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Eu também morri um pouco

Joaquim António Emídio
Edição de 07.01.2004 | Opinião
Desde que deixei de viajar com máquina fotográfica a tiracolo que comecei a dar mais valor às fotos que guardo no meu arquivo pessoal. E, já depois de ter perdido a oportunidade de registar imagens de lugares e das suas gentes, onde nunca mais voltarei com o espírito da primeira viagem, resolvi voltar a cultivar, espero que agora para sempre, este gosto de carregar a máquina fotográfica como se o ofício de jornalista, uma vez assumido, nunca mais pudesse ser rejeitado.Guardo dos meus tempos de infância palavras e imagens de alguns homens que me viram crescer e de quem me habituei, desde sempre, a ouvir pro-nunciar o meu nome próprio. Embora tenha razões da infância, questão que hei - de resolver comigo próprio um dia que volte a ser menino, é desses tempos que se alimenta a minha memória quando, sem tempo para recordar o que vivi nos últimos anos, vou dando por falta de algumas dessas figuras que povoam o meu imaginário.Terei hoje, mais ou menos, a idade da maioria desses homens da minha terra de quem, há cerca de quarenta anos, invejava o rosto barbeado, o peito peludo e as mãos calejadas. Não terei hoje muitos mais anos do que o de alguns homens que, na minha infância, faziam questão de me ensinar como se enxofra. Pisei uvas na adega, assisti às descamisadas, trabalhei nas vindimas, aprendi a arte da poda, durante muitos anos contribui para o orçamento familiar exercendo a arte, entretanto desaparecida, de trabalhar no rabisco da azeitona, do milho, das uvas e da cortiça.A morte recente do “João da Central”, a cujo funeral faltei como tenho faltado a muitos outros, de homens e mulheres que marcaram a minha vida em comunidade, obrigou-me a pensar ( outra vez ) duas vezes sobre a nobre arte da ingratidão.Definitivamente, os afectos já não se cultivam como dantes. Com a morte do “João da Central” eu também morri um pouco. E a terra que, nesta altura, pesa sobre a sua urna também pesa em cima de mim que não consegui tempo para o acompanhar à ultima morada. Com a morte física do “João da Central”, que não fui acompanhar na descida à terra tão entretido que ainda ando a querer “subir na vida”, desapareceu da minha vista mais uma das grandes e gratas figuras que marcaram a minha adolescência.Valeu-me, por agora, o arquivo de fotografias e o meu pequeno dicionário de palavras para resgatar a este pobre mundo de afectos em que hoje vivemos um início de ano menos equilibrado na balança dos meus sentimentos. É que neste meio tempo a morte também levou o “Rua Direita” e o “Zé Vinagre”, outras duas figuras “sem sorte” que, tal como o “João da Central”, de uma ou de outra forma nos ensinaram o que se pode ver na paisagem quando se sobe, de dia ou de noite, ao miradouro da Senhora do Pranto.P:S: Nem o último parágrafo desta pequena crónica que fala de horizontes, e do que cada um de nós consegue ver em cada dia que passa para além dos campos da Chamusca e da Golegã, disfarça a minha falta de inspiração para transmitir tudo o que senti ao voltar a rever algumas imagens do meu arquivo fotográfico. Mais do que as palavras de sentimento pela morte dos homens e das mulheres que moraram na rua da nossa infância, o que é mágico nesta vida é a forma como todos nós vamos aceitando, com mais ou menos ruído, que as imagens nos dêem de volta uma mão cheia de nada.jae

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