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O impressor que tem vaidade naquilo que faz

Há 33 anos que José Augusto César trabalha na profissão

José Augusto Penteado César nunca conheceu outra profissão que não a de impressor. Com 14 anos começou na tipografia Gouveia, em Tomar. Morava então em São Pedro e ainda se lembra de ir para o trabalho a pé, para ganhar 18 escudos por dia.

Edição de 14.01.2004 | Identidade Profissional
Tirou o sexto ano de escolaridade e a mãe pôs na cabeça que filho seu não havia de andar nas obras mas ter um trabalho mais limpo. Por causa da teimosia da mãe José Augusto Penteado César é hoje um dos impressores mais antigos de Tomar. Com 47 anos de idade, 33 foram passados na Tipografia Gouveia.Na altura em que se iniciou na vida activa, com apenas 14 anos, não havia falta de trabalho. A irmã mais velha, que trabalhava já na cidade, fez o pedido num dia e no outro já José Augusto estava ao serviço da tipografia.Durante os primeiros dez anos foi tipógrafo, trabalhou apenas com o chumbo. “O compositor compunha as letras, e eu punha a rama na tipográfica”. Isto é, era José Augusto que agarrava nas letras de chumbo e as colocava por ordem na máquina.O chumbo deitava sempre algum pó mas há 33 anos ninguém falava de segurança no trabalho. José Augusto não sabe se foi por inalar aquele pó durante tantos anos mas a verdade é que já fez duas operações ao estômago, há cerca de 20 anos. “Não sei se foi do chumbo mas eu sou uma pessoa regrada, nunca fumei e pouco bebo”, diz.Quando a modernização chegou à tipografia, com a novidade do off-set, José Augusto acompanhou-a. E passou a ser o impressor off-set de serviço. A diferença do anterior serviço residia no facto de deixar de trabalhar com o chumbo. “Agora trabalhamos com fotolitos, feitos no computador, que vão para a montagem das letras, que ainda sou eu que faço”. A montagem é feita numa mesa de trabalho com tampo de vidro e iluminada por baixo, de modo a poder ver-se bem o fotolito, uma espécie de película fotográfica que é queimada na chapa antes de ir para a máquina, de onde sai já o papel imprimido.Um procedimento muito mais rápido do que na era do chumbo. “Antes chegávamos a estar meia hora para afinar uma chapa, agora é sempre a andar”.O impressor nunca tirou cursos de formação. A sua grande escola foi sempre a empresa. “Tudo o que sei aprendi aqui, à minha custa”, diz quem sempre teve o bichinho da curiosidade, de tentar saber sempre mais – “e também temos que inventar de vez em quando”.Começou com uma máquina de off-set que imprimia apenas a preto e branco, passando mais tarde para uma máquina nova, que imprimia já a duas cores.O trabalho agora é muito mais rápido e a máquina anda à velocidade do empregado. Quando há muito trabalho põe-se a máquina a trabalhar numa rotação mais alta, quando as encomendas abrandam, abranda também a velocidade da impressão. José Augusto diz que nunca pôs a máquina a trabalhar na rotação mais elevada – 10 mil folhas impressas por hora. “Já viu se algum dia temos o azar de saltar um rolo? Aquilo vai tudo para a galheta”, refere o impressor, adiantando que uma rotação de três ou quatro mil folhas impressas por hora “já é andar bem”.Neste momento José Augusto tem três máquinas a seu encargo – duas máquinas off-set a uma cor e uma a duas cores. Mas dá bem conta do recado e às vezes ainda tem tempo para dar uma mãozinha aos que estão na encadernação de livros, arte que aprendeu na empresa quando ainda era gaiato. “É a vantagem de querermos sempre aprender mais alguma coisa”.É só nessa altura que o impressor se senta um bocadinho, mas “cansa-se” depressa. “Há 33 anos que passo o dia em pé e já nem tenho posição se me sento a fazer alguma coisa, começa a doer-me as costas”.O Estado é o grande cliente da tipografia onde trabalha José Augusto. Ali fazem praticamente todo o tipo de papéis necessários aos tribunais, conservatórias e cartórios notariais, essencialmente instalados no Norte do País e alguns também no Alentejo. Curiosamente é raro fornecerem os serviços públicos da região do Ribatejo. Como se costuma dizer, santos da casa não fazem milagres...José Augusto gosta de fazer tudo mas considera que, em termos de trabalho, o mais difícil é fazer a impressão do jornal A Barca, de Constância. “Talvez seja pelo facto do papel ser diferente, mais fininho”, considera.O impressor tem um horário de trabalho fixo – das 08h30 às 18h00 – mas já chegou a entrar às quatro da manhã para ter uma encomenda de folhetos publicitários de supermercado pronta a entregar nessa manhã. “Isso acontecia mais antigamente, agora é mais raro”, contemporiza.Ao fim de 33 anos nesta profissão, José Augusto diz não se sentir nada cansado e é em casa que por vezes se sente aborrecido, principalmente no Inverno. Nessas alturas, como tem a chave da empresa, prefere vir para ali, quanto mais não seja tratar da bicharada que o patrão tem por ali. Uma égua é mesmo a menina dos seus olhos.José Augusto considera-se um bom impressor e um perfeccionista no modo de trabalhar. “Temos que ter um bocadinho de vaidade naquilo que fazemos, senão não somos bons profissionais”.Margarida Cabeleira

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