Política | 22-01-2005 12:14

"Guerreiro menino" contra "líder determinado"

Os responsáveis pelo marketing do PSD e PS querem confrontar, na campanha para as legislativas, o "guerreiro menino" Santana Lopes, que "todos conhecem bem", e o "líder determinado" José Sócrates, que vai "dar um rumo a Portugal".

Os responsáveis pela campanha dos partidos asseguram não ter interferência na apresentação e na postura dos líderes, mas falaram à agência Lusa das mensagens que pretendem fazer passar com as músicas, cartazes e tempos de antena."A música parece ter sido feita para ele", diz o director de marketing da campanha do PSD, o brasileiro Einhart da Paz, sobre a canção "Um homem também chora (guerreiro menino)", escolhida para abrir os comícios de Pedro Santana Lopes."Um homem humilha-se/Se lhe castram os sonhos", canta o vencedor do programa Operação Triunfo Gonçalo Medeiros, na versão portuguesa do tema de Gonzaguinha, ao mesmo tempo que aparece a imagem do Presidente da República no ecrã dos comícios. "Seu sonho é sua vida/E vida é trabalho", continua o refrão."Ele é um guerreiro menino, um homem que luta por alguma coisa, pelo sustento da família", e "extremamente humano", sustenta Einhart da Paz, adiantando que o PSD quer, a partir dessa imagem, convencer os eleitores de que votar em José Sócrates é "dar um tiro no escuro"."O que vamos ter de mostrar nesta campanha - e se isso não acontecer a culpa será da comunicação e do marketing - é que, se as pessoas pensarem bem, conhecem todas as qualidades e os defeitos deste homem. E o outro (Sócrates), sabem quem é?", explicou Einhart da Paz.De acordo com fonte da direcção de campanha socialista, quando Jorge Sampaio anunciou a dissolução do Parlamento o partido encomendou várias sondagens de opinião entre pessoas "que não excluíam votar no PS" e o valor mais associado a José Sócrates foi a "determinação"."Alguns até o vêem como uma pessoa sanguínea, que gosta do confronto", afirma a mesma fonte, que aponta como "o grande problema" a atribuição de "falta de experiência" ao secretário-geral do PS - o que tornou "um dos desafios" da campanha apresentá-lo como "um líder com currículo".O primeiro tempo de antena socialista, emitido no final de Dezembro do ano passado, era por isso "curricular", mostrando medidas tomadas por Sócrates enquanto secretário de Estado e ministro de António Guterres (1995-2001). Essa preocupação será mantida até às eleições.Já a possível falta de simpatia do candidato do PS a primeiro- ministro, no entender daquele responsável pela campanha, "não prejudica nada"."As pessoas não estão à espera de candidatos simpáticos.Anseiam por ter um líder, um governo com rumo, e isso não tem nada a ver com simpatia", sustenta.Essa avaliação determinou o slogan dos socialistas - "Agora Portugal vai ter um rumo" -, enquanto o fundo verde dos cartazes foi escolhido porque os estudos de opinião revelaram que José Sócrates "é muito associado a questões ambientais".Ainda segundo a mesma fonte da campanha do PS, conjuntamente com os actuais cartazes, em Dezembro foram testados "outdoors" muito semelhantes à campanha do Bloco de Esquerda - que apresenta o slogan "Eles divertiram-se. Mais 200 mil ficaram sem emprego!" - e a reacção das pessoas "foi muito negativa".O director de campanha do BE contrapõe que não há qualquer rejeição da chamada "comunicação negativa" feita por aquele pequeno partido da oposição, no cartaz em que aparecem Santana Lopes e Paulo Portas a rirem-se."A reacção é de simpatia, na medida em que as pessoas não simpatizam com o Governo", defende Jorge Costa, embora admitindo que essa percepção "resulta do contacto com a população na rua", porque "o BE não tem sondagens nem encomendou nenhum estudo de opinião".Mesmo assim, o director da campanha bloquista aponta como valor associado ao BE a "determinação" e afirma que o cabeça de lista por Lisboa, Francisco Louçã, "é visto como uma pessoa muito preparada tecnicamente e com uma boa capacidade de comunicação".Quanto ao secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, na opinião do responsável pela propaganda comunista, a virtude que mais lhe atribuem é "autenticidade", enquanto os valores negativos "têm muito a ver com o preconceito que existe em relação ao partido, que se reflecte no candidato".No que respeita aos cartazes, segundo Octávio Augusto, o PCP "optou por ser muito simplista na mensagem que vai fazer passar":defender "uma mudança que se sinta, que se veja" e contrariar a ideia de que "é uma fatalidade continuarmos sempre na mesma", processo no qual Jerónimo de Sousa "deu a sua opinião", como todos os dirigentes do partido.Também Santana Lopes participou em todas as decisões sobre a campanha do PSD, de acordo com Einhart da Paz, e "é dele a frase +Contra ventos e marés. A favor de Portugal+", depois de o director de marketing ter sugerido o slogan "Contra tudo e contra todos"."Ele corresponde àquela imagem do navegador português, que era corajoso e optimista, não era um suicida, fazia o que ele achava que ia dar certo", justifica o brasileiro.PCP e BE foram as únicas forças com assento parlamentar que não recorreram a empresas de marketing para a campanha eleitoral - o PSD contratou mais uma vez Einhart da Paz, o PS recorreu a Luís Paixão Martins como consultor e o CDS-PP a Miguel Santos, da MKT.No entanto, todos os partidos negam interferir na apresentação e postura dos seus candidatos a primeiro-ministro, com o PCP a garantir que "a postura que Jerónimo de Sousa tem tido corresponde em quase 100 por cento à própria pessoa" e o BE a dizer que o que sugere a Louçã não é "nada de relevante"."Ele não precisa disso, livre do cargo de primeiro-ministro faz muito bem tudo sozinho", declara o director de marketing do PSD sobre Santana Lopes, enquanto a campanha do PS assegura que "não houve qualquer intervenção a nível da imagem pessoal de Sócrates".Não foi possível contactar qualquer responsável pela campanha do CDS-PP sobre o marketing político e a empresa MKT recusou-se a prestar declarações sem a autorização do partido.As eleições legislativas realizam-se a 20 de Fevereiro, decorrendo a campanha entre 6 e 18 de Fevereiro.

Mais Notícias

    A carregar...

    Edição Semanal

    Edição nº 1372
    10-10-2018
    Capa Vale Tejo
    Edição nº 1372
    10-10-2018
    Capa Médio Tejo