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Legalismos e hipocrisias

Edição de 21.01.2004 | Opinião
Afirmou alguém num tempo que o tempo já esqueceu, que a democracia é o melhor dos sistemas possíveis e o pior dos desejáveis!Assente formalmente em decisões de maiorias supostamente livres e autónomas, o sistema vem desenvolvendo, contudo, mecanismos destinados a optimizar a eficácia da sedução e manipulação de consciências, induzindo, cada vez mais subtilmente, influências convenientes sobre a maneira de ser e de pensar de todos nós. Maneiras que se pretendem homogéneas e globais, direccionadas e massificadas, numa lógica, muitas vezes inequívoca, de rebanho. Não admira, portanto, que pululem entre os “senhores do mundo”, atitudes e decisões que, entre outras coisas, condicionam a moral e até a própria legalidade ao sabor dos seus interesses conjunturais. Legalistas por se servirem dos meandros das leis ou, ainda, por forçarem novas legalidades face a impostos e irredutíveis factos consumados.Seleccionemos apenas alguns exemplos mais paradigmáticos. São hipocrisias legalistas que marcaram o ano que agora finda:- Veja-se, em termos internacionais, o G. I. Joe “Bush” desencadeando uma guerra desnecessária e ilegal face a quaisquer pressupostos do Direito Internacional, e tentando agora através da diabolização dos dirigentes inimigos (colocados lá, assinale-se, pelos serviços secretos americanos) e da partilha dos despojos, justificar o que só tem justificação nos interesses económicos e geo-estratégicos da grande potência. E a lógica da partilha é, aliás, muito simples: quem participa na ocupação avaliza-a implicitamente. Quem não participa fica de fora na partilha de lucros da dita “reconstrução”: que o petróleo, como sempre, há–de pagar.É um caso típico de hipocrisia: exercício que foi de estrita razão da força, tentando com o passar do tempo, o repartir de privilégios e a evidência do facto consumado, tornar-se, agora, força da razão!-Veja-se, a nível nacional, a hipocrisia de uma justiça feita à medida de quem pode pagar! Daqueles que dela podem optimizar vantagens, acarretando por arrastamento a perpetuação das situações dramáticas das vítimas. Vítimas crianças; sujeitos perpétuos dos mais variados abusos. Crianças entregues a instituições públicas ou pertencentes a famílias cuja deplorável situação económica chega, às vezes, a entender a vergonha como preferível à fome! Relações abjectas que se alimentam da miséria!Vitimas de uma sociedade hipócrita que finge não ver. De um sistema mediático que faz dos suspeitos verdadeiras estrelas. De uma justiça que dizem que é cega mas que, não obstante, (apesar de alguma aragem de renovação) às vezes, parece mesmo ver, apesar de só de um olho!- No contexto regional seleccionemos a hipocrisia de uma classe política que, sujeita a interesses pessoais e de grupo, deixou cair em definitivo a hipótese do Ribatejo poder vir a ser uma entidade administrativa autónoma (leia-se, ficou literalmente fora da partilha de poder em curso) e vem agora, cinicamente, menorizar tal pretensão. “Afinal não é assim tão grave”. “Se calhar até é vantajoso em termos económicos”. “No fundo, continuamos sempre a ser ribatejanos!”Pois é! São verdes, não prestam!- Finalmente em termos locais, destaque para os herdeiros da família Rebelo da Silva, durante décadas particularmente avessos a qualquer solução patrimonial para a conhecida “casa da joaninha” (no Vale de Santarém) e que, agora, carecendo de autorização municipal para uma urbanização em terrenos alagadiços, de especial propensão agrícola e em plena linha de água, se mostram perfeitamente abertos a qualquer projecto cultural para o “monte de ruínas” em que a dita casa está, hoje, transformada.É mais um crime ecológico a juntar à urbanização da, hoje chamada, Quinta da Mota. Mais uma vez sem que os responsáveis autárquicos (tão lestos e oportunos a facilitar legalisticamente tal pretensão), saiam ilesos de responsabilidades.Em suma: oportunistas interpretações de leis, artifícios morais e manipulações de consciências conjugam-se cada vez mais para optimizar o poder da influência. Entre outras coisas, permitindo inquietantemente a perpetuação de insuspeitáveis vícios privados, enquanto, hipócrita e publicamente, se apregoam vastas e castas virtudes.

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