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30/08/2016
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Muitas vezes as funções desempenhadas por "curiosos"
Os “homens” do spray “milagroso”
São setenta os participantes que estão a frequentar o curso de massagista desportivo promovido pela Associação de Futebol de Santarém, que assim pretende aumentar os conhecimentos de quem trata da saúde aos atletas. Com a presença de vários especialistas nacionais, o curso está a agradar aos formandos, que vieram de todo o distrito e de várias modalidades, embora maioritariamente do futebol.
Edição de 26.03.2003 | Desporto
Os massagistas são talvez os elementos menos conhecidos das equipas, mas desempenham uma missão fundamental na recuperação dos “artistas” e na estrutura do clube. Sempre que a vedeta “torce uma unha” e rebola no chão, mesmo que seja só para enganar o árbitro e arrancar um penálti, uma falta perigosa, ou mesmo um cartão amarelo ou vermelho para o adversário, lá estão eles prontos a fazerem um sprint vigoroso e, quanto mais não seja, aplicar o chamado spray milagroso, que “cura” quase todas as mazelas.Mas se nos clubes de maior dimensão já é normal haver pelo menos um massagista credenciado, nos clubes amadores essa missão é geralmente desempenhada por um curioso, que, munido da embalagem de spray, de um saco de gelo e de umas ligaduras e adesivo, tenta aliviar a dor ao atleta para que ele possa prosseguir a jogar.No distrito de Santarém, o último curso de massagistas fora feito em 1988, pelo que não é de estranhar que agora se tenham inscrito 70 formandos. Segundo o Coordenador Técnico Distrital da Associação de Futebol de Santarém (AFS), Luís Filipe Júlio, destas sete centenas de participantes cerca de oitenta por cento não tinha qualquer formação na matéria, o que revela a importância do curso.Os participantes vêm de todo o distrito e de todo o tipo de equipas, dos seniores, aos iniciados, passando pelo futsal e por modalidades como a ginástica ou as artes marciais. O curso tem uma componente mista prática e teórica e no final todos os formandos vão frequentar um estágio de um mês, em que irão aprender com massagistas credenciados.Entre os especialistas que vieram ou ainda virão ao curso contam-se Rodolfo Moura (fisioterapeuta do Sporting), Mariano Barreto (licenciado em Educação Física e fisioterapeuta de vários clubes), Luís Horta (médico e director de Serviços de Medicina Desportiva do IND e responsável pelo controlo anti-doping), Carlos Hipólito (médico), José Lourenço (mestre em ciências de enfermagem), Mário André (enfermeiro e massagista do Sporting) e Luís Filipe Júlio (mestre em psicologia do desporto).O curso aborda, entre outras temáticas, áreas e conteúdos como a anatomia do aparelho locomotor, fisiologia cardio-respiratória, primeiros-socorros, doping, psicologia das lesões desportivas, traumatologia, lesões mais comuns, recuperação em campo após lesão, técnicas de massagens, ligaduras funcionais, departamento médico, exame médico desportivo, a mala de massagista e a relação com outros agentes desportivos, como por exemplo o árbitro.Um massagista que é dermatologistaOleg Lavriv, um cidadão ucraniano, é médico especializado em doenças de pele, acupunctura e medicina chinesa, mas actualmente trabalha em Portugal como jardineiro e cuida do físico dos jovens jogadores do Desportivo de Samora. Esta foi a única forma que encontrou para não perder o contacto com a saúde que motivou mais de 20 anos de intensos estudos e formação.Oleg tem 37 anos, chegou a Portugal há pouco mais de dois anos, mas já conquistou dezenas de jovens jogadores e restante grupo de trabalho do Grupo Desportivo de Samora Correia. O massagista Oleg está sempre atento aos treinos e aos jogos e quando há uma lesão, lá está ele pronto a aplicar o spray milagroso que tira as dores ou a barra de gelo que ajuda a resolver muitas situações de traumatismos e inflamações. Os casos mais complicados são tratados no posto médico onde há um conjunto de equipamentos satisfatório. “O clube é pobre e não tem tudo, mas chega. Na Ucrânia também temos dificuldades”, referiu, enquanto observou o joelho de Bruno, um dos lesionados da equipa de juvenis do Samora. No campo de jogos da Murteira, ninguém o trata por doutor e até os infantis chamam-no pelo nome. “Eu gosto assim. São muito meus amigos. Gosto muito de estar aqui”, disse. O massagista é um adepto entusiasta do Samora e confessou que sofre muito quando está no banco. “Eu quero que eles tragam a vitória. Quando marcam golo eu gosto”, disse. O médico foi descoberto pelo treinador dos juvenis, Rui Conceição, conhecido por “Carapau”. O técnico conheceu Oleg e julgou que tinha ali um bom parceiro para acompanhar o físico dos atletas em formação. “Ele é muito boa pessoa e muito educado. Estuda muito e procura estar sempre actualizado”, disse o treinador.O futebol não é só para homensBrigitte Marques, Rita Faustino e Patrícia Alves são da Linhaceira, concelho de Tomar, e as duas últimas jogam na equipa feminina de futsal da localidade, que está a disputar o distrital de seniores da Associação de Futebol de Santarém.A inexistência de alguém na equipa para desempenhar a função de massagista fez com que as três se inscrevessem no curso, que dizem estar a gostar bastante. Brigitte Marques, a única que não joga, costuma ser a “fisioterapeuta” de serviço, mas confessa que quando entra para assistir uma colega às vezes nem sabe bem o que há-de fazer primeiro.“Antes só punhamos gelo, agora já aprendemos outros pormenores”, conta Patrícia, que diz que uma das coisas mais complicadas era analisar a situação da colega lesionada. Spray e ligaduras são agora outras “ferramentas” de trabalho.Desengane-se quem pense que esta coisa das massagens é só para homens porque as três querem levar o curso até ao fim, embora reconheçam que ainda há muitos preconceitos a eliminar até que seja normal uma equipa masculina ter uma massagista mulher.Um massagista que põe jogadores a fugirRui Tanqueiro é massagista do Moçarriense há três anos e de alguma forma sintetiza o percurso de vários colegas ao serviço de outras equipas do distrital. Começou a ir ver regularmente os jogos do clube e pouco tempo depois entrou para a direcção. Como não havia massagista, começou a exercer a função, embora confesse que não tinha qualquer formação. “Aplicava gelo e punha spray e quando havia uma lesão mais grave mandava a um massagista de Santarém que era o massagista principal da equipa”, conta.Até hoje nunca teve pela frente nenhum jogador com uma lesão mais grave e no clube até há quem diga que só para fugirem às suas massagens os jogadores quando o vêem entrar em campo ficam logo “curados”. “A relação dos jogadores comigo é excelente. Temos paródia todos os fins de semana e quando me vêem entrar em campo fogem todos com medo”, diz em jeito de brincadeira.Sobre o curso de massagistas, Rui Tanqueiro confessa que já aprendeu várias coisas, sobretudo nas aulas práticas, quer aprender mais, mas para já não pensa em dedicar-se mais a sério a esta actividade. Para o futuro não põe de parte a possibilidade de tirar também um curso de treinador e, quem sabe, qualquer dia não assumirá o papel principal no banco de suplentes.
Muitas vezes as funções desempenhadas por "curiosos"
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