Entrevista | 26-05-2019 10:00

Tigres de Almeirim na primeira não pode ser um sonho de duas ou três pessoas

Tigres de Almeirim na primeira não pode ser um sonho de duas ou três pessoas
ENTREVISTA COMPLETA

José Salvador passa de presidente a líder da comissão administrativa à espera de uma vaga de apoio.

Na mesma altura em que o Hóquei Clube “Os Tigres” de Almeirim garante a subida à terceira divisão nacional, pela terceira vez, o presidente não se recandidata nas eleições. Mas para o clube não ficar moribundo aceitou liderar uma comissão administrativa por um prazo máximo de seis meses, à espera de alguém que queira seguir o trabalho de estabilização financeira do clube e de resultados desportivos. José Salvador tem esperança, mas não está convencido que apareça uma nova direcção. E se isso acontecer espera pelo menos que apareça gente para ajudar um clube que é o que mais público garante nos jogos. Nesta entrevista, José Salvador reconhece que não se tem trabalhado a formação como se devia, que é preciso aproximar do clube os sócios mais antigos e os ex-jogadores do concelho. O dirigente diz que é imperioso dar a volta à estrutura criar um director desportivo e que a cidade tem de pensar até que ponto quer uma equipa na primeira divisão, com a visibilidade que isso representa.

O início do mandato começou com uma direcção fechada. O que mudou para começar a comunicar?

A necessidade de fechar a comunicação foi uma estratégia e foi imperiosa perante tantas dificuldades. Tínhamos que sanear financeiramente o clube e isso podia não ser bem entendido pelos sócios, tal como não foi. O alarido prejudicava as negociações das dívidas. No último ano já foi possível uma abertura e o sucesso desportivo a isso ajudou.

Mas a herança era assim tão má?

Não me fica bem falar do passado, mas havia situações complicadas para resolver, com processos judiciais e penhoras. Não foi uma situação exclusiva da anterior direcção, que já tinha herdado um passado pesadíssimo.

E agora a situação financeira está resolvida?

Já não temos penhoras. Se não tivéssemos equacionado a subida de divisão neste último ano de mandato já tínhamos as dívidas todas pagas. Algumas dívidas que estão a ser pagas terminam em Novembro deste ano. A dívida de um clube destes não é estanque, porque diariamente há coisas a pagar.

Consegue o feito de subir à primeira e depois não se recandidata. Prefere sair pela porta grande?

Se fosse para sair em grande não tinha aceitado ficar a liderar a comissão administrativa até novas eleições. A sustentabilidade do projecto é o mais importante. Vamos para a primeira divisão, mas isso não pode ser o sonho de duas ou três pessoas. Tem de haver mais gente envolvida. O concelho de Almeirim, o distrito de Santarém, gosta de hóquei em patins, mas isso tem de ser demonstrado com apoio.

Isso é uma crítica à população, às entidades?

Não! É uma chamada de atenção, porque se queremos evitar andar sempre a subir e a descer de divisão precisamos de ajuda e essa ajuda não é só financeira. Precisamos de gente para os órgãos sociais, por exemplo.

Se nos seis meses de vigência da comissão administrativa não aparecer uma lista vai manter a sua posição de sair?

O clube não vai ficar órfão, mas não pode andar a ser gerido por uma comissão administrativa. Se não aparecer ninguém, será marcada nova assembleia e continuaremos, mas não é esse cenário que nos interessa. As pessoas têm de se juntar, seja em outra lista, seja juntar-se a nós. Acabámos o mandato com cinco dos nove elementos da direcção. Numa estrutura destas o dobro das pessoas é pouco.

Porque é tão difícil arranjar dirigentes?

Porque temos de abdicar da nossa vida pessoal, familiar. Foi isso que também me fez parar. Se o trabalho for dividido por muitos não dói tanto. Os anteriores presidentes acabaram por ficar isolados. O Hóquei Clube Os Tigres é um gigante ainda adormecido e não podemos correr o risco de os meus filhos e dos outros terem de treinar a muitos quilómetros de distância, noutros clubes, quando temos aqui condições.

Porque é que não conseguem manter-se na primeira divisão mais que uma época?

