Opinião | 23-01-2013 14:27

Uma profissão que nos escolhe para o resto da vida

Quando saiu a primeira edição de O MIRANTE, a 16 de Novembro de 1987, eu tinha onze anos.

Quando saiu a primeira edição de O MIRANTE, a 16 de Novembro de 1987, eu tinha onze anos e já praticava uma espécie de jornalismo de proximidade. Foi mais ou menos nessa altura que comecei a tirar fotografias aos clientes da tasquinha de comes e bebes que os meus pais têm nos arredores de Tomar, com uma máquina fotográfica descartável, que revelava com os trocos que tirava às escondidas da gaveta. Depois colava-as numa folha de papel cavalinho A3 e, por debaixo das mesmas, escrevia à mão o perfil do fotografado e quais os petiscos que ele mais apreciava. Fazia aquilo, por brincadeira, uma vez por mês e os clientes perguntavam sempre quando saia o próximo exemplar do “Jornal do Chinquilho”. A determinada altura um deles perguntou-me se podia ali colocar o número de telefone da sua agência de Seguros e passou a dar-me algum dinheiro em troca com o qual passei a pagar as fotografias e as fotocópias. Foi assim, daquela forma muito incipiente, que contactei pela primeira vez com a “indústria” do jornalismo. Foi assim que a profissão me escolheu para o resto da vida. Quis o destino que, vinte anos volvidos, viesse a trabalhar no jornal que é considerado como uma das maiores referências ao nível do jornalismo de proximidade não só no distrito de Santarém como no país. Agora já não escrevo para contar que o senhor Carlos que gosta de beber umas imperiais acompanhadas por tremoços depois de um dia de trabalho na fábrica de papel do Prado mas muita da minha prosa continua a debruçar-se sobre pessoas e sobre os problemas que as afectam. Pessoas comuns como aquela senhora das Curvaceiras, na freguesia rural de Paialvo, Tomar que, padecendo de uma doença genética degenerativa, não podia sair de casa porque as condições do terreno não eram propícias à cadeira de rodas manual em que se deslocava. Um grupo de cidadãos estava a tentar angariar três mil euros para conseguir comprar um equipamento eléctrico e assim melhorar a autonomia da Clementina Vicente. Após eu ter dado a notícia daquela iniciativa solidária uma empresa de Alcanena contactou O MIRANTE e garantiu o dinheiro em falta para a compra da cadeira. Sei que não consigo mudar o mundo mas também sei que muitas vezes, a aparente insignificância do que escrevo pode fazer a diferença na vida não só de uma pessoa como de toda uma comunidade. E é dessa esperança que me alimento diariamente enquanto cidadã e jornalista. Elsa Ribeiro Gonçalves

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