Entrevista | 07-01-2013 13:14

O homem dos gostos musicais estrambólicos diz que o Entroncamento continua a voar rasteiro

O homem dos gostos musicais estrambólicos diz que o Entroncamento continua a voar rasteiro

Mora no Entroncamento há cinquenta anos e diz que a cidade é mal amada e que precisa encontrar uma nova motivação. Professor de matemática na Escola Ruy de Andrade lamenta que o "tremendo" investimento feito pelo município e famílias na educação esteja a dar frutos que apenas são aproveitados por Lisboa. Melómano reconhecido acaba de lançar o segundo volume do projecto "Música nas Cidades". Esta é uma conversa racional sobre paixões.

Já está à venda o livro "Música nas Cidades - Volume 2, de Manuel Fernandes Vicente, editado pela mediaXXI (www. mediaxxi.com). São cinquenta e nove capítulos com prefácio de António Matias Coelho e um texto introdutório que responde à pergunta: "Porque é que os estilos musicais estão ligados às cidades e às suas histórias?"Na capa foi colocado um parágrafo que ajuda o eventual interessado a perceber o que vai encontrar no interior. "Histórias, contextos, lendas razões, líderes e empatias sociais que explicam porque é que alguma metrópoles se tornaram fontes de estilos e ritmos do mundo". Ao longo de trezentas e dezasseis páginas o autor guia-nos à volta do mundo numa viagem musical que se inicia com "A eskeusta de Adis Abeba" e termina no " Barroco de Veneza" com passagem pelo "Tubo-folk de Belgrado", o "Chicago House and Acid House Music", o "Funaná e Batuque da Cidade da Praia" o Tex-mex de San Antonio" ou "As Marchas Populares de Lisboa".O primeiro volume de "Música nas Cidades" da autoria do melómano professor do Entroncamento foi editado em 2008 e reunia a maior parte dos textos sobre o tema publicados no extinto jornal Blitz. Depois deste segundo volume já está em preparação uma espécie de "best-of" (o melhor) a que serão juntos capítulos inéditos, para possível edição no Brasil e nos Estados Unidos. http://mediaxxi.com/OnlineBookShop/.A "inteligentzia" continua a ignorar o Entroncamento, porquê?Não tenho explicação para isso mas efectivamente o Entroncamento é uma terra mal amada. Acho que continua a ser chique não gostar do Entroncamento. Provavelmente há razões e eu não vou culpar as pessoas, nem vou culpar a cidade. Continuo a manter a minha paixão pela cidade e a tentar olhar para o seu lado mais positivo. Mas faz como os outros. Não intervém; não participa...Há massa crítica e por vezes há tentativas de conglomerar vontades num determinado objectivo mas quando as contrariedades aparecem as pessoas acabam por se desmotivar e afastar. Os poderes não são sensíveis a estes movimentos e por vezes hostilizam-nos. Há anos participei num movimento designado "Plataforma" que aglutinou muita gente com vontade de melhorar a estação e os caminhos de ferro e as condições dos utentes mas que encontrou obstáculos indefiníveis. Muros de borracha. Até mesmo dentro dos órgãos autárquicos que viram nesse movimento alguma forma de concorrer com os próprios partidos políticos...Nunca teve a tentação de se meter na política activa?Não. Que me perdoem os que pensam de maneira contrária mas eu sempre me apercebi que o enfrentar a política envolvido em partidos políticos me iria trazer mais dissabores do que estímulos. Apercebi-me muito cedo do que eram as realidades dos partidos e por isso procurei preservar-me a determinadas situações. Numa escala de zero a vinte que nota dá ao Entroncamento? Pergunta difícil...dou-lhe um 13. Tem havido um esforço nos últimos anos de tirar determinados locais de uma situação de degradação óbvia e de lhes renovar a imagem. Mas continuam a não existir medidas de fundo. Continuamos a não ter uma visão para o concelho. O Entroncamento continua a voar rasteiro. Precisa de um golpe de asa. Precisa de uma perspectiva mais ampla e de, eventualmente, criar uma nova motivação.O que tem sido bem feito? Tem-se investido muito na educação. Quer fisicamente, através da renovação do parque escolar, quer no apoio às escolas. Isso tem dado resultados. Os nossos alunos têm correspondido com resultados que são de destacar. O problema é que toda esta massa cinzenta que se cultiva e desenvolve e que resulta do esforço do município e das famílias, acaba por se perder. O Entroncamento não tira partido deste investimento brutal que tem feito na educação e estas pessoas vão criar riqueza para outros lados, nomeadamente para Lisboa. Temos que estar gratos a quem cria condições para acolher os nossos jovens e lhes dá emprego mas é pena que não sejamos nós a fazê-lo. * Entrevista completa na edição semanal de O MIRANTE.

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