O MIRANTE TV | 27-03-2018

Vinho e Literatura: tertúlia em Évora

A tertúlia Coisas de Vinho, que se realiza em Évora, foi até à livraria Fonte de Letras na quinta-feira dia 22 de Março.

A tertúlia Coisas de Vinho, que se realiza em Évora, foi até à livraria Fonte de Letras na passada quinta-feira dia 22 de Março. Desta vez o tema foi vinho e literatura. José Mora Ramos, actor, encenador e homem de cultura foi o convidado.

Livraria cheia e conversa entre tertulianos que durou cerca de duas horas. No início da tertúlia, no fim e durante, todos provaram o vinho Monte da Ravasqueira. José Mora Ramos esmerou-se ao ler um texto de várias páginas com múltiplas referências ao vinho e aos milagres que o vinho proporciona.

Talvez se possa dizer que o vinho está presente na vida e na história da humanidade desde há cerca de 8000 anos, embora haja vestígios de caroços de uvas em grutas com datação semelhante à de gravuras rupestres com quase 20000 anos.

A facilidade de fermentação da uva alimenta a possibilidade do consumo, nessa época, de uma bebida muito parecida com uma espécie de vinho rústico, embora não haja disso provas fidedignas.

Em que momento começou, digamos, oficialmente a fazer parte da história da humanidade? Exatamente a partir da domesticação das vinhas, a partir da Revolução da Agricultura. O mais aceite é que a sua origem está no Cáucaso.

Há claramente, provas da comercialização e transporte de vinhos entre sumérios e babilónios, quer dizer há 4000 ou 5000 anos aC. Mais tarde, de há 3000 anos aC, vêm do Egito os melhores registos. Há desenhos e hieróglifos descrevendo meticulosamente como era feita a vinicultura, a prensagem das uvas e o processo de fermentação.

É também no Egipto que está a origem dos primeiros “rótulos”, com a identificação do vinho gravada nas ânforas, que chegavam a ter a indicação da safra e dos sabores. Não se trata de literatura, no sentido da criatividade literária, a menos que nessas gravações, houvesse já uma verdadeira poesia na descrição de odores, sabores, cores, etc. Teríamos então aqui o início da relação entre poesia e vinho.

De facto, talvez se possa dizer que, por vezes, hoje, os rótulos dos vinhos são poesia, talvez poesia de amor.

Repare-se no rótulo de uma garrafa de branco Vila de Frades que eu tinha em cima da mesa. Tirando as referências directas ao vinho era assim:

Côr citrina
Aroma de grande intensidade a Fruta Tropical
Sabor a fruta com notas cítricas
Final longo e fresco

Se não soubermos que se está a falar de vinho podemos imaginar o quê?

Porém terão sido os gregos os primeiros a estudar, digamos “cientificamente” as características e propriedades do vinho, atribuindo-lhe propriedades medicinais.

Ao contrário do que acontecia no Egipto, onde vinho era considerado uma bebida especial, reservada às oferendas aos deuses e reis, na Grécia, o consumo estava arraigado a praticamente todos os estratos sociais tendo sido os gregos que contribuíram de forma muito significativa para a sua conservação e transporte até outras partes do mundo.

Na Grécia, as referências ao vinho e às vinhas apareceram pela primeira vez por volta de 4000 a.C. associadas às festas e celebrações a Dioniso.

Dioniso, o último deus a ser aceite no Olimpo, filho de Zeus e o único do Olimpo filho de uma mortal, Sémele, é na antiga religião grega o deus dos ciclos vitais, portanto da fertilidade, das festas, do vinho, da insânia, do teatro, dos ritos religiosos mas, sobretudo, da intoxicação que funde o bebedor com a deidade.

Esta questão é essencial, ou seja, a embriaguês, ao criar aquilo que se designa hoje, por estado alterado de consciência, libertador do corpo e do espírito, funde o bebedor com Deus.

