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Nevoeiro traiçoeiro

Nevoeiro traiçoeiro

Choque em cadeia na A23 envolve 80 viaturas e faz mais de vinte feridos

Um manto de nevoeiro denso e repentino esteve na origem de um choque em cadeia na A 23 que pôs fora de combate cerca de 80 viaturas. Vinte feridos, três deles em estado grave, foi o balanço do acidente.

Edição de 21.01.2004 | Sociedade
Com a mão esquerda ligada e ar combalido, Elsa Graça passou a porta da urgência do Hospital de Torres Novas. A jovem, residente em Tomar, foi um dos 20 feridos resultantes do choque em cadeia que, na manhã de sexta-feira, 16 de Janeiro, aconteceu na Autoestrada 23 pouco antes das portagens para a Autoestrada 1. Elsa lembra-se apenas que eram quase nove da manhã que estava um dia de sol e que, de repente, entrou num banco de nevoeiro denso. “Quando entrei no nevoeiro só vi as luzes traseiras dos automóveis a acenderem e ouvi os carros todos a bater uns nos outros”, diz quem viveu a situação por dentro.A maioria dos automobilistas que circulava naquele troço da A23 teve a mesma percepção que Elsa Graça. Isto é, quando se aperceberam de que algo de errado ia acontecer, já estava de facto a acontecer. O resultado foi um choque em cadeia de 80 viaturas, que provocou duas dezenas de feridos e obrigou ao corte daquela via nos dois sentidos. Durante quatro horas não faltou trabalho aos homens das dez corporações de bombeiros e da Brigada de Trânsito que estiveram no local.No sentido Torres Novas-Autoestrada 1, a fila de viaturas batidas prolongou-se por dois quilómetros, envolvendo mais de 50 viaturas. Na faixa contrária foram 23 os carros sinistrados. Apesar do aparato das viaturas desfeitas encaixadas debaixo dos camiões que seguiam à frente, o acidente de sexta-feira teve consequências menos graves do que a situação faria supor. Ângela Marques, por exemplo, saiu do monte de chapas amalgadas sem sequer um arranhão. A habitante em Ourém, que todos os dias faz aquele percurso até Santarém, só se lembrava do nevoeiro a “aparecer de chapa”. “Não deu para fazer nada. Apenas vi um carro a voar e um outro que se enfaixou num camião”, diz já refeita do susto.No meio do azar, Elsa Graça considerava-se no entanto uma pessoa com sorte. Quando entrou no banco de nevoeiro apareceu-lhe a traseira de um camião e “em cinco segundos” teve de pensar o que seria menos perigoso: bater-lhe ou desviar-se para a faixa de segurança sem saber bem o que a esperava à frente. Optou por encostar-se toda à direita e acabou por bater num Rover já parado, subindo de seguida a ribanceira, onde ficou “estacionada”.Menos sorte teve o condutor do Opel Corsa que não teve a destreza de Elsa e se enfaixou na traseira do camião, sendo um dos três feridos que tiveram de ser desencarcerados. Dos restantes, sete foram socorridos no local por médicos do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), um seguiu para o hospital de Santarém e outro para o de Abrantes. No hospital de Torres Novas deram entrada 11 feridos, “oito ligeiros e três apresentando alguma gravidade, mas sem correr perigo de vida”, como esclareceu o chefe de equipa do serviço de urgência do Hospital Rainha Santa Isabel, Mariano Velez. Enquanto no hospital os doentes eram atendidos, na A23, os agentes da Brigada de Trânsito (BT), comandados pelo tenente coronel Marcelino, de Santarém, faziam os registos dos sinistrados para os lesados participarem às respectivas seguradoras.E Elsa Graça, com a mão enfaixada e dorida e a cabeça a latejar, tentava concentrar-se ao máximo para explicar ao agente da BT como tinha ido bater na traseira da carrinha Rover novinha em folha de Tiago Gaspar.O médico, que seguia para Alcanena acompanhado pelo filho, ainda se mostrava incrédulo com que tinha acabado de acontecer – “o nevoeiro apareceu de repente, comecei a ouvir carros a baterem, puxei para a faixa de segurança peguei no meu filho e fugimos para a ribanceira”.Já a salvo, Tiago Gaspar viu o Renault Clio conduzido por Elsa Graça embater no seu próprio carro. “Estamos bem e as moças que bateram no nosso carro ficaram com ferimentos ligeiros. Era impressionante o ruído dos carros a chocarem e o nevoeiro que não nos deixava ver nada... Sentíamo-nos impotentes”, adianta o médico olhando para os muitos carros transformados em sucata.O acidente da passada sexta-feira ocorreu quase quatro anos depois do maior choque em cadeia registado nas auto-estradas nacionais. Em 21 de Fevereiro de 2000, os embates começaram perto do quilómetro 84 da A 1, envolveram 105 viaturas e o saldo foi muito mais trágico: quatro mortos e 73 feridos.
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