Entrevista | 23-07-2015

O último alfaiate de Santarém

Quando se estabeleceu por contra própria, há 45 anos, havia cerca de trinta alfaiates na cidade. Hoje é o único e as encomendas escasseiam. "O pronto-a-vestir é um negócio, não é uma arte", sentencia.

É o último alfaiate de Santarém e vê com amargura a sua arte caminhar em lenta agonia a caminho da extinção, subjugada pela ditadura do pronto-a-vestir que revolucionou a moda e os hábitos de consumo. Manuel Montês Simão permanece com a casa aberta num velho prédio junto à igreja de São Nicolau, no centro histórico da cidade, onde a companheira trabalha em costura. O primeiro andar, a que se chega através de umas escadas de madeira íngremes, faz-nos recuar aos tempos em que os profissionais do corte e costura ditavam leis na arte do bem vestir.As tábuas do sobrado rangem, as estantes têm livros e revistas antigos sobre o ofício. Réguas, fitas métricas, moldes, tesouras, tecidos, jornais desportivos, um emblema do Sporting e até um ursinho de peluche compõem a amálgama de objectos que forram a divisão onde Manuel Simão desenvolve a actividade há muitos anos. Hoje, são raras as encomendas de fatos completos, de casacos ou fraques, mas o alfaiate não desiste, até porque tem a casa cheia de fazendas para talhar e ainda tem esperança de lhes vir a dar uso.Manuel Simão completa 78 anos no próximo mês de Agosto. Nasceu em Aldeia de Além, uma localidade na freguesia de Alcanede, Santarém. Filho de uma costureira e de um arquitecto, ficou órfão de pai aos dois anos e viveu parte da sua infância em Alcanena. Aos 8 anos, entrou para o Lar dos Rapazes, em Santarém, onde viveu até ser chamado para cumprir o serviço militar.Depois de fazer a quarta classe, aos 13 anos começou a aprender o ofício que quis seguir. Ainda tentaram convencê-lo a seguir a vida eclesiástica, como aconteceu com um irmão que foi padre, mas Manuel Simão disse que "não queria vestir saias como as mulheres". Começou como aprendiz com o alfaiate/costureiro José Augusto Marques - "aos 14 anos já era oficial" - e passou por várias casas de renome na cidade, evoluindo nos conhecimentos e na carreira e ganhando fama entre os seus pares e entre a clientela, muita dela abastada. "Trabalhei sempre nos melhores e fui sempre convidado. Nunca me ofereci a ninguém", conta.* Entrevista completa na edição semanal de O MIRANTE.

Mais Notícias

    A carregar...

    Edição Semanal

    Edição nº 1376
    07-11-2018
    Capa Médio Tejo
    Edição nº 1376
    07-11-2018
    Capa Vale Tejo