E aqui chego onde queria, a Eurípedes, às Bacantes, (ou Ménades) uma das suas peças desde sempre das mais representadas, escrita no Sec. IV AC, onde trata e enaltece as celebrações a Dioniso realizadas por comunidades de mulheres 3000 anos antes:

Deu à luz, quando os destinos se cumpriram, o Deus ornado de chifres e com uma coroa de serpentes o corou.

Desde então, as Ménades seus anelados cabelos cingem.

Ó Tebas, de Sémele ama, engrinalda-te com hera, faz brotar com abundância o verde alegra-campo, produtor de belos frutos, e consagra-te ao delírio báquico, com ramos de carvalho e de abeto.

E o povo todo, sem demora, irá dançar em sua honra – para a montanha, para a montanha, lá onde está das mulheres a multidão, dos teares e lançadeiras apartada, e por Dioniso enlouquecida.

Estas festas, conduzidas por mulheres, seriam, antes de tudo, experiências místicas, potenciadas pelo excesso de vinho e pelas danças contínuas, onde tudo era permitido e toda a ordem social era prevertida. Nestas festas os Ditirambos, formas primitivas de teatro ligadas à dança, homenageavam Dioniso - o bode (com cornos, símbolo da fertilidade masculina) e apelavam então à fertilidade.

É importante chamar a atenção para que, no tempo de Eurípedes, os espectadores no teatro, antes e durante as representações, bebiam vinho, o que ajuda a explicar a sua exuberância durante os espectáculos.

O público ia ao teatro com grinaldas na cabeça e depois de ter almoçado e bebido. Enquanto duravam as representações servia-se vinho aos espectadores. Também aos membros do coro era servido vinho quer quando entravam, quer quando, acabada a representação, saíam de cena.

Os espectadores tinham a noção de participar num evento festivo e barulhento em homenagem ao deus do tumulto e da embriaguez. Ou seja, tratava-se para eles de um evento religioso, um tributo ao Deus Dioniso, sempre na base do prazer.

Temos então em Eurípedes e nas Bacantes um primeiro texto seminal, envolvendo o culto ao vinho e à embriaguês.

E aqui é irrecusável uma referência à famosíssima expressão

In vino veritas

Ou seja, “no vinho está a verdade”, utilizada como provérbio para expressar a sensação de “liberdade” provocada pelo álcool. A verdade está na libertação de corpos e almas que o vinho propicia.

Para alguns historiadores a frase pertence ao filósofo romano Caio Plínio Segundo, dito “Plínio, o Velho”, embora seja certo que Platão já a tinha mencionado em “O Banquete”, uma série de discursos sobre a natureza e o amor, determinantes na obra platónica.

Esta ideia “in vino veritas” é, ainda hoje objecto de trabalhos e ensaios filosóficos e literários

Saltando para Roma e mantendo-nos nestas ideias referimos as Saturnálias, em honra do deus Saturno, festas que terão dado origem ao nosso carnaval e que ocorriam no final de Dezembro, razão, aparentemente pela qual, a igreja católica fixou neste período o Natal.

Durante estes festejos subvertia-se a ordem social: os escravos comportavam-se temporariamente como homens livres; elegia-se, à sorte, um príncipe — uma espécie de caricatura da classe nobre — a quem se entregava todo o poder. No entanto, aparentemente, a conotação religiosa da festa prevalecia sobre a social. O príncipe vinha geralmente vestido com uma máscara engraçada e com cores chamativas, de entre as quais prevalecia o vermelho (a cor dos deuses).

Mas voltemos à embriaguês. Muitos poetas e até filósofos enaltecem o estado de embriaguês a que o vinho conduz, fazendo paralelos, por exemplo, com com a embriaguês pelo amor, pela poesia, pela virtude, como Charles Baudelaire, no famoso poema

Embriagai-vos!
Deveis andar sempre embriagados.
Tudo consiste nisso: eis a única questão.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo,
que vos quebra as espáduas,
vergando-vos para o chão,
é preciso que vos embriagueis sem descanso.
Mas, com quê? Com vinho, poesia, virtude.
Como quiserdes. Mas, embriagai-vos.

