Opinião | 27-05-2009 12:50

Cunhal, Brasileiro e Cabaço

No dia da morte de Álvaro Brasileiro acabei de ler o livro Um Dia na vida de Ivan Denisovich do escritor russo Alexander Soljenítsin. Luis Bunuel, cuja autobiografia já li há muitos anos e vou relendo sempre que procuro uma referência, disse que este seria o livro que levaria para uma ilha deserta. O Diário de Notícias pôs-me o livro em casa numa daquelas colecções dedicadas ao Prémio Nobel. Um dia destes, no meio de tanto livro que sei que nunca vou ler, lá estava o título entre as minhas mãos.A minha admiração pelo comunista Álvaro Brasileiro não era muito grande. Aquele rosto fechado, que nunca vi sorrir, com um olhar desconfiado, à Álvaro Cunhal, não me inspirava simpatia. O meu comunista preferido foi sempre Gonçalo Cabaço. Era o Álvaro Brasileiro da Chamusca. No essencial eram iguais. Pessoas de carácter, ao serviço de uma missão partidária mas também de cidadania, que nunca enriqueceram com a política e sempre serviram a política num espírito de missão que, infelizmente, está cada vez mais fora de moda.Cunhal, Brasileiro e Cabaço eram homens da mesma raça. Tinham formas de ser e de estar muito parecidas. Gonçalo foi talvez o melhor deles todos. Não tinha aquele olhar de ataque, que era característica dos dois Álvaros, e o seu coração deveria ser careca, comparado com o número de cabelos que deveriam ter os corações dos seus dois camaradas.Já contei neste jornal como conheci mais de perto Álvaro Cunhal nos últimos anos de vida, cego, falando do seu passado e da sua actividade política e intelectual como se se despedisse de um poema. Há pouco tempo também fotografei Álvaro Brasileiro numa iniciativa em que ele acompanhava Jerónimo de Sousa, e tenho quase a certeza que, embora sabendo que estava a ser fotografado, fez questão de me ignorar espreitando apenas pelo canto do olho. O que eu acho que nunca contei em letra de forma foi o episódio em que um funcionário do PCP, a meio de uma reunião de trabalho, por dá cá aquela palha, desafiou o camarada Gonçalo para a rua para levar dois murros na cara. O tipo que o insultou ainda anda por aí com a foice e o martelo na lapela ( penso que já não é funcionário do partido) mas o Gonçalo, pelo que sei, nunca chegou a levar os murros porque não respondeu à provocação deixando-se ficar sentado e ignorando, para além da ameaça dos murros, os nomes impróprios que lhe gritaram. No dia em que morreu Álvaro Brasileiro acabei de ler Um Dia na vida de Ivan Denisovich do escritor Alexander Soljenítsin, livro publicado em Novembro de 1962, tinha eu sete anos de idade. O livro relata a história fictícia de um russo que foi acusado injustamente de ter espiado a favor dos alemães, após a sua captura na frente de batalha. Esta história é semelhante ao que o autor passou após a guerra e é um relato impressionante sobre as condições da prisão e do sistema prisional soviético. JAE

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