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25/07/2017
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Centenas de fiéis prestaram a última homanagem à "Mãe Maria" no Santuário de Nossa Senhora das Graças
Morreu a “Santa da Ladeira”
Exéquias fúnebres prolongaram-se por dois dias
Chamavam-lhe “Mãe Maria” e “Santa da Ladeira”, morreu como qualquer outro simples mortal na madrugada de Domingo, no Hospital de Torres Novas, vítima de uma paragem cardio-respiratória. Tinha 72 anos e fama de vidente e milagreira. Foi sepultada no jazigo feito a seu gosto, no Santuário de Nossa Senhora das Graças, na Ladeira do Pinheiro, sede do seu “Exército Branco”.
Edição de 13.08.2003 | Sociedade
Uma paragem cardio-respiratória pôs termo à vida de Maria da Conceição Mendes Horta, a “Mãe Maria” ou a “Santa da Ladeira”, como ficou conhecida. Tinha fama de vidente e milagreira e será, provavelmente, um dos maiores fenómenos da religiosidade popular das últimas décadas. No funeral de “Mãe Maria”, centenas de fiéis prestaram a última homenagem a esta mulher de 72 anos, natural de Riachos, que ao longo dos anos “curou” os doentes, “entrou em contacto” com divindades, criou uma fundação e exerceu uma considerável acção social, auxiliando idosos e crianças desprotegidos.Maria da Conceição faleceu na madrugada de domingo, dia 10, no Hospital de Torres Novas, onde tinha dado entrada na noite anterior. “A doente apresentava insuficiência respiratória e alguns minutos após ter entrado teve uma paragem respiratória, foi possível reanimá-la, ligando ao ventilador, mas todo o quadro era bastante problemático. Pelas 5 horas da manhã de domingo teve nova paragem cardio-respiratória e já não foi possível reanimá-la”, esclarece Mariano Velez, médico internista que chefiava a equipa de urgência.Transportada para o Santuário de Nossa Senhora das Graças, na Ladeira do Pinheiro, a “Mãe Maria” teve uma longa cerimónia fúnebre que se prolongou por todo o domingo e segunda-feira. O arquimandrita Estêvão da Costa presidiu às cerimónias, ajudado por vários padres ortodoxos. No templo, engalanado com pendões reproduzindo imagens de divindades católicas e oriundos de vários pontos do país de do estrangeiro, centenas de crentes assistiam às exéquias da senhora que tinham como santa.Entre soluços comovidos, as mulheres do “Exército Branco” desfilavam em torno do caixão de Maria da Conceição, beijavam o chão, a urna, o viúvo Humberto Rodrigues Lopes Horta de longas barbas brancas, sentado ao lado dos restos mortais da “santa”. Depois acendiam uma vela, que colocavam junto ao trono onde a “Mãe Maria” assistia aos actos religiosos, beijavam também uma almofada com a sua imagem e voltavam ao lugar. O cortejo durou toda a missa, celebrada segundo o ritual ortodoxo.“Mãe Maria” ficou sepultada num jazigo construído dentro do grande santuário de Nossa Senhora das Graças. Foi Maria da Conceição que disse como devia ser e seguiu com pormenor a construção do jazigo, pintado com anjos e ramos de hera. O templo, sem a sumptuosidade de outras igrejas, é pertença da Fundação Maria da Conceição Mendes Horta e Humberto Rodrigues Lopes Horta como se lê na placa de mármore negro, colocada na fachada principal e foi mandado edificar pela “Santa da Ladeira”. Ao certo ninguém sabe quanto custou esta obra, talvez 1 milhão de contos (5 milhões de euros), como era adiantado na altura da inauguração em Fevereiro de 2000, mas ninguém queria esclarecer pormenores. Fosse qual fosse o montante, foi a fundação que pagou e Maria da Conceição queria transformá-lo num grande santuário ecuménico. “É preciso ter muita fé”, “A Mãe Maria curou o meu marido”, “Era uma Santa Senhora”, “Teve uma vida de sofrimento e era tão boa”. Expressões que se ouviam entre os crentes. Para muitos, “Deus é o mesmo” e tanto vão a Fátima como à Ladeira do Pinheiro. Mesmo entre o “Exército Branco”, um conjunto de mulheres escolhidas por Maria da Conceição para ajudarem na sua obra de acção, havia quem usasse símbolos de Fátima.“Vim aqui pela primeira vez. Calhou”, contava José Teixeira Alves, de Felgueiras, e enquanto almoçava ia conversando: “Não sabia que ela tinha morrido. Mas pelo que vi não noto grande diferença entre o que estes fazem e o que o padre me ensinou na minha aldeia. O Padre Nosso é o mesmo, a Avé Maria é igual e as exéquias a que assisti são exactamente a mesma coisa. Talvez a única diferença é que aqui os padres casam-se”.Um “grande templo ecuménico”A morte da “Santa da Ladeira” poderá abrir um fosso no culto da Ladeira do Pinheiro. Estêvão da Costa, arquimandrita do Santuário de Nossa Senhora das Graças, defende que a “Mãe Maria é uma coisa e o santuário outra”. Na versão de Estêvão da Costa, também secretário da Fundação Maria da Conceição e Humberto Horta, a acção social e religiosa vai continuar: “Queremos que este seja um grande santuário ecuménico, tal como Mãe Maria desejava”.António Raposo, bispo da Igreja Velha Católica, é um dos frequentadores habituais do templo, mas recentemente com a Igreja Ortodoxa de Portugal, ligada à Igreja Ortodoxa Autocéfala da Polónia, surgiu a ruptura: “Foram eles que quebraram não fomos nós, portanto o problema é deles não é nosso. Só sei que no artigo 13.º da instituição, autoriza que a Igreja Ortodoxa celebre no santuário, o que não significa que este seja um templo da igreja ortodoxa”, afirma o arquimandrita.Para Estêvão da Costa este é um problema menor e uma outra igreja ortodoxa já foi escolhida para presidir ás celebrações: “Vamos depender hierarquicamente da Igreja Ortodoxa da Bulgária que vai ter representação no Santuário”.A existência de imagens e de um altar católico no santuário nunca foi do agrado da Igreja Ortodoxa de Portugal, embora fosse o Primaz D. João que celebrou a missa inaugural do templo. Enquanto Estêvão da Costa fazia questão de mostrar o altar católico e afirmava “os católicos podem vir aqui rezar ou celebrar missa, basta que nos peçam”, os padres ortodoxos e acompanhantes de D. João, mostravam-se reservados. A existência do altar católico foi mesmo posta em causa por José Preto, consultor jurídico de D. João, que mais directamente contactava com a comunicação social no dia da inauguração: “Se há um altar católico, digam-me onde está, porque ainda não o vi”. As suas vestes, bem como da estagiária que o acompanhava, eram negras, mas pouco tinham de ortodoxo. José Preto envergava a toga de advogado.
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