Entrevista | 30-12-2013 17:24

O português de Almeirim que vive há uma década no Japão

A comida é diferente. Não há beijos, apertos de mão ou abraços e não há conversas sobre futebol ou outros assuntos durante o tempo de trabalho porque a concentração no que se está a fazer é total. Mas os japoneses que conhece não são viciados no trabalho e quando chega a hora de se divertirem não falam de trabalho. Um regresso a Portugal está, por enquanto, afastado de todo.

Uma sociedade “extremamente educada e respeitadora”, com uma grande preocupação com a segurança e onde “os horários são cumpridos ao segundo”. É assim que Luís Matias começa por descrever o Japão, país onde reside e trabalha.Licenciado em Engenharia Mecânica, pelo Instituto Superior Técnico, foi em 1995 que Luís Matias teve o seu primeiro contacto com este país do Oriente. Na altura, trabalhava na fábrica da Mitsubishi no Tramagal, concelho de Abrantes, e, durante nove meses, realizou um estágio no centro de desenvolvimento da Mitsubishi Motors em Okazaki - Nagoya. “A primeira impressão que tive do Japão foi muito positiva a diferentes níveis, nomeadamente na forma de trabalhar, muito cuidada, rigorosa, com planeamento e ao pormenor, algo com que me identificava”, refere.Após este primeiro estágio, seguiram-se mais algumas viagens de trabalho ao Japão, onde passava várias semanas, pelo menos uma vez por ano. “Ao longo desse tempo, tentava falar japonês sempre que podia e ia estudando por iniciativa própria”, relembra.A vontade de ir trabalhar permanentemente para o Japão começou a falar mais alto e Luís Matias iniciou a pesquisa de emprego que, em 2004, lhe abriu as portas numa empresa de logística da Mitsubishi Motors. Considera que este processo “não foi fácil, demorou alguns anos” mas “com muita persistência foi possível atingir o objectivo”. Desde 2010 está a trabalhar na actual fábrica da Mitsubishi Fuso, em Kawasaki, cidade onde reside e que fica junto a Tóquio.Luís Matias afirma que tem uma vida normal “de quem tem um emprego com um horário estabelecido, de segunda a sexta-feira”, mas reconhece que “provavelmente mais ocupado que a média em Portugal porque as responsabilidades assim o exigem”. Não considera que os japoneses sejam viciados no trabalho, no entanto, “a empresa, o trabalho são um valor muito importante na sociedade japonesa”. E acrescenta que “os japoneses levam o trabalho muito a sério, no horário de trabalho é para trabalhar e assuntos pessoais deverão ser excluídos”. Por outro lado, “quando há uma festa, mesmo sendo uma festa entre pessoas da empresa, aí é mesmo para as pessoas se divertirem, sem falar de trabalho e sem diferenças hierárquicas”, exemplifica.Aos fins-de-semana, Luís Matias aproveita os seus tempos livres para andar de bicicleta, jogar ténis, fazer escalada ou esquiar com os amigos se for inverno e houver neve. Ou seja, faz uma vida em contacto com a natureza apesar de se encontrar perto de Tóquio, provavelmente a maior metrópole do mundo com 30 milhões de habitantes, onde a oferta ao nível de compras, divertimentos e actividades várias é enorme. Curiosamente foi no Japão que tomou contacto com o samba. Para ajudar a libertar o stress do trabalho e do dia-a-dia, faz parte de um grupo de samba onde os elementos são todos japoneses, com excepção dele. “Temos uma actividade ao longo do ano, essencialmente nos meses de Primavera quando treinamos as músicas e temos as actuações”, refere este português que faz parte dos elementos da bateria.Luís Matias fala japonês, sente-se perfeitamente integrado na sociedade japonesa e diz que nunca se sentiu muito incomodado com a diferença de culturas. Apesar disso não pode ignorar as regras sociais. Refere como exemplo que uma das diferenças entre a sociedade portuguesa e a japonesa é que no Japão não é normal haver cumprimentos físicos (sejam beijos, apertos de mão ou abraços); que a comida “é diferente, mas de fácil aceitação” e que, em relação à língua japonesa, “não foi fácil no início”. Vem a Portugal uma vez por ano, sempre no final do ano, durante cerca de 10 dias, mas este ano vai ser diferente dos outros e deverá ter a sua primeira passagem de ano nipónica. Quanto ao futuro confessa que, para já, não tenciona regressar definitivamente. Mas acrescenta: “como em tudo na vida, as coisas podem alterar-se”.

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