E aqui é irresistível a frase atribuída ao filósofo alemão Heguel.

Quem diria?

O verdadeiro delírio é o delírio báquico, no qual nenhum membro deixa de estar embriagado

Heguel (1770-1831)

Penso e isto parece-me importante que o vinho enquanto indutor de um estado alterado de consciência, libertador de corpos e de almas, não está ligado directamente ao exercício da escrita, como, por exemplo, o absinto.

Poetas, pintores, coreógrafos, compositores usaram as experiências místicas inerentes a estados alterados de consciência, as transgressões resultantes, propositadas ou não, como material de trabalho.

Rimbaud, por exemplo, via a poesia como uma maneira de mudar a realidade e o absinto como uma ferramenta artística. O manifesto de Rimbaud é inequívoco

“Um poeta torna-se um vidente através de uma longa desordem prodigiosa e racional de todos os sentidos”.

O absinto, com seus efeitos alucinógenos, poderia contribuir para isso.

Há quem defenda também, que, por exemplo, As Tentações de Santo Antão e outras pinturas de Hieronymus Bosch (talvez também algumas de Pieter Brueghel, o Velho) terão ligação a estados alterados de consciência devidos à fome e ao consumo, eventualmente involuntário, de pão feito com farinha de trigo com fungos alucinogéneos ou com sementes de papoila.

E sobre isto há um livro seminal

“O pão Selvagem”.

Mas voltemos a Eurípides e a uma frase que lhe é atribuída

– Sem vinho não há amor

A que é oportuno acrescentar, com Homero, com vinho é difícil resistir ao amor:

Segundo conta Homero no Canto X da Odisseia, com ajuda dos deuses, Ulisses, o rei de Ítaca, foi capaz de resistir à poção mágica criada por Circe, filha do sol, deusa da feitiçaria e do amor físico – poção à base de queijo, farinha de cevada e mel, misturados ao vinho – e, assim, obrigá-la a transformar novamente em homens os seus marinheiros, que Circe havia transformado em porcos.

Mas depois disso foram tantas as libações e prazeres, tantos os banquetes e principalmente tanto vinho Pramnio que Ulisses decidiu ficar na ilha de Eana, lar de Circe, esquecendo-se da sua pátria. Lá permaneceu durante um ano, rendido a Circe ao seu amor e ao vinho Pramnio.

E a partir de Homero e Eurípedes façamos ponte para

Os Rubaiyat de Omar Khayyam

Há muito tempo, esta ânfora foi um amante,
como eu: sofria com a indiferença de uma mulher;
a asa curva no gargalo é o braço que enlaçava
os ombros lisos da bem amada.

ou

Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos.

Ou ainda

Não me lembro do dia em que nasci;
não sei em que dia morrerei.
Vem, minha doce amiga, vamos beber deste copo
e esquecer a nossa incurável ignorância.

Omar Khayyam terá nascido em 1048 da nossa era, portanto há cerca de 1000 anos, no actual Irão, num período em que o islamismo dominava vastíssimas regiões, incluíndo a península ibérica.

É então surpreendente e claramente inspiradora, pela sua coragem e desafio ao poder e às ideias reinantes, a vida e obra de Khayyam, um dos mais célebres matemáticos, astrónomos e poetas, de toda a história do islamismo.

“Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes, mas ninguém se deleita sempre em suas páginas. Num copo de vinho, está gravado um texto de adorável sabedoria que a boca lê a cada vez com mais delícia”

“Nunca procurei saber onde encontrar o manto da mentira e do ardil, mas sempre andei à procura dos melhores vinhos”.

