Opinião | 23-07-2015 10:30

Amantes e amásios

A vida é uma coisa amarga para quem só vê televisão, deita-se muito tarde, perde o sol das sete da manhã, precisa de trabalhar muito para alimentar vícios e deixa-se apanhar pelo clima.

A vida é uma coisa amarga para quem só vê televisão, deita-se muito tarde, perde o sol das sete da manhã, precisa de trabalhar muito para alimentar vícios e deixa-se apanhar pelo clima. É mais amarga ainda para quem demora muitos anos a perder as ilusões.Falava disto com os meus botões quando recebi um email de pessoa amiga a dar-me conta que era um desperdício eu ainda não ter voltado a um lugar encantado onde essa pessoa foi morar e ficou a viver. “Eu gosto deste canto do país; as pessoas me tratam de querido, amado, doutor; o pedreiro que vem cá a casa chama a minha mulher de senhora menina; por isso é que o Jorge Amado ficou famoso,como tu sabes. Era só escutar e escrever”.Tomei nota e um dia destes vou voltar ao caminho. Viajar é rejuvenescer; além disso “andar por terras distantes e conversar com diversas pessoas torna os homens mais ponderados”. E eu bem preciso de rever a matéria dessa lição.Enquanto em Portugal toda a gente fala da edição das Obras completas do Padre António Vieira eu releio Luís António Verney e espanto-me com a beleza do vocabulário e com a inteligência das ideias e a contemporaneidade de algumas delas embora se tenham somado séculos. Mesmo assim não se aprende tanto nos livros de Vieira e de Verney como no livro da vida. No dia em que escrevinho este texto fui “apanhado” no café da minha santa terrinha a escutar uma conversa com os ouvidos em bico; era sobre amantes e amásios. A risota impediu-me de saber nomes e visualizar rostos mas nem precisei: era sobre duas mulheres que amam o mesmo homem e que disputam a sua atenção em local público. Os romances de cordel estão cheios de histórias semelhantes e eu próprio vivi as minhas na idade certa.Tenho o privilégio de viver com uma pessoa há quase 40 anos que é a mais bem informada sobre sentimentos alheios e dores de alma. Há quase meio século que aprendi a guardar, e depois a esquecer, segredos que eram partilhados com lágrimas e lamentos que só Deus ou o Diabo conhecem verdadeiramente. Pelo que conheço das sacristias das igrejas tenho a certeza que sei guardar um segredo com mais segurança do que aqueles que se confessam entre essas quatro paredes. Sinto-me desde criança, e ainda hoje, o neto da Ilda e do Negrinha e a vida dos outros nunca me interessou mais do que a leitura dos filósofos e padres como António Vieira e José António Verney. Por isso é que gosto de viver em meios pequenos e viajar para terras distantes. Nunca me separo do que sou e por mais que me engane nos caminhos encontro sempre o lugar de onde parti. JAE

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