Entrevista | 16-10-2013 17:08

O padre italiano que se sente tão bem em Alverca que nem tem saudades de casa

O padre italiano que se sente tão bem em Alverca que nem tem saudades de casa

O padre Giovanni Musazzi está em Alverca há quase cinco anos e diz que tem tido muito apoio da população. Preocupa-o o medo que as pessoas têm do futuro e reconhece que a igreja não é a solução para todos os males da sociedade. Defende que se uma pessoa tem de trabalhar 12 horas então deve fazê-lo mas alerta que a realização pessoal não tem a ver com o que se produz.

Giovanni Musazzi é o padre italiano que há quase cinco anos dirige a paróquia de Alverca. Onde se sente como em casa ao ponto de dizer que não tem saudades da sua terra natal. Com a crise há mais gente a procurar a igreja mas o padre desmistifica esta afluência repentina. Giovanni diz que estas pessoas não são movidas pela fé mas pelas dificuldades. Há mais pobres à procura de apoio a quem passa ao lado as questões espirituais. “O que me preocupa é o medo que as pessoas têm. O medo da doença, o medo do futuro”, salienta ao mesmo tempo que observa que a sociedade está mais interessada em resolver as urgências da vida quotidiana do que em se focar nas grandes razões da vida, salienta o pároco. Realçando que nestes tempos tem que se procurar uma maneira equilibrada de viver. “Sou o primeiro a dizer que se um homem tem que trabalhar 12 horas por dia, então terá que trabalhar. No entanto, não se pode pensar que o trabalho é a vida”, refere, explicando que a realização pessoal nada tem a ver com aquilo que se é capaz de produzir.Giovanni diz que a Igreja pode contribuir para a realização pessoal do ser humano mas reconhece que ela não é a solução para tudo. “Se uma pessoa tem um problema espiritual eu posso ajudar, agora se tem um problema psicológico ou uma dor de dentes eu só posso acompanhar e encaminhá-la para o sítio correcto”, explica. O padre acredita que a Igreja tem que se renovar e tem que existir uma alteração nas formas de comunicação. “Eu não posso falar com uma pessoa no português de 1500 porque ninguém o entenderá. Tenho que falar com o português actual para que elas me percebam”.Impressionado com o apoio e colaboração dos habitantes de Alverca e também do Sobralinho e Calhandriz, onde também faz o seu trabalho de padre, Giovanni Musazzi diz que “em Alverca mistura-se uma grande expansão industrial com um contexto completamente rural. É interessante ver como estes dois mundos convivem entre eles”, salienta. O dia-a-dia do pároco que não consegue disfarçar o sotaque italiano é bastante ocupado e raramente tem tempo livre. Entre missas nas paróquias de Alverca, Sobralinho e Calhandriz, a catequese, a visita aos doentes e os funerais, está sempre disposto a ajudar as pessoas que o procuram e ainda acompanha um grupo de famílias em Lisboa. O grande desafio da Igreja neste momento“Na Europa os cristãos têm uma fractura entre o que sabem e o que vivem. Quando uma grande verdade objectiva perde o seu valor subjectivo (não basta crer que algo é certo, temos de fazer experiência que é certo para mim, para a minha vida) a certa altura já não quer dizer nada. Um dos desafios da Igreja é oferecer um lugar às pessoas onde se desenvolvem relações e onde podemos ajudar a fazer experiências do que propomos”.Como é o cristianismo hoje em dia?“Actualmente vivemos muitas reduções do cristianismo. Estou a banalizar mas existem procissões em que se liga a tudo menos à parte religiosa, de oração e de pedido de conversão. Existem pessoas que pensam que a religião é fazer só muitos actos de piedade. Depois existem os intelectuais que pensam que o cristianismo é conhecer todos os versículos de um livro antigo. Viver o cristianismo como vida é muito mais simples e mais eficaz. O método da Igreja é o mesmo método de Jesus: viver com verdade a relação com alguns homens que, abrindo-me à vida, me abrem a descobrir Deus”.O homem é naturalmente bom?“O mal surge quando o homem esquece quem é. O mal é, pura e simplesmente, a ausência de bem, o esquecimento de quem somos e de qual é que é a nossa verdade. Se o bem é ter esta cadeira, o mal não é ter outra coisa. É não ter esta cadeira. No entanto, o homem embora deseje e reconheça o bem, tem uma ferida: não somos capazes de o fazer, não conseguimos, é-nos difícil. Deus fez-se homem para curar esta ferida”.O padre que gosta de caçarGiovanni Musazzi nasceu há 37 anos numa aldeia italiana perto de Milão. Originário de uma família humilde, trabalhadora e que ia à missa como todas as outras. Após ter completado o décimo segundo ano e de ter tido namoradas, redescobriu o cristianismo. “Encontrei algumas pessoas que viviam o cristianismo de forma completa e aquilo fascinou-me”, diz. Apesar disso, via-se a casar e a constituir família como muitos dos seus amigos. Entrou para a universidade onde estudou Engenharia até ao segundo ano. No entanto, a sua vocação espiritual não o deixou continuar com os estudos académicos. Giovanni explica que o conhecimento e a humanidade que vinha do padre da paróquia até ao intelectual religioso era imenso e que o atraia para alcançar esse tipo de realização. Foi para o seminário em Roma e encontrou mais do que aquilo que esperava. “Antes de serem padres, eram verdadeiramente homens e tinham uma visão critica sobre a sociedade”, elucida. Foi ordenando e esteve seis anos em Espanha. O padre nunca deixou de fazer desporto e adora caçar e fazer montanhismo. Refere que às vezes a maior parte da população pensa que um padre não vive e ficam surpreendidos por vê-lo no supermercado ou a passar a ferro. “Um padre ri e chora como qualquer outro homem”, conclui.Sociedade de Vida ApostólicaO Padre Giovanni pertence à Sociedade de Vida Apostólica e foi a partir daí que chegou a Alverca. É uma congregação de 150 missionários que estão espalhados por 16 países. Vão para as paróquias que mais necessitam e vivem em casas partilhadas com outros párocos. O objectivo é ajustar-se à realidade e conviver com os problemas da sociedade para atingirem a sua própria realização aprendendo a viver dignamente com o que acontece no mundo.

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