Opinião | 30-01-2013 17:18

Falar do passado, olhando o presente

Escrever uma crónica sobre o passado não equivale a ser passadista. Depende do que se escreve e de como se escreve.

Escrever uma crónica sobre o passado não equivale a ser passadista. Depende do que se escreve e de como se escreve. Pode ser até uma oportunidade para ganharmos consciência das vantagens de que usufruímos. Os jovens investigadores portugueses publicam hoje a um ritmo muito mais elevado do que os investigadores da década de 1960. Porquê? Gente de excelência na investigação sempre houve, só que os meios eram outros. Para ilustrar este facto, basta-me recordar a fase de publicação de um artigo no Laboratório Nuclear de Sacavém. Imaginemos um investigador que, há meio século, tivesse concluído um trabalho e se preparasse para o submeter a uma revista para efeito de publicação. Que havia a fazer? Primeiro, era obviamente necessário preparar o manuscrito. Consultando apontamentos, o escrito ia ganhando forma. Muitas vezes era necessário passá-lo a limpo, para que outrem entendesse o que escrevêramos. Então o manuscrito ia para a sala de dactilografia, onde ficava a aguardar a sua vez, sendo certo que certos trabalhos do “chefe” tinham prioridade. Os artigos científicos iam ficando para trás, sobretudo se a dactilógrafa tivesse dificuldade em decifrar a escrita do investigador…Como em geral os trabalhos continham gráficos, era necessário desenhá-los na perfeição, para passarem em seguida à sala de desenho onde eram fielmente reproduzidos em papel vegetal, que passavam depois a uma máquina onde eram feitas as chamadas cópias ozalid. Eram estas cópias que seguiam para o editor da revista com o respectivo texto dactilografado. O artigo era enviado pelo correio em envelopes reforçados com cartão, porque os gráficos não podiam ser dobrados no transporte. Passadas umas semanas, recebia-se uma carta do editor a acusar a recepção do artigo, e daí a algumas semanas mais chegava a notícia sobre o destino do artigo: aceitação, na maioria dos casos, com ou sem alterações. E só passados alguns meses se tinha a satisfação de ver o artigo publicado na revista em papel. Nas décadas mais recentes, tudo se passa vertiginosamente, diria. Os investigadores dispõem de computadores onde escrevem os textos e preparam os gráficos. A versão digital dos artigos é enviada por correio electrónico, que serve também para a subsequente troca de missivas. Por outro lado, as revistas têm sítios na internet onde os artigos podem ser consultados antes mesmo de serem publicados na versão em papel. Ou seja, a comparação entre a década de 1960 e o tempo presente mostra que nada tem a ver com coisa alguma! Devo confessar que sinto alguma nostalgia do convívio com dactilógrafas e desenhadores, cujos postos de trabalho vi esfumarem-se com o tempo. A evolução tecnológica teve, e tem, consequências adversas: veja-se a crise por que passam jornais de referência, onde jornalistas têm o seu futuro em dúvida. Eduardo Martinho

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