Entrevista | 13-04-2019 18:00

Um homem que bate numa mulher é um cobarde

Um homem que bate numa mulher é um cobarde

Carmen Ludovino é gestora do Gabinete de Apoio à Vítima de Santarém

Os registos de casos de maus tratos sobre idosos, de violência no namoro e de bullying e cyberbullying envolvendo crianças e jovens têm vindo a crescer mas o grosso das participações feitas junto do Gabinete de Apoio à Vítima de Santarém relaciona-se com violência sobre mulheres. A responsável por esse serviço diz que é preciso dizer basta e denunciar essas situações.

C armen Ludovino, natural e residente em Santarém, é jurista e gestora do Gabinete de Apoio à Vítima (GAV) de Santarém e da equipa móvel que funciona em vários concelhos da Lezíria do Tejo. O seu trabalho passa pelo atendimento e apoio a vítimas de crime. Com ela colaboram Gustavo Duarte (psicólogo e assessor técnico) e Sónia Machado (psicóloga e técnica de apoio à vítima), bem como alguns voluntários.

O GAV de Santarém já conta com 12 anos de existência, resultando de um protocolo estabelecido entre a Câmara de Santarém e a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), organização não governamental. Nas instalações situadas no antigo quartel da Escola Prática de Cavalaria são atendidas e apoiadas centenas de pessoas anualmente, não só de Santarém e de concelhos limítrofes mas também de outras regiões. Os serviços podem também ser contactados por correio electrónico (apav.santarem@apav.pt) ou por telefone (243 356 505).

Há alguma tendência que se tenha alterado ou acentuado nos últimos anos quanto ao perfil das denúncias que chegam ao Gabinete de Apoio à Vítima de Santarém?

Sim, tem-se verificado um aumento de denúncias tendo pessoas idosas como vítimas. Há mais terceiros a denunciar essas situações. As pessoas estão mais atentas a essa realidade e às vezes até pedem confidencialidade, por temerem represálias por parte do agressor - muitas vezes são familiares das vítimas ou alguém que está a extorquir o idoso, a maltratá-lo fisicamente ou a negligenciar os cuidados.

Ou seja, há mais denúncias.

O nosso objectivo é não só prestar apoio directo às vítimas de crime mas também, através das nossas campanhas e acções no terreno, sensibilizar a comunidade para a denúncia, para o não calar. Os órgãos de comunicação social são um veículo muito importante mas às vezes não transmitem a notícia da forma mais assertiva e não nos ajudam.

Em que sentido?

Porque só reflectem os maus exemplos, quando as coisas não resultam... A quantidade de pessoas que nós, técnicos, já ajudámos a salvar, mulheres que não foram mortas, mulheres que foram integradas, em que se fez justiça... E a comunicação social não fala deles.

Não exagere. Também há notícias sobre casos desses.

Enquanto técnica de apoio à vítima sinto-me muitas vezes indignada com os órgãos de comunicação social, porque afugentam as pessoas de procurar ajuda. As pessoas acham que nada resulta porque a justiça não funciona.

Nos últimos tempos tem-se assistido nesta região à aplicação da medida de coacção mais gravosa, que é a prisão preventiva, a suspeitos de crimes associados à violência sobre mulheres ou idosos. Isso sugere que a mediatização que tiveram casos desse género pode ter levado o sistema de justiça a ter mão mais pesada.

É um facto positivo. Infelizmente foi preciso morrerem algumas mulheres para haver este tipo de reacção. Mas acho que muitas pessoas estão a calar porque acham que não fazemos bem o nosso trabalho. Acham que não resulta e temem represálias e acabar como essas mulheres que foram mortas.

A questão da violência doméstica é reflexo de uma sociedade ainda predominantemente machista e em que a violência conjugal, tendo a mulher como vítima, era encarada com relativa normalidade?

Há muita coisa que mudou mas ainda há muito a trabalhar contra a aceitação da violência, contra os mitos que estão enraizados e associados a essa situação, de que entre marido e mulher ninguém mete a colher. Nós devemos meter a colher! Trata-se de um crime público que diz respeito a cada um de nós, que tem muitos custos a nível social, a nível da saúde, de tudo o que está envolvido. Uma mulher que é maltratada consegue ser uma boa mãe? Consegue dar afecto a uma criança, mantê-la em segurança? É boa trabalhadora? Não podemos ser tolerantes com estes actos de cobardia. Um homem que bate numa mulher tem que ser um cobarde. Está a usar a sua força perante um ser mais fraco, mais vulnerável. Temos que dizer basta!

