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Entrevista | 31-12-2016 16:46
"Envelhecimento da população é muito grave"
ENTREVISTA
António Martins Lopes é provedor da Misericórdia da Golegã há 26 anos.

Desloca-se em cadeira de rodas por ter sofrido várias amputações. Faz hemodiálise três vezes por semana mas não se lhe ouve um único queixume relativo à sua condição pessoal. Se queixas tem a fazer são relativas às incompreensões, faltas de apoio e atrasos relativos a projectos da Santa Casa da Misericórdia da Golegã, instituição a que dedicou e continua a dedicar toda a sua energia. Martins Lopes vive em função das necessidades dos outros.

Porque é que as instituições de solidariedade social, na maior parte dos casos, não trabalham em ligação umas com as outras, originado situações de duplicação de acções?

O governo apela ao trabalho em rede e ao estabelecimento de parcerias. As câmaras fazem o mesmo apelo também. Mas depois algumas câmaras, em vez de cooperarem andam a competir na área social. Há câmaras com um "staff " técnico na área social que não se justifica. Isto de trabalhar em rede é tudo mentira. A rede devia ter um órgão que devia funcionar em pleno para a rentabilização dos recursos existentes e isso não acontece.

Porquê?

Porque há quem tenha interesse nisso. A Misericórdia da Golegã, por exemplo, tem um banco de roupas, tem mobílias, ajudas técnicas, etc. Mas se houver um órgão político que quer mais um voto é evidente que até vai comprar algumas dessas coisas para oferecer a um carenciado. Funciona tudo por capelinhas. Vou-lhe dar o exemplo. Um dia o chefe de divisão da câmara municipal, pediu à nossa directora, se lhe emprestava uns idosos para ir ali ao equuspolis fazer um trabalho social. Se a gente lhe emprestava os idosos para justificar o trabalho que ela fazia.

O senhor está a viver numa das 24 residências assistidas que foram construídas pela Misericórdia nesta área onde também funciona o lar. Não são instalações para carenciados.

Para podermos dar ajuda aos mais pobres temos que encontrar formas de gerar receitas. Esta foi uma delas. As residências estão todas ocupadas. Há algumas pessoas em lista de espera. Quem vem para cá faz um contrato de usufruto. Quando essa pessoa morre a residência reverte a favor da instituição que faz as manutenções necessárias e a revende.

Na sua opinião o Estado tem dado a devida atenção ao envelhecimento da população?

Tenho o projecto do Clube Vida através do qual a Misericórdia está a fazer um trabalho que é do Estado. Estamos a falar outra vez de equipamentos e de candidaturas. Passam pelo Clube Vida 160 pessoas por semana. O Clube Vida tem 28 professores e vários módulos. Há pessoas com oitenta anos a aprender línguas. A aprender a trabalhar com um computador. Isto é uma base cultural para o envelhecimento activo.

Do que se queixa?

A dinâmica do Clube Vida é muito forte. Cada vez há mais pessoas a inscrever-se. E temos ali uma função que o Estado aprecia muito que é o voluntariado. Dezenas de voluntários. E os voluntários têm que se preservar. Nós estamos no caminho que o Estado apregoa. Inovação. As pessoas não vão para o primeiro andar do edifício porque não têm pernas para subir os degraus. Tenho que arranjar um elevador. Era preciso que o Centro Social Distrital fizesse pressão para dar prioridade a estas coisas.

O envelhecimento da população é muito grave.

É gravíssimo e quando os políticos vêm dizer que o vão resolver é tudo mentira. As pessoas reformam-se aos 66 anos e que vão fazer? E eu tenho um acordo apenas para 65 utentes no Centro de Convívio. Agora preciso de espaço e não tenho.

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