Entrevista | 12-08-2015 17:51

“Sinto falta de reconhecimento por parte de Santarém”

“Sinto falta de reconhecimento por parte de Santarém”

Mais de 30 anos depois de ter deixado Santarém rumo ao Sporting, o ex-futebolista Jorge Cadete agora com 46 anos, regressa à região para ser director geral para o futebol do União de Almeirim. O antigo internacional português responde a algumas questões sobre o novo clube, os objectivos e sobre o futuro mas também aborda o passado e as conhecidas dificuldades financeiras por que passou.

O que fez nestes anos todos desde o final da carreira? Como profissional deixei de jogar em 2002 e em 2003 fundei, sozinho, a minha academia de futebol. Durante cinco anos fiz a gestão sozinho e em 2011/2012 estive a treinar o Algueirão. Em 2013 candidatei-me ao ensino superior, na Escola Superior de Desporto de Rio Maior. Fiz as provas e consegui entrar. Em Setembro vou para o último ano da licenciatura em treino desportivo.Foi durante muitos anos um futebolista de topo e entretanto confrontou-se com graves dificuldades chegando a ser beneficiário do Rendimento Social de Inserção. Como está actualmente a sua vida? Nem tudo se resolve de um momento para o outro mas vou recuperando e trilhando o meu caminho degrau a degrau. Nem sempre se recupera de um momento para o outro mas quem tem força de vontade, carácter e uma forma de estar na vida com coerência, correcção e humildade, mais tarde ou mais cedo alcança os seus objectivos. Dificuldades financeiras é uma situação que pode acontecer a qualquer um em Portugal. Noutros países, os atletas de alta competição e de desgaste rápido, aos 35 anos têm direito à sua reforma. Em Portugal, os mesmos atletas só têm direito à reforma aos 65, 66 ou se calhar aos 67 anos. Quanto ao Rendimento Social de Inserção é verdade, foi público.Os jornais disseram que estava na miséria. Chegou a passar fome? Não, nunca passei fome. Quanto à miséria é um termo que a imprensa gosta de utilizar para tentar rebaixar as pessoas. Mas eu não me sinto rebaixado, nem afectado.Mas o que pensa uma pessoa que teve tudo e de repente fica sem nada? Não perco tempo a pensar nisso. O dinheiro é importante mas não é tudo na vida e não me adianta ser uma pessoa rica financeiramente e ser uma pessoa pobre de espírito. Não me adianta andar uma vida toda a ganhar muito dinheiro para depois, nos últimos anos de vida, gastar o dinheiro todo para ver se tenho saúde. Não sou saudosista. Tive o meu tempo e os meus momentos e cada momento é para ser vivido com entusiasmo, dedicação e empenho e isso faz-me estar sempre de consciência tranquila.Foi um figura emblemática do Sporting e do Celtic de Glasgow. Pediu-lhes ajuda nas alturas mais complicadas? Não. Não é orgulho, mas é a minha forma de estar. Se calhar é um defeito meu não chegar lá, bater à porta e dizer: vejam lá se não arranjam um lugarzinho para mim. Metem tanta gente no clube. Já agora metam-me a mim também. Acho que as pessoas deviam ocupar cargos pelas suas capacidades e, primeiro que tudo, todas as pessoas que foram referências e que têm capacidades deviam ser-lhe dadas oportunidades de demonstrarem se são bons ou não e nunca rotulá-los como pessoas que não têm capacidade.Pelo meio teve uma experiência na televisão, no Big Brother. Como foi essa experiência? Valeu pelo dinheiro? Recebi um convite da Endemol e depois do José Eduardo Moniz. Aceitei porque queria ganhar o programa e oferecer o prémio a uma instituição de caridade, daquelas que precisasse mesmo. Era o principal objectivo. Estive lá 17 dias e não foi uma experiência difícil. Para quem no desporto passa a maior parte do ano em estágio, estar fechado não foi nada de especial. Se valeu pelo dinheiro? Não, o prémio maior era para quem ganhasse.Este regresso ao Ribatejo está a fazer-lhe bem? Como a minha mãe diz, por vezes precisamos de voltar às nossas origens. Principalmente os ribatejanos parecem que renascem quando voltam ao Ribatejo. Voltei em Outubro de 2013 e em Janeiro (de 2014) surgiu o convite para fazer o programa de televisão Desafio Total. Em Julho (de 2014) surgiu o convite para entrar para a Liga de Futebol e agora surgiu o convite para ser director geral do futebol do União de Almeirim. Parece que voltar ao Ribatejo está a dar sorte. A minha história é um pouco como a história da Fénix que renasceu das cinzas. Sinto-me renascido. E para isso contribui a forma como as pessoas me receberam em Almeirim. Eu cheguei cá e não me senti deslocado.Porquê o União de Almeirim? Não teve mais convites? Desde logo porque foi o primeiro clube a contactar-me. O presidente André Mesquita ligou-me, fomos conversando e fui conhecendo o clube, a estrutura, quais os objectivos. Em conjunto temos estado a preparar tudo para que o União de Almeirim seja visto a médio prazo como uma referência de formação a nível do distrito e talvez a nível nacional. A partir do momento em que falei com o André ficou praticamente decidido que eu ia fazer parte do projecto por isso nem tive outros clubes a contactar-me.Quais são os objectivos do União de Almeirim em termos de seniores? Não adianta estar a fazer um projecto para atingir o Campeonato Nacional de Seniores e depois, logo no ano seguinte, descer outra vez ao distrital, que é o que acontece quase sempre. Acho que as coisas têm de ser consolidadas. Nós vamos procurar consolidarmo-nos na primeira divisão distrital e consolidar o clube a nível financeiro, para depois