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Chove como na rua

Condições miseráveis num prédio do centro histórico de Santarém

Maria Beatriz Mata, de 87 anos, vive numa casa em condições deploráveis, no centro de Santarém. Na cozinha estão 14 alguidares e baldes que, quando chove, se enchem numa dezena de minutos. A senhoria nada fez. E a câmara também não.

Edição de 14.01.2004 | Sociedade
O chão do cubículo a que dificilmente se pode chamar cozinha, cheio de madeiras apodrecidas, humidade a rodos e ar carregado, está coberto com mais de uma dúzia de alguidares e baldes. É assim que Maria Beatriz Mata, 87 anos, remedeia as infiltrações que lhe enchem a casa de água sempre que chove. Sempre que o tempo piora, esta inquilina do primeiro piso do número 18, na rua de S. Martinho, no centro histórico de Santarém, já sabe que vai ter a chuva como companhia em três divisões da casa. Além da cozinha, também há infiltrações na sala e na casa de banho, forçando-a a andar de chapéu de chuva aberto em casa.A última situação mais grave ocorreu nos finais de Novembro do ano passado, quando choveu a cântaros na rua e também na sua casa. Desde aí, os alguidares e baldes permanecem no chão, como prevenção.O problema não cai directamente do telhado, porque ainda existe uma inquilina no segundo andar do prédio. “A chuva acumula-se no telhado porque os algerozes estão entupidos e partidos, cai na casa da vizinha de cima, e vem ter a minha casa. E como é óbvio até ao café de baixo”, explica a moradora.Perante a inacção da senhoria, que não vende a casa mas também não faz obras, foi Maria Beatriz Mata que teve de suportar todos os custos de mudanças da sua casa. Além de ter improvisado uma cozinha na divisão ao lado da original, foi forçada a mudar as tomadas e fios eléctricos da casa, deslocou um cano cerca de três metros para fazer casa de banho noutra divisão e comprou uma banheira, arcando com todas as despesas. A pagar uma renda de cerca de 16 euros e a viver naquele prédio há mais 40 anos, aceita o aumento que vai chegar dentro em pouco, mas diz custar-lhe que não se faça nem um pequeno acto de ajuda. Até no tecto, e devido às doses industriais de humidade, nascem cogumelos, como pudemos constatar.A casa já recebeu a visita de um vereador da Câmara de Santarém e há cerca de três anos foi realizada uma vistoria ao apartamento, reconhecendo-se a sua precariedade. Mas nada foi feito desde então. Por isso Maria Beatriz Mata culpa a autarquia por deixar arrastar a situação. Quem também sofre as consequências do péssimo estado do prédio é o café O Verdadeiro Chefe, voltado para o Terreirinho das Flores. Anabela Costa, que explora o estabelecimento, já teve de colocar quatro tectos falsos, mas nenhum resiste às más condições e a água continua a escorrer até ao rés do chão. O resultado é a cobertura toda esburacada na zona da sala das refeições, que deixaram de ser servidas, e na cozinha. A única zona que escapou foi a parte de café, à entrada do estabelecimento.“Já denunciámos a situação à Câmara de Santarém, à protecção civil, aos bombeiros municipais, mas está tudo igual. O ano passado realizaram aqui vistorias, tiraram fotografias e não se resolveu nada”, recordou Anabela Costa. Por isso, permanece o risco de curto circuito e os fusíveis rebentam com frequência. E a empresária exclui voltar a fazer obras, uma vez que o problema subsiste. “Se calhar, quando o prédio cair em cima de nós e quando a vizinha vier parar cá abaixo é que vão lembrar-se disto”, desabafou. Anabela Costa revela que já explorou uma papelaria no outro lado do prédio, pertença da senhoria, e que, nessa altura, também abandonou o negócio devidos aos mesmos problemas. Neste caso, a situação arrasta-se há cinco anos, com as condições a agravarem-se nos últimos três.Contactado por O MIRANTE, o vereador com o pelouro do Urbanismo, Manuel Afonso, reconheceu que já esteve na casa e que as condições eram, então, bastantes precárias. Mas quando o contactámos não estava munido de todos os dados sobre o imóvel.No entanto, recordou que a par da degradação da casa, existem problemas originados pelos pombos, “que além das fezes que depositam nos algerozes, também têm tendência para envelhecer e morrer ali, contribuindo para agudizar os problemas de entupimentos e danificar telhados”, explicou.

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