Entrevista | 18-12-2013 17:25

O autarca que quer suster a brutal desertificação de Mação

Vasco Estrela, o novo presidente da Câmara de Mação, está apostado numa tarefa difícil que é conseguir suster a desertificação do concelho que sofre com os incêndios e a falta de oportunidades. Numa terra do interior com uma auto-estrada à porta que não lhe trouxe grandes vantagens, o autarca, militante do PSD, acredita que é possível com pequenas intervenções relançar o concelho. A autarquia já criou a marca associada aos presuntos mas o presidente reconhece que a dinâmica dessa imagem não tem andado ao ritmo que desejava. Pessoa directa que não gosta de fazer promessas que não possa cumprir, Vasco Estrela diz que não se vai cansar de chamar a atenção para os problemas da interioridade, mesmo que se sinta a pregar aos peixes.

Como vai combater a desertificação do concelho?Tenho objectivos para este mandato que é suster o ritmo brutal de desertificação que este concelho tem atingido. Mas não tenho pretensões de descobrir a pólvora e achar que tenho um remédio milagroso para um problema que afecta dois terços dos concelhos do país. Não há forma de contrariar esta realidade se não houver da parte do poder central políticas objectivas que vão no sentido de trabalharmos em conjunto. O Governo do seu partido não tem ajudado…Tem feito mais do mesmo. Até hoje não vi uma medida que me faça acreditar que tem uma ideia diferente. Essa estratégia para evitar a saída de pessoas passa por quê?Por pequenas medidas, por uma abordagem diferente ao território. Mas estamos dependentes dos apoios do Governo e do próximo quadro comunitário. Muitas das razões que levaram a esta sangria humana prendem-se com o facto de termos vivido de costas voltadas para o território. As pessoas viviam essencialmente daquilo que a terra lhes dava. Nos anos 50 e 60 foram para outros meios ou emigraram à procura de melhores condições. E como vai inverter a falta de ligação das pessoas ao território?É importante perceber como podemos tirar o máximo partido do território, que riqueza esta terra nos pode dar para se conseguir essa ligação das pessoas à terra. Temos de perceber como é que podemos vender este concelho. A criação da imagem de Mação como capital do presunto não está a ajudar a vender o concelho?Estas coisas demoram anos. A câmara criou a marca em parceria com os empresários do sector. Agora o passo final tem de ser deles, porque eles é que vendem, é que têm a riqueza. Aos poucos os empresários do sector vão percebendo, se calhar de uma forma mais lenta do que gostaria, que a marca Mação pode ser importante. Tem sido difícil convencê-los?Estamos a falar de empresas instaladas há muitos anos no mercado, com formas de trabalhar enraizadas, com uma forma de trabalhar própria e com a qual criaram postos de trabalho. Não há forma de isto resultar se os empresários não acharem que é uma mais-valia. Porque o presidente da câmara não vende presuntos e os vereadores não ensacam chouriços. O turismo pode ser a solução para o concelho?Há condições naturais mas temos de perceber o meio em que estamos inseridos. É óbvio que nunca teremos aqui um turismo de massas. Temos nichos e riquezas naturais que têm de ser pensadas de uma forma global, provavelmente com outros municípios e outros produtos que tenhamos para oferecer. Temos de desenvolver um plano integrado. O Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado também não tem ajudado a captar muitos visitantes.Não tem sido um museu com uma dimensão que vá além daqueles que são os interessados nesta matéria. É uma aposta ganha para um público específico. Vale a pena pensar que esta realidade tem de ser alargada, tem que captar outros públicos. Por isso estamos a pensar criar mais um espaço museológico tirando partido da riqueza que temos nesta área. Fixar pessoas é praticamente impossível quando os serviços públicos fecham.Não é decisivo para nada do país, para a consolidação das contas públicas, o encerramento de serviços. Na situação em que estamos não é com políticas de encerramento de serviços que se ajuda a contrariar o que já é difícil. Há forma de fazer as coisas de maneira diferente numa maior articulação com os municípios. A Câmara de Mação