Com o vinho e através do vinho Khayyam celebra assim, antes de tudo, o viver a vida. Percebe a efemeridade da passagem do homem sobre a Terra e não se furta em dizer que devemos aproveitar os momentos:

“Busca a felicidade agora, não sabes do amanhã. Apanha um grande copo cheio de vinho, senta-te ao luar, e pensa

Talvez amanhã a lua me procure em vão”

Eu pessoalmente só descobri Omar Khayyam no romance Samarcanda de Amin Malouf e foi pra mim uma surpresa.

Omar Khayyam ao ser “descoberto” e divulgado no ocidente, por Scott Fitzgerald, no início do Sec. XX, despertou um enorme interesse entre a intelectualidade, a que não fugiu, por exemplo, o nosso Fernando Pessoa que escrevu no Livro do Desassossego

A vida é a busca do impossível através do inútil; assim diria, se o houvesse dito, Omar Khayyam.

Daí a insistência do sábio persa no uso do vinho. Bebe! Bebe! É toda a sua filosofia prática. Não é o beber da alegria, que bebe por que mais se alegre, por que mais seja ela mesma. Não é o beber do desespero, que bebe para esquecer, para ser menos ele mesmo.

Não, ao vinho Khayyam junta a alegria, a acção e o amor.

São muitas as ligações ao vinho na literatura portuguesa.

Desde logo mestre Gil e o Pranto de Maria Parda, uma das peças mais representadas da dramaturgia portuguesa.

Maria Parda (preta ou mulata) a viver na miséria na Lisboa de 1522, início de quinhentos, bebe para sublimar a dor de viver

Eu só quero prantear
este mal que a muitos toca
qu’estou já como minhoca
que puseram a secar.

Triste desaventurada
que tam alta está a canada
para mi como as estrelas.
Ó coitadas de goelas
ó goelas da coitada.

Triste desdentada escura
quem me trouxe a tais mazelas?
Ó gengibas e arnelas
deitai babas de secura.

Carpi-vos beiços coitados
que já lá vão meus toucados
e a cinta e a fraldilha.
Ontem bebi a mantilha
que me custou dous cruzados.

Maria Parda percorre as ruas de Lisboa em busca de uma taberna

Quem viu nunca toda Alfama
com quatro ramos cagados
os tornos todos quebrados?

Ó bicos de minha mama.
Bem ali ò Santo Esprito
i’eu sempre dar no fito
num vinho claro rosete.

Ó meu bem doce palhete
quem pudera dar um grito.

Triste que será de mi?
Que màora vos eu vi
que màora me vós vistes
que màora me paristes
mãe da filha do roim.

De Mestre Gil saltamos para a Ilha dos Amores e para a exaltação do vinho, dos excelentes manjares e do amor mais uma vez em ligação

Quando as fermosas Ninfas, co’os amantes
Pela mão, já conformes e contentes,
Subiam para os paços radiantes,
Mandados da rainha, que abundantes
Mesas de altos manjares excelentes
Lhe tinha aparelhadas, que a fraqueza
Restauram da cansada natureza.

E os vinhos odoríferos, que acima
Estão não só do itálico Falerno,
Nos vasos, crespas escumas erguem,
E no coração súbita alegria movem.

Esta relação entre o amor e o vinho, entre a estadia de Ulisses em Eanoa e a de Gama na Ilha dos Amores é uma das pontes possíveis entre a Odisseia e os Lusíadas.

Porém na literatura portuguesa, como nas outras, o mais frequente são as referências à excelência do vinho pela voz das mais diversas personagens.

E aqui é inevitável Eça:

Segundo o “Dicionário de Eça de Queiroz” podem-se contar 2.650 citações gastronómicas na sua obra (há autores que referem mais de 4000). Algumas delas são bem completas, com receitas ou detalhes sobre os vinhos e a sua variada função.

“Serviu o Vinho do Porto para acalmar os convidados do jantar, enchendo os copos devagar, com precauções clássicas!”

