Opinião | 02-01-2013 16:22

Um livro que conta a história de um rio*

Quase toda a gente tem a mania de dizer que vivemos num mundo global; que viver em Tóquio ou Londres é como viver em Mação ou Abrantes.

Quase toda a gente tem a mania de dizer que vivemos num mundo global; que viver em Tóquio ou Londres é como viver em Mação ou Abrantes. Os extremos tocam-se. Pode ser assim na teoria; na prática é diferente. Ninguém é de lugar nenhum do mundo se um dia não for da sua própria terra; cidadão da Ortiga ou de qualquer outra cidade ou aldeia do mundo.João Filipe, o neto do “Ti Zé Povinho”, não quis deixar morrer as memórias que formaram o Homem e o cidadão. E, aproveitando a paciência, a arte de escrever e de contar que Deus lhe deu, exercendo uma actividade cultural no verdadeiro sentido da palavra, que é transmitir conhecimentos dos valores e dos comportamentos que se aprendem de geração em geração, prestou uma singular homenagem ao povo de Ortiga escrevendo um livro que é uma homenagem ao seu povo e à sua História, sendo ao mesmo tempo uma homenagem ao rio da nossa infância que é sinónimo de lazer, trabalho e prosperidade.Ser ortiguense, para alguns, é muito mais importante que ser lisboeta, parisiense ou londrino. Sabem isso os que nasceram numa terra e têm orgulho, não só do lugar onde nasceram como do lugar onde nasceram os seus avós e os seus pais que testemunham esse amor à terra e às tradições e os valores culturais que, esses sim, são tão importantes localmente que ganham o estatuto de património na Ortiga ou em Lisboa.Ao lermos o livro de João de Matos Filipe podemos recuar a 1583 e ficamos a saber pela pena do autor sobre a história da fundação da aldeia da Ortiga mas também sobre a história do Caneiro de Abrantes que não deixa de ser significativa para compreendermos os homens de hoje tão entretidos com a política do betão e dos interesses milionários das companhias aéreas.Ao ler a carta de João Antonelli ao Rei Filipe II, para que o Caneiro de Abrantes deixasse de ser um empecilho ao desenvolvimento do Rio, recuei três dezenas de anos e lembrei-me das promessas mais recentes dos nossos políticos que organizam “casamentos e baptizados” em nome da regularização do leito do rio e, que eu saiba, tudo não passa de politiquice na sua mais amanhada forma de se evidenciar.Este livro pode ser lido pelos ortiguenses que, por ele, podem encher o peito de orgulho mas também pode ser lido pela generalidade dos portugueses que se interessam pelos problemas do país e, especialmente, pela sua história de ontem e de hoje.O Caneiro de Abrantes faz-me lembrar, salvo as devidas distâncias e o contexto, a política de extracção de areia que está implementada no leito do rio Tejo e a forma como as autoridades vigiam as marachas e os usurpadores do espaço tão importante para manter a segurança de pessoas e bens. E ao tomar consciência da realidade do rio de há 500 anos, lendo o livro de João de Matos Filipe, não pude deixar de sorrir com a leviandade com que hoje aceitamos a forma como o rio é cuidado e preservado; como muitos de nós vão fazer vida para Lisboa e quando regressam às suas terras, seja na Ortiga ou na Chamusca, não sabem fazer mais nada do que chegar ali abaixo e “mijarem para o Tejo para ver se ele cresce”.JAETexto lido na apresentação do livro de João Filipe na Ortiga.Comentário à noticía: http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=581&id=88386&idSeccao=9906&Action=noticia

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