Nas zonas à volta de Almeirim não há quem nos forneça jogadores com qualidade. Para nos mantermos na primeira precisamos de ir buscar jogadores às zonas de Tomar, Turquel e Lisboa, o que implica custos elevadíssimos em transportes. Para nos aguentarmos na primeira temos de ter quase o dobro do orçamento, que é actualmente de cerca de setenta mil euros anuais. Nos moldes actuais ou se entra em loucuras e faz-se uma equipa que não é sustentável, e isso está fora de questão, ou temos jogadores mais baratos, que não garantem a manutenção.

O orçamento do clube conseguiu comportar o objectivo da subida?

Os Tigres chegam à primeira divisão com o orçamento mais baixo relativamente ao plantel em comparação com as outras duas subidas anteriores. A cidade e o clube precisa de pensar até que ponto quer ter uma equipa na primeira divisão.

Esta modalidade é a que mobiliza mais público nos jogos em casa. Isso tem sido reconhecido?

Há um apoio, mas que não é suficiente para uma primeira divisão. Este ano houve uma pequena actualização do subsídio da câmara. Não podemos ser subsidio-dependentes, mas as pessoas exigem-nos qualidade, que não é possível com a situação actual.

Acabaram com os juniores. É uma situação para manter?

Quando chegámos, há três anos, tínhamos uma equipa esfrangalhada. Não podemos ter juniores da casa só para dizer que temos. A ideia é de entre os jogadores mais velhos das camadas jovens começar a injectar alguns na equipa sénior.

Porque é que tem sido difícil captar jogadores para as camadas jovens?

Por uma clara falha nossa. Com uma estrutura pequena concentramo-nos muito tempo nos seniores e abandonamos a captação de miúdos. Mas também partimos em desvantagem em relação a outras modalidades. O hóquei em patins só pode ser praticado em pavilhões com determinadas características. O custo do material também é grande e tem de ser suavizado.

Almeirim tem pavilhões que foram feitos sem pensar no hóquei em patins.

Temos que perceber que o Hóquei Clube Os Tigres teve um passado de abre e fecha, com períodos em que esteve sem actividade. Isso dá uma imagem de um projecto pouco sério, o que se pagou com o desinvestimento na modalidade. Neste momento só o Pavilhão Alfredo Bento Calado tem condições para jogos. É também por isso que não vou deixar o clube morrer.

Têm dificuldades em arranjar tempos no pavilhão para treinos?

É um problema com que nos debatemos todos os anos e que nos dá um sinal de que não podemos crescer. Não posso pensar que um dia não posso criar uma equipa por não ter espaço para treinar.

Têm de preparar a próxima época, como é que vai ser?

O caminho tem de passar por criar uma equipa autónoma da direcção para acompanhar os seniores. Temos o problema das eleições serem em Maio, o que é errado. Neste momento oitenta por cento dos planteis da primeira divisão estão fechados e nós iniciámos agora os contactos.

Se entretanto aparecer uma direcção, esta vai ter de se sujeitar ao que a comissão administrativa já fez.

Sim é verdade. Mas acho que não vai aparecer alguém para assumir o clube. Se me vou recandidatar, ainda não sei, porque preciso perceber o que as pessoas querem. O hóquei precisa de dar o salto. Não queremos ser o bobo da corte da primeira divisão. As coisas têm de ser feitas com responsabilidade. Se for buscar um jogador com mais de 23 anos tenho de pagar logo à partida dois mil euros de transferência. Vai ter de ser criada a figura do director desportivo. Não posso ainda garantir que o treinador vai continuar a ser o André Luís.

E em relação à patinagem artística?

O clube não pode ser dois clubes, o do hóquei e o da patinagem. As pessoas têm de se envolver num único símbolo. É preciso mudar este cenário.

O que é que tem sido feito para aproximar antigos jogadores do concelho e os sócios mais antigos?

Olho para as fotos antigas que temos na sede e vejo muitos antigos jogadores com pouca vontade de voltarem. Fui buscar um para treinador e houve outro que esteve na minha direcção e que saiu. Mas também não temos uma sede própria em condições para os nossos sócios se juntarem.

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