Entrevista | 31-01-2013 10:56

“Com o esforço dos clubes nenhum judoca vai deixar de praticar por causa da crise”

“Com o esforço dos clubes nenhum judoca vai deixar de praticar por causa da crise”

António Manuel Pedroso Leal está ligado ao Judo desde os 16 anos de idade e não quer pôr um ponto final nessa ligação. Foi praticante, Mestre, árbitro, presidente da direcção da Associação de Judo do Distrito de Santarém, membro fundador da Associação Nacional de Árbitros de Judo e é o actual presidente da Mesa da Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Judo. No dia 23 de Março, pode vir a tornar-se vice-presidente da Federação Portuguesa de Judo se a lista que integra, liderada por João Carvalho das Neves (actual presidente do conselho fiscal), vencer as eleições.

Qual é a posição do Judo do distrito de Santarém no todo nacional?As associações regionais têm muita dificuldade em apresentar trabalhos que se mantenham durante muito tempo. Porque estamos longe de centros de decisão e porque os atletas quando acabam a sua formação vão, na maioria dos casos, estudar para Lisboa e aí ingressam noutros clubes. O caso do Nuno Delgado é um exemplo. Nasceu no distrito de Santarém e depois acabou por ir para um clube de Lisboa quando já tinha uma série de medalhas nacionais. E não é caso único.O que acontece no Judo acontece a todos os níveis. A modalidade reflecte a realidade nacional. A procura da grande cidade onde há mais oportunidades.O interior vai perdendo peso. Vai ficando sem pessoas. A Associação de Santarém é importante no todo nacional embora na média e alta competição não tenha a relevância que poderia ter.Não é um bom objectivo compensador despertar o interesse pela modalidade e dar formação aos jovens praticantes?É um bom objectivo mas uma coisa não se pode dissociar da outra. O grande objectivo é fomentar o desporto em termos de praticantes mas se conseguirmos ter nos clubes do distrito atletas com bons resultados desportivos a nível nacional e internacional teremos certamente mais praticantes. A qualidade dos resultados e o prestígio dos atletas leva mais gente à competição. Mas claro que é compensador ver crescer os atletas. Vê-los ultrapassarem as dificuldades e crescerem.De uma maneira geral os cidadãos só se lembram que o Judo existe quando há Jogos Olímpicos e outras grandes provas internacionais onde estão grandes atletas e nessas alturas exigem medalhas. É justo que assim seja?Claro que não é justo mas compreende-se. Todos temos vontade de ver os nossos ganhar. Somos exigentes. Mas, fora dessas alturas das grandes competições, o judo merecia mais atenção dos órgãos de comunicação social nacional. Felizmente os jornais regionais dedicam-lhe alguma atenção.O que tem sido feito para melhorar a ligação do público em geral ao Judo?Mesmo sendo uma modalidade altamente qualificada para a realização humana, nos aspectos, físico, moral e psicológico, o Judo não tem a espectacularidade de outras modalidades nem beneficia de grandes patrocínios. Tem sido feito um esforço para tornar a modalidade mais atractiva para quem vê, nomeadamente ao nível da rapidez da competição, alterando algumas regras, e da transmissão de informação de forma a que qualquer pessoa possa interpretar o andamento de um combate. Estas regras que entraram agora em vigor vão nesse sentido. Antes só quem sabia bem as regras é que conseguia interpretar as vantagens e as marcações.De que forma é que o Judo está a ser afectado pela actual situação económica?A falta de afectação de recursos aos projectos por parte do Estado vai afectar a nível qualitativo, a participação internacional. Vai reduzir as experiências internacionais dos nossos atletas.E a nível local e distrital?Tudo vai depender da dinâmica dos clubes e do investimento dos pais dos jovens atletas. Há as despesas de deslocação dos atletas às provas regionais, as quotas que são pagas aos clubes, a aquisição dos fatos de Judo, a aquisição de outros materiais para a prática da modalidade.O número de praticantes vai diminuir.Hoje há clubes a desenvolver projectos de inserção social muito interessantes. Apoiam a compra dos fatos de judo, através de contratos de publicidade ou emprestam fatos. Se as pessoas gostam mesmo da modalidade estou convencido que as almofadas que estão a ser criadas a nível dos clubes vão fazer com que nenhum praticante fique excluído. Mas é óbvio que a situação económica vai prejudicar o Judo e o desporto em geral.O que quer fazer a lista em que participa se ganhar as eleições para a Federação?Quer ter uma gestão muito mais atenta ao controlo dos custos da própria Federação, rentabilizando os recursos humanos que ela já tem e afectando outros que sejam indispensáveis. E quer ter uma melhor capacidade de intervenção junto das associações da modalidade, associações de treinadores, de árbitros e junto dos clubes, para se conseguirem fazer coisas que não têm sido feitas até agora. Acreditamos que as regiões têm uma possibilidade de responder positivamente ao projecto de desenvolvimento integrado e completo que a Federação vai tentar implementar nos próximos quatro anos.