se pensar realmente onde se quer chegar com a equipa sénior. Se tiverem oportunidade de subir de divisão vão desperdiçá-la? Há clubes que preferem fazê-lo. É verdade que há clubes que estão em primeiro lugar do distrital, que vêem que não têm orçamento, nem condições para estar no nacional e que depois pensam: vamos subir para quê? Para nos enchermos de dívidas? A mesma coisa nos juniores: subir envolve uma grande despesa, envolve ir jogar longe. Se formos ver o que se gasta em combustível, transportes, alimentação e inscrições, mais vale pegar numa equipa de juniores e tê-los a jogar na equipa de seniores. No nosso caso, o objectivo é a equipa sénior ser abastecida pela formação.Ter um clube de Almeirim a apostar em si e não de Santarém provoca-lhe que sentimento? Em relação a Santarém o que sinto é falta de reconhecimento da cidade em relação a um nome que toda a gente associa à cidade. Fui uma referência do desporto de Santarém a nível internacional. Ninguém mais do que eu deu a conhecer Santarém ao mundo. Há dois anos apresentei alguns projectos: um sobre dar aulas de futebol a miúdos carenciados e outro sobre ter todos os meus troféus e tudo o que tenho a nível de imprensa numa sala para que as pessoas pudessem visitar. Mas nunca obtive resposta.O que espera do seu futuro? A vida tem-me ensinado que não adianta planear nada porque pode tudo correr de forma diferente. Fiz um acordo para estar no União de Almeirim durante uma época. Não quer dizer que esse acordo não se estenda. Depende de vários factores. É claro que a minha ambição é grande. Ambiciono sempre chegar o mais longe possível mas com os pés bem assentes na terra. Neste momento estou 100 por cento dedicado e empenhado no União de Almeirim.Está a frequentar o curso de treino desportivo na Escola Superior de Desporto de Rio Maior para recuperar o tempo perdido? A licenciatura dá equivalência ao grau 2 de treinador, o que já tenho desde 2006. Experiência não me vai dar muita porque já tive experiência de treinador. O que o curso me dá é mais ferramentas para eu ser melhor do que aquilo que sou neste momento e proporciona-me estar actualizado com todos os métodos e pedagogias que me servirão no futuro.Como é que os seus colegas de escola tratam uma antiga estrela? Tratam normalmente, tal como eu faço em relação a eles desde o primeiro dia, porque a minha forma de estar é muito simples. Tenho a vantagem de ter alguns sportinguistas na turma. Eles acompanharam a minha carreira, viram os meus jogos e isso serve para quebrar o gelo. Como somos uma turma pequena acabamos por nos ajudar uns aos outros. Somos como uma família.Académica de Santarém é um clube de referência na formaçãoComeçou a sua carreira futebolística na Académica de Santarém. Que memórias guarda desses tempos? Guardo boas memórias, passei lá bons momentos, apesar de ter sido só uma época. Foi o meu primeiro clube federado. Recordo-me de sermos o parente pobre de Santarém e de marcar 43 golos em 18 jogos. Foi um recorde que durou 30 anos. Foi batido, salvo erro há dois anos, pelo Leandro, do Núcleo Sportinguista de Rio Maior, que fez 46 golos mas em mais jogos. Em casa, ainda tenho uma camisola da Académica, da homenagem que me fizeram em 1991 na Casa do Campino.Depois de tantos anos como é que olha para a Académica de Santarém? Em termos de formação, é, seguramente, o clube do distrito com mais atletas. Tem 400 e tal atletas, mais do que o Núcleo Sportinguista de Rio Maior. É um clube de referência na formação, com bons atletas e se tem bons atletas é porque também tem bons treinadores. Os responsáveis melhor que ninguém saberão se a aposta somente na formação é correcta ou não. Mas é um clube com boas condições e boa matéria-prima.Foi acompanhando o futebol distrital durante estes anos? Não fui acompanhando muito. No ano passado ainda fui ver dois jogos dos juniores da Académica e dos infantis mas não acompanhei muito o futebol distrital. Não o fiz porque não estava envolvido em nenhum projecto em que tivesse de saber do futebol distrital. E depois tinha outras coisas nas quais estar concentrado. Neste momento, considero o União de Almeirim o maior clube distrital. Não digo a melhor equipa, mas sim o maior clube.Uma vida com 139 golosJorge Cadete nasceu em Moçambique, na cidade de Porto Amélia (actual Pemba), em 27 de Agosto de 1968. Mudou-se para Santarém com oito anos e aqui se fixou, juntamente com os pais, até ir para o Sporting em 1984 (jogou uma época na Académica de Santarém). Foi uma das referências do Sporting, chegando a capitão de equipa e à selecção nacional. Em 1995 deu o salto para os escoceses do Celtic de Glasgow, onde se tornou um ídolo graças aos muitos golos que marcava. Em 1997 e 1998 experimentou o campeonato espanhol, pela mão do Celta de Vigo, regressando depois a Portugal para jogar no grande rival do Sporting: o Benfica. Depois de duas épocas de águia ao peito entrou numa fase descendente da carreira mas ainda representou os ingleses do Bradford City e o Estrela da Amadora, clube pelo qual se retirou em 2002. Mais tarde viria a regressar ao activo mas apenas para disputar alguns jogos pelos escoceses do Partick Thistle (em 2003/2004), pelo Pinhalnovense (em 2004/2005) e pelo São Marcos (de 2005 a 2007). Foi 33 vezes internacional. No total, desde o primeiro ano de sénior no Sporting até à retirada, Cadete fez 415 jogos e marcou 139 golos.

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