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Reivindicar estradas nos cem anos do comboio

Reivindicar estradas nos cem anos do comboio

Autarcas do Cartaxo e Coruche deixaram as críticas para D. Duarte de Bragança

Na cerimónia que assinalou os cem anos da ponte D. Amélia e do ramal ferroviário do Setil, os presidentes das câmaras do Cartaxo e Coruche optaram por não reivindicar mais comboios ou a recuperação de estações ao abandono, optando por centrar as suas reivindicações em novas ligações rodoviárias. A favor do meio de transporte centenário só ergueu a voz D. Duarte de Bragança.

Edição de 21.01.2004 | Sociedade
Um século depois de ter sido saudado como grande novidade e factor de desenvolvimento, o comboio passou à história nos concelhos de Coruche e Cartaxo e as vias de comunicação rodoviária são a grande prioridade. Pelo menos é o que fica dos discursos oficiais da cerimónia que assinalou os cem anos da ponte Rainha D. Amélia no ramal do Setil.Apesar da circulação de composições de transporte de passageiros ser residual naquela linha, que liga o Setil a Vendas Novas, o presidente da Câmara de Coruche, Dionísio Mendes (PS), considera que o concelho está bem servido em termos ferroviários e prefere reclamar a construção dos itinerários complementares – 10 e 13 - incluindo uma nova travessia rodoviária do Vale do Sorraia. “Consolidado que está o caminho de ferro tem que pensar-se o futuro de uma outra forma. As acessibilidades rodoviárias de ligação à capital são fundamentais”, afirmou o autarca, quarta-feira, dia 14.A via ferroviária que atravessa o concelho serve principalmente o transporte de mercadorias, como o carvão, pedra e areia. As estradas têm hoje a importância que o caminho de ferro teve há um século para desgosto dos ferroviários mais saudosistas. “Se os comboios fossem revitalizados as pessoas deixavam as cidades e vinham para os campos. As hortas apareciam amanhadas e as caçadas eram feitas”, desabafava, comentando os discursos, um inspector da Refer em Coruche, representante de uma terceira geração de ferroviários que já não terá continuidade.Exemplo de que a rodovia tem ganho terreno em relação aos transportes ferroviários é a própria transformação da ponte D. Amélia, uma obra de engenharia assinada por António de Vasconcellos Porto, em ponte rodoviária. Nem o presidente da câmara de Coruche, nem o seu colega do Cartaxo, Paulo Caldas (PS), que participou na cerimónia, reivindicaram qualquer investimento no caminho de ferro. Como é sabido a luta desenvolvida pelo edil do Cartaxo tem sido pela construção de um nó de ligação da cidade à A1. O único a lamentar o desinteresse na revitalização dos caminhos de ferro foi D. Duarte de Bragança, convidado de honra das comemorações do centenário da ponte inaugurada com pompa e circunstância a 14 de Janeiro de 1904 pelo Rei D. Carlos. O duque de Bragança é um habitual utilizador do comboio e considera que continua a ser um dos meios de transporte mais económicos e fiáveis. “No ano passado morreram 1500 pessoas nas estradas, mas não morreu ninguém de comboio. Os países que dão prioridade aos automóveis são os países de terceiro mundo onde não há capacidade organizativa. O Estado também gasta o dinheiro da União Europeia a fazer obras de luxo e abandona as mais importantes que o país deveria ter”.Para D. Duarte o comboio é também um meio de transporte mais pontual e menos poluente. “Ir de Coruche a Lisboa de comboio poderia demorar uma hora. De carro as pessoas gastam uma e meia a duas horas conforme os engarrafamentos”, analisa. O duque de Bragança não compreende porque continuam sem intervenção os apeadeiros das estações que são marcos históricos do caminho de ferro. É o caso do degradado apeadeiro de Sant’ana, no Cartaxo, onde os comboios efectuam cada vez menos paragens.Uma viagem para recordarDepois de uma curta viagem de comboio iniciada na estação do Setil (Cartaxo) a comitiva chegou ao apeadeiro do Morgado, em Porto de Muge. À entrada da ponte, onde em 1904 o rei fazia as honras da casa, D. Duarte de Bragança, autarcas e ilustres representantes da Real Associação do Ribatejo foram recebidos por alguns populares e alunos da Escola de Pontével com vestes antigas. A viagem de comboio foi retomada em Muge (Salvaterra de Magos), do outro lado do Tejo, e prolongou-se até Coruche. Na viagem de regresso avista-se a velha ponte ferroviária que serve hoje o trânsito rodoviário entre o Cartaxo e Salvaterra. “Ponte D. Amélia quem te viu e quem te vê/ quem te vier visitar venha de carro ou venha a pé/ venha de carro ou venha a pé/ venha triste ou sorridente, viva o D. Duarte e também os presidentes”, solta de improviso uma habitante de Porto de Muge. Em dia de comemoração do centenário da construção do ramal e da Ponte Rainha D. Amélia, os autarcas limitaram-se a sublinhar a importância estratégica que as estradas têm actualmente para os municípios.Ana Santiago
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