uma parceria com o Jornal Expresso
26/09/2016
Assine O Mirante e receba o jornal em casa
Assine o jornal
Álcool, drogas e maus tratos
São às dezenas os jovens de menor idade que, há hora em que deviam estar na escola, estão em bares e cafés a consumir bebidas alcoólicas. A informação consta de um relatório da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Santarém onde também são referidos casos de droga, prostituição e maus tratos. A integração de crianças ciganas e filhas de famílias de Leste também tem dado grandes dores de cabeça àquela entidade.
Edição de 05.02.2003 | Sociedade
O alcoolismo juvenil é actualmente a maior dor de cabeça para a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Santarém. O presidente dessa estrutura, Eliseu Raimundo, diz que estão referenciados cerca de cinquenta casos, sobretudo na cidade, de jovens que passam os dias frequentando bares e cafés, “com a conivência dos seus proprietários”, quando deviam estar ocupados pela actividade escolar.“Há muitos jovens em situação de abandono escolar que passam habitualmente o tempo nos cafés, designadamente nos que estão localizados perto de estabelecimentos de ensino, onde consomem cerveja e outras bebidas alcoólicas. Isto é completamente ilegal”, afirma aquele responsável, que pretende este ano lançar uma campanha de sensibilização junto dos proprietários dos estabelecimentos para que proíbam o consumo de bebidas alcoólicas aos menores de 16 anos.Actualmente estão a ser acompanhados pela comissão 45 casos de abandono escolar precoce, englobando crianças e jovens de ambos os sexos com idades entre os oito e os 17 anos. “São crianças frágeis, geralmente oriundas de famílias com problemas, que são apanhadas por esse mundo”, diz Eliseu Raimundo, afirmando que há igualmente registos de menores ligados à toxicodependência e à prostituição. Um fenómeno essencialmente urbano e que se manifesta em zonas como a que envolve a central de camionagem da cidade.Embora não tão frequentes, estão registados também vários casos de maus tratos físicos e psicológicos infligidos a crianças e jovens e mesmo alguns de abuso sexual. Eliseu Raimundo revela que já foi dado conhecimento à Polícia Judiciária e ao Ministério Público de algumas situações mais graves.A BARREIRA DA LÍNGUAE O VÍCIO DA ESMOLAOutra fonte de preocupação para a comissão é a da dificuldade de integração na sociedade de crianças oriundas da comunidade cigana ou filhas de imigrantes dos países de Leste.Em relação às crianças vindas do Leste europeu, Eliseu Raimundo admite que a barreira da língua é um problema natural mas não o único, já que o sistema educativo tem tido dificuldade em dar resposta à sua integração. Como vão surgindo “a conta-gotas”, com o ano lectivo em curso, as escolas muitas vezes já não têm vagas para as integrar ou não dispõem de professores de apoio para os acompanhar. E os pais optam por as deixar ficar em casa.Já quanto às crianças ciganas, o mesmo responsável destaca que há que acabar com o “vício da esmola” em que muitas caem precocemente. “As crianças vagueiam pelas ruas da cidade e já manifestam alguma agressividade na abordagem às pessoas”, diz, reconhecendo que “tem havido alguma dificuldade” em combater esse problema.A esperança passa pela mediação das crianças e jovens que protagonizam casos de integração de sucesso. “São os nossos porteiros, entre aspas, junto da sua comunidade para nos ajudarem neste processo, sem que esteja em causa a descaracterização dos seus usos e costumes”, declara Eliseu Raimundo.Negligência é a principal causa de problemasO relatório da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Santarém referente a 2002 regista que a maior parte (46%) dos casos acompanhados por essa entidade devem-se a situações de negligência por parte dos pais. Crianças deixadas em casa sozinhas, mal alimentadas ou com falta de cuidados higiénicos correspondem ao grosso da coluna - ao todo são 166 dos 358 casos enumerados, que compreendem os casos transitados de 2001 (195 ao todo) e os 163 instaurados em 2002.Mas isso não quer dizer que por detrás desses delitos aparentemente menores não se escondam situações mais graves. “Nos casos de negligência, por vezes descobrem-se também situações de abuso sexual ou de maus tratos que só são identificadas posteriormente e que, por isso, no relatório, acabam por se manter classificados como casos de negligência”.O abandono escolar precoce é a segunda causa de maior preocupação para os técnicos da comissão, com 52 situações detectadas, seguindo-se os maus tratos físicos (11) e psicológicos (15) infligidos às crianças. Da listagem fria dos números e da estatística ressaltam também algumas evidências positivas, como a de ausência de registos sobre pornografia infantil. Já em termos de prostituição infantil, foi instaurado um processo que envolve uma jovem do sexo feminino.
Comentários
Mais Notícias
    A carregar...