está disponível para assumir os custos de manutenção dos serviços. Os autarcas falam nisto há anos. O presidente é mais um a tentar ser ouvido. Sinto-me impotente mas tenho que pregar esta mensagem. Há pessoas que acham isto de somenos e vai desaparecendo uma série de coisas que representam a identidade nacional. E parece que alguns não percebem isto. Em relação ao tribunal, há alguma necessidade de os concelhos ficarem sem este serviço? Que importância têm dois funcionários em Mação? Vale a pena criar esta guerra? Ganhamos com isto alguma coisa?Mação tem uma auto-estrada à porta mas isso não lhe trouxe grandes vantagens. Tivemos a sorte de ter tido uma auto-estrada e o azar de ela ter chegado em 2002. Precisamente na altura em que o país estava a entrar em declínio. Se tem chegado na mesma altura que a A1 chegou a Torres Novas, provavelmente a história teria sido outra. Mas é preferível, de longe, ter auto-estrada e espero que ainda vá servir para alguma coisa. Tem promovido uma série de actividades culturais e recreativas. É para que as pessoas se sintam menos no interior?É uma forma de dar a conhecer o concelho, animar o comércio e dar um sinal a quem aqui está e luta pelo concelho de que estamos com eles nas dificuldades. Estes pequenos sinais podem contribuir para melhorar as nossas condições. Acredito mais que poderemos voltar a criar riqueza com pequenas intervenções do que com a instalação de uma grande empresa. Vai conseguir fazer alguma grande obra neste mandato?As grandes obras foram já feitas. Mas há intervenções com alguma dimensão que vão ter de avançar. Vamos ter de tomar opções ao nível dos investimentos. Espero conseguir reabilitar a entrada de Mação para quem vem da auto-estrada. Vamos iniciar a casa das associações onde vamos instalar várias entidades também ligadas ao sector produtivo. E temos de fazer várias intervenções na rede viária do concelho. Iremos tentar reabilitar o antigo quartel dos bombeiros. “Quero ficar conhecido por cumprir a palavra” Vê-se a voltar para a advocacia?Se não tivesse ganho as eleições era o que ia fazer. Um dia, quando sair da câmara, é o que irei certamente fazer. O que tenho certo é que tenho uma cédula profissional que está suspensa devido às funções autárquicas desde 2002. Se fosse deputado se calhar continuava a trabalhar ao mesmo tempo como advogado.Quando vim para assessor da câmara pedi um parecer ao conselho distrital de Évora da Ordem dos Advogados. Disseram-me que não podia exercer por ter acesso a informações privilegiadas. Pergunto que informações, que influência, tem um assessor de uma câmara com a dimensão da de Mação comparado com outras pessoas. É uma tremenda injustiça. É um caso em que há tratamento diferenciado. Os deputados devem poder ser advogados desde que os outros também possam. Ser presidente de câmara era um sonho?Estou na política há vários anos, desde a JSD onde estive na direcção nacional. Fui eleito da assembleia municipal há 20 anos. Não sendo um objectivo de vida estaria a mentir se dissesse que algumas vezes não tinha pensado no assunto. Nunca tracei o objectivo claro de ser presidente em 2013, mas sabia que tinha condições para ser candidato.Foi o ex-presidente que o trouxe para Mação, com que imagem ficou dele?O Saldanha Rocha é um homem determinado, apesar de às vezes não dar essa impressão. É uma pessoa sensível, muito preocupada com os problemas das pessoas e muito ligado aos pormenores. Compra a sua roupa em Mação?Já comprei mas estaria a mentir se dissesse que não compro também noutros sítios. E onde vai ao médico?Tenho médico de família e vou ao centro de saúde. Os meus filhos também. Na parte da saúde estamos bem, enquanto houver médicos. Mas não se augura nada de bom no futuro, porque alguns médicos estão a chegar à idade da reforma. Como se estão a formar mais médicos espero que comece a haver concorrência e que alguns prefiram vir trabalhar para o interior.Os seus filhos têm futuro no concelho?Essa é uma pergunta que feita a um presidente de câmara cria algumas dificuldades na resposta. Quando ia às cerimónias nas escolas dizia aos alunos que gostava que fossem tirar o curso e que depois regressassem a Mação. Infelizmente, hoje, quando alguns alunos acabam os