Entrevista | 31-05-2018 02:28

“Nasci em Tomar, trabalho na região e não quero ir para outro lado”

“Nasci em Tomar, trabalho na região e não quero ir para outro lado”
Gonçalo Martinho conta que foram os seus pais que o incentivaram a seguir medicina

Gonçalo Martinho é cirurgião ortopédico e trabalha no sector privado

Elogia os médicos e restantes profissionais do Serviço Nacional de Saúde, que diz ser um dos melhores do Mundo, embora tenha optado por trabalhar no sector privado para poder proporcionar as melhores condições possíveis à sua família. Trabalha no Centro de Reabilitação do Nabão e no Hospital CUF Santarém e só continua a morar em Lisboa devido à actividade profissional da esposa. Gonçalo Martinho tem 35 anos e uma grande paixão pela música mas quando é para trabalhar prefere o silêncio.

Quando era pequeno queria ser toureiro. Nessa altura via as corridas de toiros na televisão e ficava encantado. Os anos passaram, ganhei outra consciência e actualmente não me identifico com aquele tipo de espectáculo.

Moro em Lisboa porque a minha esposa é engenheira química e é lá que trabalha. Sou de Tomar e se no futuro houver oportunidade é em Tomar que quero viver. Por enquanto é lá que trabalho, bem como em Santarém, e é na região que quero continuar a trabalhar. Fiz a minha especialidade no Hospital Distrital de Santarém.

Tomar é uma cidade magnífica com uma boa qualidade de vida. Tem óptimos equipamentos desportivos, espaços de natureza e um bom ambiente cultural. Santarém é uma terra de gente genuína e boa. Trabalhar nesta região é um privilégio.

Foram os meus pais que me incentivaram a ir para Medicina embora não fossem médicos. O meu pai era técnico de contas e a minha mãe tinha um pequeno negócio. Eu tinha boas notas e aceitei a sugestão. Estou-lhes grato porque me sinto totalmente realizado profissionalmente.

Como cirurgião ortopédico sou uma espécie de mecânico do corpo humano. Sempre gostei de fazer trabalhos manuais. De usar as mãos. Mantenho com os meus doentes uma relação de grande confiança. Sou sempre muito realista em relação às suas expectativas e até agora, já lá vão quase dez anos de profissão, e cerca de quatro mil cirurgias concluídas, tudo tem corrido muito bem.

Nesta região há muitas pessoas que necessitam de médicos com a minha especialidade. A população está envelhecida e padece dos males próprios do desgaste. Há também muitos desportistas com problemas devido a lesões. As pessoas recorrem à cirurgia ortopédica para terem melhor qualidade de vida.

Há aquela ideia passada pelos filmes de que os cirurgiões estão sempre a ouvir música enquanto operam. Não é o meu caso. Apesar de gostar muito de música, de tocar piano e de até ter tido uma banda, preciso de silêncio para estar totalmente concentrado. Posso dizer que o silêncio é o meu melhor aliado.

O Sistema Nacional de Saúde não me garantiu condições para exercer a profissão. Trabalhava 72 horas por semana, das quais 48 em serviço de urgência, que é desadequado à minha especialidade. Era um desperdício de recursos e encarecia o serviço. Fazia o sacrifício de passar muitas noites sem ver os meus filhos e nem sequer era pago de acordo com esse esforço.

Trabalho no sector privado mas considero o nosso Serviço Nacional de Saúde um dos melhores do Mundo. Quem governa tem que olhar para os médicos e restantes profissionais que lá trabalham. Valorizar o sacrifício que fazem em prol dos doentes sacrificando-se a si próprios e às suas famílias.

Acho que o problema da saúde é um problema de sub-financiamento. Há hospitais que ao fim de seis meses já esgotaram o orçamento anual. É uma questão de gestão, que poderá passar por termos menos hospitais e mais centros de saúde com valências alargadas.

As pessoas da região são extraordinárias. Tenho doentes que me oferecem produtos das suas hortas que eu não posso recusar porque seria ofensivo. Mas sei que são pessoas de poucos recursos. Isso sensibiliza-me imenso. Alguns jovens oferecem-me molduras com fotos depois das intervenções para mostrarem a sua recuperação. A componente humana é fundamental na medicina.

Aprecio particularmente a lealdade e a honestidade. Não consigo conviver com a falsidade. Detesto certos jogos dúbios e outros truques que algumas pessoas usam para atingir os seus objectivos.

Trabalho com uma equipa magnífica onde a lealdade nos aproxima. Funcionamos como uma família no Centro de Reabilitação de Tomar. O mesmo se passa no Hospital da CUF, em Santarém. Só assim estão garantidos os bons resultados para quem precisa dos nossos serviços.

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