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Burla no BES de Torres Novas

Burla no BES de Torres Novas

Subgerente do banco suspensa por suspeita de prática de irregularidades

A subgerente do balcão de Torres Novas do BES foi suspensa há cerca de três meses por ter praticado irregularidades que lesaram dezenas de clientes. A inspecção do banco já detectou 18 casos de seguros de vida não subscritos. E outras situações, como aplicações indevidas em bolsa, estão a ser analisadas.

Edição de 07.01.2004 | Sociedade
A subgerente do balcão do BES de Torres Novas terá praticado, ao longo dos últimos anos, várias irregularidades. Sob suspeita está a utilização das poupanças dos clientes para subscrição de seguros de vida e de aplicações no mercado de capitais (bolsa) sem o consentimento deles. As anomalias só foram descobertas em Agosto último, quando Ana Luísa Assis Ferreira foi de férias.O departamento de comunicação do BES disse ao nosso jornal que neste momento já estão confirmados pela inspecção interna do banco 18 casos de irregularidades referentes a seguros de vida. Mas os responsáveis da instituição admitem outras situações anómalas, que estão ainda a ser averiguadas. “O Banco Espírito Santo assume todos os custos resultantes destas situações perante os clientes”, garante Eduardo Gonçalves. O responsável da instituição garante que o BES pagará até ao último cêntimo a todos os clientes lesados pelas movimentações da funcionária, quer estas tenham sido detectadas pelo próprio banco quer lhe sejam dadas a conhecer pelos próprios clientes. “As reclamações que nos cheguem dos clientes da agência do BES de Torres Novas serão analisadas caso a caso e, a provarem-se anomalias nas suas contas, os clientes serão de imediato ressarcidos dos prejuízos causados”, refere Eduardo Gonçalves, adiantando que em causa está não só a imagem do banco mas a manutenção da relação de confiança com os seus clientes.Ana Luísa Assis Ferreira, que exerceu as funções de subgerente da agência de Torres Novas até à data da suspensão, em Setembro último, arrisca-se agora não só a ser despedida como também a prestar contas à justiça, uma vez que algumas das irregularidades alegadamente praticadas são sujeitas a procedimento criminal.O banco já enviou à funcionária a nota de culpa com intenção de despedimento, tendo esta agora um prazo de cinco dias para contestá-la. Segundo apurou o nosso jornal, a nota de culpa descreve todas as situações anómalas descobertas até agora e avança para o despedimento por justa causa.“O banco é responsável perante os clientes, mas tem de haver responsabilidade da funcionária perante a instituição”.Apesar de poderem existir irregularidades que consubstanciam delito criminal, os responsáveis da instituição financeira mostram-se prudentes, afirmando ser ainda prematuro adiantar algo sobre esse assunto.“Só após as conclusões do inquérito é que o banco tomará as devidas providências e decidirá em conformidade”, referiu Eduardo Gonçalves, adiantando que quando acontecem casos idênticos, a instituição tem por hábito assumir ela própria a dívida. Mas tudo depende obviamente do valor que está em causa. Seguros de vida e aplicações na bolsaSegundo a instituição bancária, os casos já confirmados de irregularidades prendem-se com seguros de saúde e de vida efectuados pela subgerente em nome dos clientes sem que estes tivessem conhecimento. E o valor dos seguros que os clientes aparentemente subscreviam era sempre utilizado para outros fins.Segundo os responsáveis do BES, os casos que envolvem seguros de vida e de saúde são os mais fáceis de detectar. Por isso foram as primeiras irregularidades a ser confirmadas. O MIRANTE sabe no entanto que a inspecção interna do banco continua a investigar todas as movimentações efectuadas pela subgerente. “Há situações que embora detectadas ainda não estão confirmadas”.No caso da subscrição indevida de seguros de saúde e vida, Ana Luísa Assis Ferreira seria movida pelo cumprimento de objectivos impostos pelo banco e pela ambição de ascensão na carreira. O mesmo já não se poderá dizer das aplicações em bolsa feitas à revelia dos clientes. A confirmarem-se