ver tudo a cair. É na verdade uma tristeza para quem viu esta cidade ter esperança de ser património mundial (embora eu pense que o caminho não foi bem desenhado) ter o centro histórico no estado em que está...E a crise não explica tudo.Não. Há uma falta de interesse e de amor à terra e à região. Aquela que era a capital do Ribatejo devia ser mais cuidada e mais amada.Falta amor aos escalabitanos pela sua terra?Falta interesse, falta amor. E sobretudo faltam vozes que se façam ouvir nos governos da nação. Repare-se no que está a acontecer com as barreiras de Santarém. Há quantos anos caíram? E continuam a ser um perigo sem que se faça nada.Não há líderes?É isso. Não temos vozes importantes. Fez muita falta o dr. Viegas, porque esse homem tinha uma boa relação ao seu tempo e fazia-se ouvir em Lisboa. Hoje não temos vozes que se façam ouvir junto do Governo central. E actualmente nem temos Governo central, mesmo que tivéssemos as vozes. Sinto-me muito triste.Foi a esperança de ter essa voz forte que a levou a apoiar Moita Flores como candidato à Câmara de Santarém?Não, de maneira nenhuma. Nessa altura não raciocinava assim nem conhecia o dr. Moita Flores suficientemente bem. Nunca acreditei no amor que o dr. Moita Flores apregoava pela cidade.Então porque o apoiou?Porque na altura eu apoiava um grupo de presidentes de juntas de freguesia que estavam muito dependentes do dr. Moita Flores e da sua candidatura.Foi um apoio por interesse, digamos assim...Foi por interesse do grupo que apoiava. Fomos buscar apoio a quem era mais forte, a quem sabíamos que ia ganhar a câmara.Parece existir algum desencanto relativamente a Moita Flores, mas nem tudo terá sido mau. Pôs a cidade no mapa durante algum tempo.Pôs mas a despedida dele é algo que me desgosta, que me desilude. Porque quem apregoava tanto amor por esta gente não trocava agora Santarém por Oeiras.Foi esse sentimento de rejeição que a magoou mais?Isso não se pode simplificar assim. Comecei a afastar-me antes. Houve um esfriar de esperança e de confiança na obra que disse que iria fazer.A Santarém de hoje era a que esperava ter após a gestão de Moita Flores à frente da câmara municipal?Não, de maneira nenhuma. Não podia ter muita esperança numa força mais conservadora.Com a sua idade, depois do que já escreveu, depois do que já pensou, acha que a ideologia ainda conta na estratégia para uma cidade?A ideologia conta para formar grupos de pessoas com finalidades. E depois os partidos formam interesses. Esses interesses têm sempre a ver com eleições. Não tenho esperança que neste momento possa surgir um grupo de pessoas na nossa cidade que possa lutar pela sua afirmação, nos partidos, na sociedade civil e até mesmo na Igreja. Se estamos a falar de líderes, penso que devíamos tentar encontrá-los. E eu olho à volta e não os vejo.

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