cursos já nem em Portugal ficam. Tenho uma afilhada enfermeira que está a trabalhar em Londres. O drama já não é o de não virem para Mação. É o de não ficarem em Portugal.Mas tem esperança que os seus filhos fiquem em Mação?Teria muito orgulho e gosto que pelo menos um dos meus três filhos fizesse vida em Mação. Como presidente de câmara, o que posso tentar fazer é deixar uma terra com futuro. Como é que quer ficar conhecido?Como uma pessoa de cumprimento integral da palavra. Quero que as pessoas me vejam como alguém que cumpre o que diz. O assumir de compromissos com as pessoas é fundamental. Nem que seja o dizer não. Os políticos têm a tentação de prometer, de dizer que vão ver e depois não atendem o telefone. Só assumo o que tenho garantido que posso fazer. Não posso prometer que vou conseguir suster a desertificação porque não depende de mim. O presidente que em jovem gostava de assistir a julgamentosVasco António Mendonça Sequeira Estrela, 41 anos, é licenciado em Direito e advogado de profissão. Era vice-presidente da Câmara de Mação e actualmente é o presidente da autarquia. É militante do PSD desde finais dos anos 80. Começou por ser assessor da câmara por convite do ex-presidente, Saldanha Rocha. Na altura estava a exercer advocacia em Lisboa e foi para Mação. “Estava numa fase de grande indecisão e juntou-se o útil ao agradável”, sublinha. Natural de Mação, é adepto do Benfica e já foi sócio do clube. Nos tempos livres, que diz agora serem poucos, gosta de ver futebol e costuma assistir aos jogos do clube da terra. “Não tenho grande tempo para ter hobbies”. Também costuma andar de bicicleta com os filhos. Tomou a decisão de ser advogado por volta dos 16 anos mas não tem nenhuma razão especial para se ter apaixonado pela área. Costumava em jovem assistir às sessões de julgamento no Tribunal de Mação. O primeiro que assistiu era o de um homem que andava a roubar mercearias. “O Direito é uma área muito interessante mas também é preciso ter algum estômago porque nesta área há muitas formas de ver a verdade”, diz. Vasco Estrela diz que para exercer o cargo de presidente é fundamental o apoio familiar que tem. Só assim, acrescenta, é possível trabalhar com tranquilidade. A esposa é professora em Alter do Chão. Não fosse o apoio da mãe, que é viúva, e dos sogros, da irmã e cunhado, tinha uma situação muito complicada para gerir, sobretudo no acompanhamento dos seus três filhos.É preciso intervir na área florestalOs incêndios são outro problema do concelho que parece não ter solução. Foram criadas as zonas de intervenção florestal (ZIF) que não saíram do papel. Apesar de o desenho estar bem feito não tem havido financiamento compatível com aquilo que são as necessidades. Se dessem essa competência ao município resolvia-se a situação?Estamos a falar de investimentos muito grandes e a câmara não tem meios de os fazer sozinha. Estamos a falar de territórios onde já não há gente, ou há pouca, e os proprietários das terras ou estão fora ou são pessoas idosas. Ou há alguma política para que o problema da floresta seja encarado de frente, ou vamos assistir a mais grandes incêndios. Precisa de mais apoios para limpeza da floresta?Se for só isso é mais do mesmo. O que é necessário é fazer intervenções nas áreas florestais que não sejam apenas limpar o mato. Temos que fazer uma espécie de emparcelamento e tentar humanizar o território. Os grandes incêndios já estão a atingir outras áreas, mais perto de grandes localidades, do litoral. Isto é um sinal que há cada vez mais terras ao abandono. Temos zonas de Ourém e Tomar, que não são tão do interior como Mação, em que o fogo já chega perto das casas.Não tem havido vontade de investir na área florestal?Espero que não seja só quando o fumo estiver a atingir o Terreiro do Paço que percebam que algo vai ter de ser feito. Os grandes fogos vão acompanhando a desertificação do território. No Médio Tejo só dois concelhos não perderam população: Entroncamento e Constância. Isto deve fazer pensar.Isso é reflexo de estratégias erradas.O estado a que chegámos tem muitos responsáveis, nos quais tenho também de me incluir. Todos desenhámos este caminho, até enquanto cidadãos.

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