Muitas vezes as vítimas suportam esses maus-tratos, literalmente, até ao fim.

Exactamente. Muitas vezes pelos filhos, pela dependência emocional, pelo que os outros vão pensar, pelo medo do desconhecido. A sociedade tem que assumir um papel importante, isto não pode ser tolerado.

“Para alguns miúdos ir à escola é um inferno”

Há um fenómeno que pode ser visto como estando a montante dessa realidade, que é a violência no namoro entre jovens.

É também uma situação muito preocupante. Como é possível a aceitação da violência nas relações de namoro nos tempos de hoje? Como se aceita o controlo, a devassa da intimidade? É assustador! Quando confrontamos os jovens com essas situações, muitas vezes eles próprios não têm noção que aquilo é violência.

A escola pode ter aí um papel de sensibilização e dissuasão?

Sim e os agentes educativos estão preocupados com essa situação. Até pelos pedidos que nos vão chegando para acções de sensibilização junto desse público-alvo.

E casos de bullying?

Também há situações, de bullying e de cyberbullying. Hoje recorre-se muito rapidamente às redes sociais, um meio que com muito mais facilidade se utiliza para atingir o outro, porque não é preciso estar cara a cara. Os miúdos conseguem ser muito hostis quando querem e isso deixa marcas profundas. Para alguns miúdos ir à escola é um inferno. Isso preocupa-nos e há um trabalho a fazer. Aí, os pais têm um papel muito importante.

Também aparecem casos de violência doméstica em que o queixoso é do sexo masculino ou são uma raridade?

Também. Ainda há alguma vergonha, algum estigma em denunciar, mas vão aparecendo casos, muitos mais do que se possa julgar. Claro que os números não se comparam com os que atingem mulheres. Actualmente estamos a dar apoio psicológico a quatro homens que são vítimas de violência doméstica. Há uns tempos isto era quase impensável.

Santarém é o concelho da região com mais pessoas apoiadas pela APAV

Santarém é o concelho da região com mais pessoas apoiadas pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), com 121 casos registados em 2018, bem acima de Vila Franca de Xira, com 71, o segundo concelho nessa escala. Em contraponto, o concelho de Sardoal, no norte do distrito de Santarém, não teve nenhum caso registado estatisticamente e Constância e Mação tiveram apenas um cada.
Os dados constam do relatório anual de 2018 da APAV. Relativamente aos concelhos da área de abrangência de O MIRANTE (distrito de Santarém e municípios de Azambuja e Vila Franca de Xira, no distrito de Lisboa), depois de Santarém e Vila Franca de Xira, seguem-se por ordem decrescente em número de casos Rio Maior (29), Almeirim (24), Cartaxo (18), Tomar (16), Benavente (15), Entroncamento (15), Salvaterra de Magos (14), Alpiarça (11), Abrantes (9), Ourém (9), Torres Novas (9), Azambuja (7), Golegã (6), Alcanena (5), Chamusca (5), Coruche (5), Ferreira do Zêzere (3), Vila Nova da Barquinha (3), Constância (1) e Mação (1).
Em 2018, o Gabinete de Apoio à Vítima (GAV) de Santarém registou um total de 296 novos processos relativos a 256 vítimas directas de crimes e outras formas de violência. Cem dessas pessoas eram oriundas do concelho de Santarém e as restantes residentes em municípios desta região e também de localidades de fora do distrito, como Leiria, Peniche, Estremoz, Caldas da Rainha ou Coimbra. Das situações sinalizadas, em 86,5% dos casos verificava-se a existência de crime.
Ainda segundo os dados de 2018 do GAV Santarém, as relações de cônjuge, companheiro/a, ex-cônjuge, ex-companheiro/a, ex-namorado/a e namorado/a totalizam no seu conjunto 66% das relações existentes entre vítima e autor do crime. Em 84% dos casos registados o autor do crime era do sexo masculino e, na sua maioria, com idade compreendida entre os 35 e os 54 anos, casado ou vivendo em união de facto. A residência comum é o local onde se registam mais crimes, correspondendo a 45,2% do total.

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