essas irregularidades, o banco admite que o objectivo seria sempre o proveito próprio.Algumas fontes ligadas ao processo afirmaram ao nosso jornal que Ana Luísa Assis Ferreira teria inclusive contraído um empréstimo no próprio banco, para pagar a alguns dos lesados que entraram em situação de quase ruptura financeira devido à queda da bolsa.Uma afirmação que é categoricamente desmentida pelos responsáveis do BES. “A funcionária não contraiu qualquer empréstimo junto da instituição”. O que não quer dizer que Ana Luísa Assis Ferreira não o possa ter feito em outra instituição financeira.Margarida CabeleiraO comerciante António Pisco diz que lhe tiraram 40 mil eurosInvestir em fundos em vez de depositar António Francisco Pisco, residente em Chancelaria, é cliente da sucursal de Torres Novas do Banco Espírito Santo (BES) há perto de 40 anos e nunca teve a mais pequena queixa no que respeita à sua relação com a instituição. Até há dois meses atrás, quando descobriu que faltavam cerca de 40 mil euros na sua conta a prazo. Se soubesse o que hoje sabe, António Pisco tinha aceite a sugestão de um amigo de longa data e transferido a sua conta a prazo para um outro banco, que em 2001 abriu uma agência na aldeia de Loureira, perto de Fátima. Em vez disso, decidiu renegociar os termos do depósito a prazo que tinha no BES de Torres Novas.Foi falar com Ana Luísa Assis Ferreira – “era com ela que tratava de tudo por sermos da mesma terra” – e falou-lhe da proposta da concorrência. “Não quero virar as costas ao BES, desde que me dêem a mesma taxa”, terá dito António Pisco.Mas não era qualquer banco que, em 2001, podia dar uma taxa de dez por cento ao ano. Ana Luísa disse que iria falar com a sede, em Lisboa, e depois lhe diria alguma coisa. “Passado pouco mais de uma semana ela e um senhor vieram a minha casa e aqui mesmo, nesta mesa, fez-se o negócio”, refere o comerciante de frutas, adiantando que ficou acordada uma taxa de cinco por cento líquida, vencida a cada seis meses.Desde a abertura da conta a prazo, em Janeiro de 2001, até há dois meses, António Pisco nunca suspeitou de qualquer anomalia nem verificou quaisquer movimentações suspeitas. Semestralmente, Ana Luísa Assis Ferreira dava-lhe uma folha, rubricada por si, onde constava o valor do depósito e a sua renovação por mais 183 dias, à taxa líquida de cinco por cento.O facto de algumas dessas folhas estarem escritas à mão e outras à máquina não levou a que o comerciante desconfiasse de algo. Apesar de nos últimos tempos não receber quaisquer extractos das suas contas. “Sempre que a questionava sobre isso, a resposta era a de que a minha direcção não estava certa e eu ia comendo a desculpa”.Em Julho deste ano, a fazer fé na última folha de lançamento entregue pela subgerente, António Pisco tinha um depósito a prazo de 145 mil euros. E continuou descansado até há cerca de dois meses, quando um amigo da localidade vizinha de Pafarrão lhe falou pela primeira vez de uma suposta burla existente no BES de Torres Novas. “Disse-me para me pôr à tabela que podia ser um deles”.António Pisco foi de imediato ao banco e qual não foi o seu espanto quando descobriu que em vez da tal conta a prazo, alguém lhe tinha aplicado o dinheiro em fundos de investimento. E que ao invés dos 145 mil euros tinha apenas 104 mil euros. “Para onde é que foram os 40 mil euros que me faltam na conta”, pergunta António Pisco, adiantando que Ana Luísa só o pode ter aldrabado. “Eu sempre lhe disse que não queria nada com a bolsa e essas coisas, queria o meu dinheiro sossegado e seguro, a ganhar juros”.O comerciante diz que já foi ao banco mostrar todos os documentos e que lhe disseram para “aguardar uns dias” enquanto tentavam resolver o assunto. “Se não me resolverem a bem resolvem a mal que eu já falei com um advogado e ponho isto em tribunal”, avisa o comerciante.António Pisco é um entre dezenas de clientes alegadamente lesados por Ana Luísa Assis Ferreira. Grande parte deles moram nas aldeias do concelho e são já idosos. Guardavam o dinheiro no banco para os filhos e os netos poderem ter um futuro mais desafogado.
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