Crime do Padre Amaro

"Caindo do alto, da bojuda infusa verde, um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo."

A Cidade e as Serras

“E então hoje estou com uma destas sedes que só me satisfaz Vinho Verde”

A Ilustre casa de Ramirez

Sobre Eça ficamos por aqui, mas há um mundo de estudos sobre a gastronomia e a enologiaquerosiana, embora se deva dizer que Eça não é claramente um gourmet, antes um grande apreciador de comida e de bebida que usa o comer e o beber nos seus romances antes de tudo para caracterizar personagens, classes sociais, ambientes

Em casa do abade da Cortegaça que “passava por ser o melhor cozinheiro da diocese e a meio de um farto repasto, regado com tinto do melhor, o clero de Leiria deleita-se à volta de um belo capão recheado, quando um pedinte veio bater a pedir esmola e apenas teve direito a metade de uma broa seca:

– Muita pobreza por aqui, muita pobreza. Ó Dias, mais este bocadinho de asa, perguntou o abade.

- Muita pobreza, mas muita preguiça, considerou duramente o padre Natário, em muitas fazendas há falta de jornaleiros, e vêm-se marmanjos, rijos como pinheiros, a choramingar padres-nossos pelas portas.

– Deixe lá, padre Natário, deixe lá! Olhe que há pobreza deveras. Por aqui há famílias, homem, mulher e cinco filhos, que dormem no chão como porcos e não comem senão ervas.

– Então que diabo querias tu que eles comessem, exclamou o cónego Dias lambendo os dedos depois de ter esburgado a asa do capão e emborcado duas taças de seguida. Querias que comessem peru? Cada um como quem é!

Crime do Padre Amaro

Falta-nos ainda falar de algumas questões básicas

Uma delas é o vinho como acompanhante da comida e o tipo de vinho adequado a cada caso.

Sobre isto há imensa literatura e poderíamos voltar a Eça

Vamos, no entanto, ficar na Grécia de Eurípedes

Na gastronomia grega já então, como hoje, se aconselhavam os diferentes vinhos para diferentes comidas

VINHO E GASTRONOMIA GREGA ANTIGAMENTE E HOJE

Marisco e pratos de peixe vão bem com vinho branco seco.

Carnes vermelhas (vaca, cordeiro, etc.) vão bem com vinho tinto.

Carnes brancas (porco) devem ser servidas com vinho branco.

As entradas vão bem com Ouzo (bebida feita com anis, aguardente e açúcar) e Tsípouro (também dito Raki, com menos sabor a anis) . Geralmente são servidos com gelo.

Em celebrações especiais e servidos num balde com gelo os Vinhos espumantes que representam luxo e amor devem ser os que se escolhem.

Outra questão é o facto de filósofos, poetas, cientistas, artistas, escritores e muitos outros grandes nomes encontraram no vinho inspiração e fascínio. Algumas declarações sobre a nossa bebida preferida que entraram para a história:

Deve celebrar-se o fim de um caso de amor da mesma maneira que se celebra a morte em New Orleans, com música, riso, dança e muito vinho. (Françoise Sagan, escritora francesa, 1935-2004)

O bom vinho é um camarada bondoso e de confiança. (Shakespeare)

Um bom vinho é como um bom filme: dura um momento e deixa-te na boca um gosto de glória; é novo em cada golo e, como acontece com alguns filmes, nasce e renasce em cada sabor. (Federico Fellini)

O vinho tem o poder de encher a alma de toda a verdade, de todo o saber e filosofia. (François Rabelais)

A penicilina cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes. (Flemming, Nobel da Medicina)

Os homens são como os vinhos: a idade azeda os maus e apura os bons.

