Entrevista | 25-11-2015 16:44

“Não é fácil um homem impor-se como bailarino”

Artista viveu na Romeira, no concelho de Santarém, até aos 22 anos quando decidiu tentar a sua sorte no mundo da dança em Lisboa. Gosta de voltar à terra natal para recarregar baterias e rever a família e amigos. Apaixonado desde criança pelo mundo da dança começou a dar os primeiros passos no Rancho Folclórico da Romeira e mais tarde nas danças de salão. Gostava de apresentar os seus espectáculos em Santarém.

Desde criança que Nuno Labau, 29 anos, é fascinado pelo mundo da dança. Aos seis anos já ia assistir aos ensaios do Rancho Folclórico da Romeira (concelho de Santarém), de onde é natural, com a sua irmã mais velha que já integrava o grupo. Nuno ficava a observar e imitava todos os passos. Até que o convidaram para fazer parte do rancho, onde dançou até aos 21 anos. Entretanto, iniciou-se também nas danças de salão que conciliou sempre com o folclore. Quando decidiu mudar-se para Lisboa esteve no Chapitô, onde teve formação. É bailarino profissional há cerca de três anos, tendo também frequentado a Escola Superior de Dança.Há cerca de dois anos que Nuno Labau está a desenvolver o projecto a que deu o nome de “Violência das Coisas Insensíveis”. “Esta performance aborda o facto das pessoas que vivem sobretudo nas grandes cidades se tornarem mais introspectivas e mais egocêntricas. A azáfama do dia-a-dia, toda a correria a que estamos sujeitos, faz com que percamos um bocadinho a consciência cívica do próximo. Tenho muito esta noção porque vim de uma aldeia pequena e percebo a diferença de viver num meio rural, muito mais calmo, e viver num grande meio urbano”, explica. Nuno Labau está à procura de financiamento público e privado para poder levar esse espectáculo de dança a palco. “Sem apoios e patrocínios é muito difícil concretizarmos os projectos que já temos prontos e neste momento estou na fase de encontrar ajudas para que as pessoas possam assistir à performance que preparei”, afirma.Depois de encontrar financiamento para avançar com o espectáculo, o bailarino pretende apresentar o projecto também em Santarém. “Para mim faz todo o sentido mostrar o meu trabalho ao público de Santarém e quero muito conseguir fazer isso”, sublinha. Apesar de ser cada vez mais comum existirem bailarinos em Portugal, Nuno Labau sente, sobretudo nos meios mais pequenos, que as pessoas estranham quando diz qual é o seu modo de vida. “Em Lisboa não ligam tanto, é normal, mas em Santarém ou na minha aldeia é comum estranharem. Já estou habituado e não ligo. Não é fácil um homem impor-se como bailarino, são precisos muitos anos e eu estou a fazer o meu caminho”, refere.Nuno confessa que todos os dias pensa em desistir da carreira de bailarino por ser tão difícil vingar nessa área. No entanto, todos os dias também se recorda dos três anos em que trabalhou num centro comercial e onde não se sentia realizado. “Lembro-me desses tempos em que não era feliz. E como decidi que não queria sentir-me frustrado para o resto da vida tinha que pelo menos tentar a sorte na área que realmente me faz feliz”, considera. O jovem garante que é possível viver só da dança em Portugal mas que demora muito tempo até chegar a esse ponto. E, neste momento, o bailarino ainda não consegue viver apenas da dança.Nuno Labau sonha com uma carreira internacional. Pisar os palcos de cidades como Paris [França] e Tóquio [Japão] são alguns desses sonhos. Outro objectivo é levar os seus espectáculos a Angola, país de onde a sua mãe é originária e onde vivem muitos dos familiares de Nuno. Mostrar as suas performances, com influências europeias, num país africano, numa espécie de intercâmbio, é uma das suas ambições.“Santarém é onde recarrego baterias”Nuno Labau nasceu a 5 de Fevereiro de 1986, tendo vivido na Romeira até aos 22 anos, quando decidiu arriscar a sua sorte em Lisboa. No entanto, o jovem é um apaixonado por Santarém e pela sua aldeia. Sempre que pode “foge” para cá para estar com a sua família e amigos. “Santarém é onde recarrego baterias. Sou muito ligado à natureza e adoro ir para os miradouros contemplar a paisagem e sentir o vento a bater-me no rosto. Saio daqui com muito mais força e energia para enfrentar mais uns meses de trabalho. Desde que estou em Lisboa que dou muito mais valor à minha terra. Aqui há mais tranquilidade, o que é maravilhoso”, confessa.O bailarino considera que Santarém ainda tem um longo caminho a percorrer ao nível da dança. O jovem já tentou dar aulas de expressão corporal na cidade mas depressa percebeu, diz, que ainda não existe mercado para esse tipo de actividade. Se tivesse oportunidade, Nuno Labau mudava a dinâmica cultural do concelho de Santarém. Garante que é preciso mais e que não se podem culpar as pessoas de não assistirem aos espectáculos. “Falta vida de rua em Santarém. Se criarmos uma rotina de espectáculos as pessoas habituam-se a irem aos espectáculos porque sabem que há alguma coisa nas salas de Santarém. Falta criar uma programação mais regular”, defende.Apesar de ser ribatejano, Nuno Labau confessa que não é nada aficionado pela tauromaquia. Admira a arte e toda a beleza do espectáculo “enquanto não se espeta nada nos toiros. Mesmo que o animal seja morto a seguir não gosto de ver. Respeito a tradição mas não gosto porque faz-me confusão ver o toiro a ser picado”, admite.

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