“Já usei o judo para defesa pessoal e resolvi a situação sem magoar o meu opositor”Onde começou a praticar Judo?Fui para o Judo desafiado por um amigo meu. Comecei tarde porque já tinha 16 anos. Comecei no grupo Recreativo 1º de Outubro (Parafuso) no Entroncamento. O Mestre António Luís dos Santos foi o meu primeiro e único mestre.Há quanto tempo é que não veste um Quimono?Há uns bons dez anos. Tive uma lesão grave, uma ruptura de ligamentos, e deixei de ir para cima do tapete por esse motivo. Mas quando tenho oportunidade de estar perto de um tapete de judo descalço-me e gosto de o sentir debaixo dos pés. De sentir aquela energia que emana dele.Alguma vez teve que utilizar o Judo para defesa pessoal no seu dia a dia?Sim, isso já aconteceu. Consegui resolver o assunto sem me magoar a mim e sem magoar o meu adversário. Um judoca por norma não é agressivo e tenta sempre evitar o confronto mas se não consegue deve utilizar da melhor forma a defesa. Sem aleijar mas evitando ser agredido.Quando andava na escola era daqueles que os outros temiam ou dos que estavam sempre a ser massacrados pelos mais fortes?Não era de uns nem de outros. Mas às vezes também rasteirava à entrada da área, como se diz na brincadeira (risos). Ou seja, era um miúdo normal.Gosta de filmes de acção?Gosto. Principalmente dos que tenham artes marciais.Quando os filmes do Bruce Lee estiveram na moda não sentiu vontade de trocar o Judo pelo Karaté?Não. Continuei fiel ao judo. Mas pratiquei jiu-jitsu que tem componentes de Judo e de Karaté.Enquanto praticante teve mais vitórias ou derrotas?Não tenho essa contabilidade feita. Tive provavelmente mais derrotas porque entrei para o Judo mais tarde que é normal mas é evidente que as melhores recordações são as das vitórias. Não é por acaso que tenho à frente da minha secretária os expositores com as medalhas e troféus que conquistei. Guardo as vitórias com gosto e aceitei as derrotas com fair-play.Quem lhe ofereceu o seu primeiro quimono?Fui eu que o comprei. Dei cem escudos por ele em segunda mão. A minha mãe ainda o remendou algumas vezes antes de eu conseguir dinheiro para comprar um novo.Tem irmãos? Eram praticantes?Tenho dois irmãos mas nunca praticaram e também não estavam em casa quando eu comecei a praticar. Estavam no Ultramar. Eu era o mais novo.Quantas vezes acha que perdeu combates por má avaliação dos árbitros?Nunca pensei muito nisso. No futebol discute-se muito a arbitragem mas no Judo há uma maior disciplina e nos combates há um maior respeito pelos árbitros. Não me lembro de alguma vez ter sido prejudicado.Não há protestos contra os árbitros?Não são admitidos. Se alguém tiver uma atitude dessas é imediatamente desclassificado.Nunca nenhum atleta se dirigiu a si quando foi árbitro, após algum combate, fazendo-lhe referência a alguma má decisão sua?Não me recordo.Para se ser árbitro é preciso ter sido praticante.É exigido. Não se consegue avaliar bem um combate se não se tiver praticado. É uma das condições para entrar para árbitro.Os seus irmãos não praticavam. E os seus filhos?Tenho duas filhas. Uma pratica e é cinto amarelo mas a irmã não é praticante. Praticou Jiu-jitsu mas durante pouco tempo.Alguma vez se sentiu incomodado num combate pelo odor desagradável de um adversário ou pelo seu mau hálito?Nós temos regras de higiene mas mesmo que houvesse algum a cheirar menos bem acho que naquele momento dos combates, no ardor da competição, ninguém sente nada disso. A entrega ao combate é total.É muito competitivo?Ninguém gosta de perder e eu também não gosto mas quando perdemos temos que ter fair-play. Quando caímos temos que nos levantar e continuar.O que o faz perder a calma por muito que se concentre?Quando me ofendem ou tratam mal injustamente alguém. Mas mesmo quando perco a calma é de uma forma controlada.Quando começou a praticar ficou entusiasmado porque ia ficar invencível?Pelo contrário. Entrar num clube onde os atletas já tinham dois anos de actividade e eram graduados não me deu nenhuma mania especial. Mesmo que tivesse pensado nisso passou-me rapidamente. Acho que a minha perspectiva era aprender.É cinto negro?Sou. Segundo dan.A combater com tanta gente fez muitos inimigos?Pelo contrário. Fiz muitos amigos. Fiz amigos por todo o lado. Em Portugal e no estrangeiro. Ainda hoje mantenho contacto com muitos deles. E quando nos encontramos é sempre uma alegria. Aqui há tempos em Maputo, Moçambique, encontrei um meu antigo aluno, que continua a praticar e ficámos os dois felizes. O desporto ajuda a socializar e a construir amizades. Não tenho inimigos no Judo.É ambicioso?Sou daquele tipo de pessoas que me contento com o que a vida me vai dando sem nunca deixar de lutar por causas e por valores. A nível desportivo, que é do que estamos a falar, concretizei quase tudo o que me era possível concretizar. E dia 23 de Março irei, se for essa a vontade da maioria, concretizar mais um objectivo.Sempre viveu em Torres Novas?Tenho tido oportunidade de viajar por todo o mundo mas a minha terra é onde me sinto bem. Fiz 52 anos a 9 de Janeiro e sempre vivi aqui. Gostaria que ter aqui coisas que vi noutras cidades mas não é por isso que gosto menos de Torres Novas.*Entrevista completa na edição semanal de O MIRANTE

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