Cícero

É altura das referências de Hemingway ao vinho. São imensas e divertidas

Este vinho é bom demais para ser desperdiçado em brindes, minha querida
O vinho é a coisa mais civilizada do mundo
O conhecimento e a educação sensorial apurada podem obter do vinho prazeres infinitos
Faz sóbrio as coisas que disseste que farias quando estavas bêbado
Um homem não existe até que fique bêbado
Uma garrafa de champanhe pela metade é inimiga do homem
Se tiver dinheiro, não conheço melhor maneira de gastá-lo que com champanhe

A propósito do champanhe lembro-me de uma amiga da minha mãe, que se dava ares de aristocrata e que lhe aparecia em casa, em Lourenço Marques, e dizia:

Ai! Maria Emília, venho com uma destas sedes que só mesmo champanhe.

Na altura as senhoras finas bebiam champanhe e a minha mãe, que não bebia e que de fina nada tinha nem queria ter era obrigada a ter em casa garrafas de champanhe

Bom, tudo isto foi uma das mil possíveis formas de abordagem do tema de hoje, Vinho e Literatura, sendo que haverá muitas outras francamente mais sólidas, de gente que tem estudado e escrito tratados sobre o assunto.

No fundo falámos através da literatura:

- Do vinho enquanto potenciador de um estado alterado de consciência libertador de corpos e almas, designadamente a partir de Eurípedes e de Baudelaire.
- Do vinho enquanto potenciador do amor, da vida, do prazer do momento, a partir de Khayyam, de Pessoa e de Camões.
- Do vinho enquanto bálsamo para a dor da vida, a partir de Vicente e da sua Maria Parda.
- Do vinho enquanto criador de ambientes sociais, como é o caso de personagens de Eça.
- Do vinho a acompanhar a comida, escolhido caso a caso.
- Por fim, fizemos referência a citações de alguns autores célebres.

Para terminar o vinho e a cosmética:
duas sugestões de receitas anti-rugas, de inspiração grega, à base de vinho tinto:

Máscara facial de vinho e mel

Ingredientes:
2 colheres de sopa de vinho tinto;
4 colheres de mel.
Modo de preparação:
Coloque numa tigela, o vinho tinto e o mel. Misture e aplique a pomada no rosto e no pescoço.
Deixe por 20 minutos e remova com água morna. Evite o sol.

Máscara facial de vinho e gelatina
Ingredientes:
1⁄2(meia) chávena de chá de vinho tinto;
1 saqueta de gelatina sem sabor;
1⁄2(meia) chávena de chá de água fria.
Modo de preparação:
Misture a gelatina na água e leve ao fogo brando, mexendo constantemente para dissolver, porém não deixe ferver. Retire do fogo, esfrie e adicione o vinho, mexendo até misturar completamente. Leve ao frigorífico por 15 minutos e aplique sobre a pele do rosto limpa e seca, permanecendo em repouso por 20 a 30 minutos. Remova com água fria, seque bem e evite a radiação solar.

Importante: eficaz para mulheres e para homens.

Charles Baudelaire
Embriagai-vos!
Deveis andar sempre embriagados.
Tudo consiste nisso: eis a única questão.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo,
que vos quebra as espáduas,
vergando-vos para o chão,
é preciso que vos embriagueis sem descanso.

Mas, com quê? Com vinho, poesia, virtude. Como quiserdes. Mas, embriagai-vos.

E se, alguma vez, nos degraus de um palácio,
na verde relva de uma vala,
na solidão morna de vosso quarto,
despertardes com a embriaguez já diminuída ou desaparecida,
perguntai ao vento,
à vaga,
à estrela,
ao pássaro,
ao relógio,
a tudo o que foge,
a tudo o que rola,
a tudo o que canta,
a tudo o que fala,
perguntai que horas são.

E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio vos responderão:
- É a hora de vos embriagardes!
Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos!
Embriagai-vos sem cessar!
Com vinho, poesia, virtude!
Como quiserdes!

José Mora Ramos, Évora , 22 de março, 2018 – Coisas de vinho

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