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Um fundidor a quem não falta trabalho

Um fundidor a quem não falta trabalho

José Manual Carvalho preserva uma arte secular em Alcorochel

Em Alcorochel trabalha um dos últimos fundidores do concelho de Torres Novas. José Carvalho, mais conhecido por Cheta, aprendeu a arte ainda era um rapaz imberbe. Hoje, quase sem concorrência, não lhe faltam encomendas. Mas os tempos livres dedicados às cartas e à caça são sagrados.

Edição de 21.01.2004 | Identidade Profissional
Há um misto de revolução industrial e de alquimia na oficina de fundidor de José Manuel Vieira Carvalho, o Cheta, como é conhecido. Pelo nome de baptismo ninguém o conhece. Até o próprio se esquece que Cheta foi uma alcunha que lhe puseram há muito tempo - “para aí há 45 anos”. José Manuel tinha, na altura, uma namorada em Torres Novas a quem chamavam Cheta e por gozo, ou simples brincadeira, começaram a chamar-lhe pelo mesmo nome da rapariga. “Foi um tipo da Ribeira (aldeia do concelho de Torres Novas) que me pôs a alcunha e ficou. Ninguém sabe quem é o Zé Manel Carvalho, só o Cheta”. E mesmo as facturas desta fundição de Alcorochel têm Cheta no cabeçalho.Mas não é a história da alcunha deste homem de 61 anos que merece a reportagem. Cheta é um dos últimos fundidores do concelho de Torre Novas. Das grandes metalúrgicas do concelho só resta a memória, umas atrás das outras foram fechando e o ofício apenas foi continuado por poucos, por muito poucos.“Sou quase só eu e um outro, o Toinita, que foi meu mestre no Victor Réquio”. Esta era uma das várias fundições do concelho e onde Cheta, com 13 anos, foi aprender a arte. “Aquilo era uma escola, aprendíamos com os mestres e ficávamos a conhecer o oficio. A saber como as coisas se fazem. Hoje vão para as escolas e não sabem fazer nada. Por isso é que há tantos acidentes de trabalho”, diz, exemplificando: “Passa pela cabeça de alguém ir pôr solda num depósito acabado de servir a gasolina? Posso ter algum azar, mas neste anos todos nunca tive um acidente de trabalho”.Cheta fala olhando por cima dos óculos de lentes grossas, enquanto com um pincel e cuidado de mestre retira as impurezas para que o molde fique perfeito. Numa caixa de madeira, o molde em areia humecida delimita o espaço onde o metal irá solidificar. Entretanto, num dos fornos o alumínio vai ficando liquefeito. São restos de moldes, objectos sem préstimo, sucata que vai perdendo a forma a uma temperatura de 600 graus centígrados: “O que não presta vem ao de cima, por baixo fica o alumínio branquinho”, explica Cheta retirando os desperdícios da massa incandescente. “Isto não presta para nada, compramos por bom, mas é lixo”, conta.Cheta desistiu de trabalhar por conta de outrem, em 1977, quando o futuro das fundições era cada vez mais negro: “Aquilo não dava nada”. Junto à casa que habita em Alcorochel montou a oficina e espera pela ajuda da mulher ou dos filhos para despejar o metal liquefeito nas caixas de moldes. “Tenho de ter tudo preparado para a minha Maria me ajudar quando chega do trabalho.” Despejar um cadinho com cerca de 40 quilos de metal a uma temperatura de centenas de graus centígrados não é tarefa fácil. “Não há ninguém que queira trabalhar e eu, para ter aqui alguém que não sabe fazer nada nem quer aprender a ganhar um ordenado, antes quero estar sozinho”, diz.O sistema de correntes em cardante que deslizam em barras de ferro rotativas suspensas no tecto ajuda a retirar os cadinho dos fornos, mas não verte o metal para as caixas. Esse trabalho tem de ser feito à força de braços e com precisão.Sobre a caixa do molde é colocada uma tampa, perfeitamente ajustada, onde é feita uma abertura para despejar o metal e um outro orifício para respirador. Antes desta operação a areia é aquecida com um maçarico para não haver uma grande diferença de temperaturas entre a areia e o metal. Passado algum tempo, pouco, o alumínio está solidificado e o fundidor parte para outra tarefa.“Estes moldes são para uma fábrica de plásticos. São estes trabalhos para a indústria e oficinas que me dão dinheiro e estão sempre primeiro. Mas o que gosto mais de fazer é outras coisas, como artesanato...” Trabalha com alumínio, bronze e latão e também tem alvará para fundir ferro em cadinho – “só coisas pequenas, se não precisava de um alvará especial” – e do que gosta mais é de trabalhar em bronze.Funde a temperatura muito mais alta, perto dos 2000 graus, e as peças que permite fazer, polidas ou por polir, têm muito mais nobreza. “É o primeiro dos metais”.As prateleiras da oficina estão cheias de caixas de moldes em gesso de peças que encomendam a Cheta. Bonecos que servem de suporte a relógios, peças de autor que algum escultor da região lhe pede para fundir, braços de bancos, lanternas e bicos para portões. Há de tudo. “Eu gosto é destas coisas, mas como não me dão dinheiro tenho de as deixar para trás e fazer aquilo de que gosto menos, porque é isso que me dá dinheiro. É assim…”.E é tudo um pouco assim. Paredes da cor do ferro guardam um ar misterioso que os velhos fornos de tijolo pequeno, vedados com portas de ferro, acentuam. Depois são as caixas de areia escura e húmida para fazer moldes, guardadas nas bancadas onde se moldam novas formas, os sacos de areia amarelada ainda por estrear, os velhos tachos onde se queima o açúcar com que se amassa a areia, para situações especiais, ou ainda o velho telefone em baquelite preta e com modelo digno de museu. Esta quase relíquia também tem a sua particularidade. Toca como qualquer outra, mas só depois de Cheta bater com o auscultador na bancada se pode estabelecer a comunicação. De outra forma não se ouve nada.Trabalho é coisa que não lhe falta, o que lhe falta é tempo. “É de manhã à noite, nem preciso de fazer publicidade, tenho clientes de todo o lado e trabalho que chegue, mas os bons clientes nunca são de mais”.Para além de saber da sua arte, Cheta aprendeu a dividir o seu tempo e criar um ritmo muito seu de que não abdica: “Tem de ser. Aos sábados e domingos à tarde é para cartas e ao domingo de manhã é para a caça. Nos outros dias se o trabalho aperta e há prazos rigorosos para cumprir posso trabalhar noite dentro ou começar de madrugada. Até poder vai ser assim, depois... fechem a porta.”Margarida Trincão
Um fundidor a quem não falta trabalho

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